Vários diplomatas de alto escalão dos Estados Unidos destacados para a Organização dos Estados Americanos (OEA) pediram demissão ou foram dispensados após conflitos com um embaixador nomeado por Donald Trump, segundo seis fontes familiarizadas com o assunto. As mudanças reduziram significativamente a experiência institucional disponível na tradicionalmente importante missão americana.
Fundada em 1948, a OEA é o principal fórum multilateral do Hemisfério Ocidental e atua em temas como segurança regional, direitos humanos, democracia e desenvolvimento econômico. A organização, sediada em Washington, desempenhou papel central na resolução de disputas eleitorais na América Latina nos últimos anos e frequentemente reuniu aliados dos EUA para condenar violações de direitos humanos em países autoritários, como Cuba e Nicarágua.
Nos últimos meses, porém, a missão americana junto à OEA enfrentou elevada rotatividade de pessoal. Segundo as fontes, deixaram seus cargos o vice-chefe da missão, o chefe de gabinete, um conselheiro político e pelo menos outro integrante do Serviço Diplomático dos EUA.
As fontes, que falaram sob condição de anonimato por tratarem de questões de pessoal, afirmaram que esses funcionários representavam uma parcela significativa da missão americana, que normalmente conta com apenas alguns diplomatas de carreira em tempo integral, constituindo praticamente toda sua equipe de liderança.
As saídas são mais um exemplo de como o governo Trump vem remodelando o corpo diplomático americano, frequentemente afastando diplomatas de carreira dos postos de maior influência.
As mudanças também refletem o profundo ceticismo da administração em relação às instituições multilaterais, mesmo em regiões estrategicamente importantes como a América Latina, à qual Washington tem dedicado mais atenção e recursos.
Segundo as fontes, parte dos funcionários que deixaram a missão entrou em conflito com o atual embaixador, Leandro Rizzuto Jr., amigo pessoal do presidente Donald Trump, cujo estilo de gestão foi considerado por muitos diplomatas de carreira como confrontador e errático.
Em um episódio ocorrido no início deste ano, Rizzuto comparou funcionários que levaram preocupações sobre a missão diretamente à liderança do Departamento de Estado a “ratos”, disseram duas das fontes.
Em entrevista à Reuters, Rizzuto contestou as críticas ao seu estilo de gestão, embora tenha reconhecido que vários diplomatas seniores pediram demissão ou foram dispensados recentemente.
Ele diz que está tentando redirecionar o foco da OEA, afastando-o de temas como direitos humanos e democracia e aproximando-o de questões econômicas, mudança que, segundo afirma, desagradou parte dos funcionários do Departamento de Estado.
Ele não respondeu a um e-mail posterior solicitando comentários especificamente sobre a declaração envolvendo os “ratos”.
“Sou um homem de negócios. No fim das contas, quero resultados e, sem levar para o lado pessoal, se você não consegue fazer o trabalho, prefiro que tenha outro emprego”, afirmou Rizzuto.
O Departamento de Estado não respondeu a uma lista detalhada de perguntas enviada pela Reuters. Os diplomatas seniores afastados não puderam ser contatados, não responderam aos pedidos de comentário ou se recusaram a comentar.
Rizzuto afirmou que os funcionários que saíram foram substituídos por profissionais de alto desempenho.
Foco no Hemisfério Ocidental
Autoridades do governo Trump questionaram publicamente a relevância atual da OEA, assim como fizeram em relação a outras instituições multilaterais. Ao mesmo tempo, argumentaram que a organização poderia realizar reformas para demonstrar sua utilidade no século XXI, incluindo uma atuação mais destacada em temas de segurança hemisférica e combate ao crime.
Desde que retornou à Casa Branca, Trump reafirmou fortemente o papel dos EUA na América Latina, de forma mais evidente por meio de uma operação militar que capturou o presidente da Venezuela e favoreceu a permanência de líderes mais alinhados a Washington.
Rizzuto, herdeiro bilionário de uma fortuna do setor de cosméticos, foi indicado durante o primeiro mandato de Trump (2017-2021) para servir como embaixador em Barbados e em outras duas nações do Caribe.
A indicação fracassou após revelações de que ele havia republicado teorias conspiratórias na rede X, incluindo uma alegação falsa de que a esposa do senador republicano Ted Cruz participava de um plano secreto para unificar os governos dos EUA, México e Canadá. Posteriormente, foi nomeado para o principal posto diplomático dos EUA nas Bermudas, cargo que não exige aprovação do Senado.
Já no segundo mandato de Trump, Rizzuto obteve confirmação para o cargo de embaixador sem grandes controvérsias e assumiu a missão junto à OEA no final do ano passado.
Após assumir o posto, mandou instalar um grande retrato a óleo de si mesmo no vestíbulo principal da missão americana junto à OEA, segundo três das fontes. Rizzuto não respondeu a perguntas enviadas por e-mail sobre o quadro.
Na entrevista à Reuters, Rizzuto afirmou que foi responsável pelo afastamento do vice-chefe da missão e do chefe de gabinete, enquanto o conselheiro político decidiu pedir demissão. Descreveu-se como “o homem mais justo possível” e afirmou que sempre apoiou os funcionários que se dedicavam integralmente ao trabalho.
As fontes rejeitaram a sugestão de que os funcionários do Departamento de Estado fossem incompetentes ou desinteressados.
Sob o governo Trump, o Departamento de Estado passou por uma profunda transformação. Críticos afirmam que as mudanças frequentemente prejudicaram servidores públicos de carreira. Centenas de diplomatas foram dispensados em demissões em massa no ano passado e, em dezembro, a administração removeu quase 30 embaixadores de carreira, deixando muitos desses postos vagos.