Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), compartilhado com o Cointelegraph Brasil, entre 16% e 18% da cesta de consumo dos brasileiros sofre influência direta ou indireta do dólar. O levantamento sugere que uma exposição semelhante a ativos dolarizados pode ajudar a neutralizar parte do impacto cambial sobre o poder de compra da população.
“O brasileiro já está dolarizado sem perceber. O problema é que essa exposição normalmente acontece apenas quando os preços dos produtos consumidos sobem. Ter parte do patrimônio em ativos atrelados ao dólar pode funcionar como um mecanismo de proteção e diversificação”, afirma Pedro Fontes, Analista de Research do MB | Mercado Bitcoin.
De acordo com o MB, o crescimento das stablecoins reflete essa transformação. Juntas, USDT e USDC já somam mais de US$ 260 bilhões em circulação, movimentando volumes superiores à base monetária de diversos países. As reservas que lastreiam esses ativos são compostas majoritariamente por títulos do Tesouro americano, colocando suas emissoras entre os maiores financiadores da dívida pública dos Estados Unidos.
“A tecnologia eliminou grande parte da burocracia associada à dolarização. Hoje é possível acessar o dólar em segundos, sem depender dos processos tradicionais do sistema financeiro internacional”, afirma Pedro.
Stablecoins deixam fase de promessa
Para Giuliano Kohler Silva, Head of Crypto / FX Desk do Banco Braza, o avanço das stablecoins ocorre de forma menos visível ao público, mas com impacto crescente em pagamentos, liquidação e transferências internacionais.
Enquanto boa parte do debate sobre criptoativos ainda se concentra na volatilidade do Bitcoin e de outros tokens, as stablecoins ganharam espaço por oferecerem exposição a moedas como dólar e real em redes digitais. O uso tem crescido principalmente em mercados emergentes, onde empresas e pessoas buscam acesso a moedas fortes, eficiência cambial e alternativas para operações financeiras internacionais.
“As stablecoins não são mais um experimento ou uma tendência emergente. Elas já operam, de forma silenciosa, como uma camada funcional do sistema financeiro global”, afirma Kohler.
Segundo o analista, o crescimento das stablecoins responde a limitações históricas do sistema financeiro tradicional, especialmente em operações cross-border. Transferências internacionais ainda envolvem custos elevados, prazos longos e a participação de vários intermediários, o que abre espaço para soluções digitais com liquidação mais rápida.
Kohler afirma que, nesse contexto, as stablecoins passaram a funcionar como um “atalho operacional” para empresas e instituições que precisam movimentar recursos entre países. A liquidação quase instantânea, o acesso a liquidez global e a redução de fricções tornam esses ativos relevantes em operações comerciais, financeiras e cambiais.
“O avanço das stablecoins responde diretamente a ineficiências históricas do sistema financeiro. Em operações internacionais, elas permitem liquidação quase instantânea, com menor custo e acesso mais direto à liquidez global”, diz.
De acordo com estudo citado pelo executivo e atribuído à Chainalysis, o volume transacionado em stablecoins teria atingido cerca de US$ 28 trilhões em 2025. Para Kohler, o número mostra que esses ativos já rivalizam, em determinados momentos, com redes tradicionais de pagamento em liquidação bruta.
Regulação pode acelerar entrada de bancos no setor
A avaliação do analista é que a regulação passou a exercer papel central na consolidação das stablecoins. Em vez de representar apenas uma barreira ao setor, regras mais claras sobre emissão, custódia e uso desses ativos podem reduzir incertezas e abrir caminho para maior participação de instituições financeiras tradicionais.
Kohler vê os bancos em posição favorável nessa disputa. Segundo ele, instituições financeiras já operam em ambiente regulado, acumulam experiência em gestão de risco, compliance e liquidez, além de manterem relacionamento direto com clientes e acesso ao sistema financeiro global.
“A pergunta deixou de ser se as stablecoins serão adotadas. A questão agora é quem vai liderar essa infraestrutura”, afirma. “Bancos têm uma vantagem estrutural porque já lidam com regulação, risco, liquidez e confiança institucional.”
O analista pondera que big techs também têm papel relevante, sobretudo pela capacidade de escala e pela experiência em interfaces digitais. No entanto, ele avalia que, em operações financeiras de grande volume, a solidez institucional, a regulação e a confiança tendem a pesar mais do que a conveniência isolada.
Adoção ocorre nos bastidores do sistema financeiro
Parte do avanço das stablecoins ocorre de forma pouco visível para o consumidor final. Diferentemente de outras inovações associadas ao mercado cripto, esses ativos muitas vezes operam nos bastidores, como infraestrutura para liquidação, pagamentos e movimentação de recursos.
Para Kohler, essa característica ajuda a explicar por que a adoção cresce sem o mesmo nível de exposição pública visto em outros ciclos do mercado digital. “As stablecoins são menos sobre narrativa e mais sobre eficiência. Muitas vezes, elas aparecem nos bastidores, resolvendo problemas operacionais que o usuário final nem sempre enxerga”, afirma.
Apesar do avanço, o analista ressalta que as stablecoins ainda enfrentam desafios. Entre eles estão a padronização regulatória entre países, a interoperabilidade entre sistemas e a gestão de riscos ligados à emissão, reservas e custódia.
Ainda assim, Kohler afirma que o setor financeiro não pode mais tratar o tema como uma tendência distante. Para ele, instituições que conseguirem integrar stablecoins de forma segura e alinhada às exigências regulatórias poderão ganhar eficiência operacional e relevância em um sistema financeiro em transformação.
“Ignorar esse movimento não é mais uma opção estratégica viável. O debate relevante agora não é sobre o potencial das stablecoins, mas sobre como integrá-las de forma segura, eficiente e regulada”, conclui.
Stablecoins regionais
Já Fábio Plein, Diretor Regional da Coinbase para as Américas, destaca que o crescimento das stablecoins ligadas a moedas locais mostra que o mercado ultrapassou a fase de discutir apenas o potencial para alcançar o uso real no mundo prático.
Segudo ele, mesmo com as stablecoins lastreadas em dólar ainda dominando, o avanço de alternativas em moedas como o Euro e o Real indica uma menor dependência de conversões cambiais.As stablecoins denominadas em reais brasileiros expandiram de um volume mensal de aproximadamente $180 milhões para cerca de $1 bilhão.
“Esse crescimento demonstra que as stablecoins estão começando a atuar como infraestrutura financeira. Tanto no Brasil quanto globalmente, vemos as stablecoins funcionando nos bastidores, enquanto a experiência do usuário permanece simples, muito semelhante a qualquer outro método de pagamento. O Brasil é um dos mercados onde isso já é mais visível: a combinação do Pix com avanços regulatórios ajudou a integrar o blockchain ao sistema de pagamentos, acelerando casos de uso reais em moeda local.”, aponta