Foi uma tarde de grande emoção voltar ao Museu Nacional para a abertura da exposição “Rescaldo das memórias”, de Vik Muniz. Tenho, assim como tantos outros cariocas, uma relação íntima com este prédio e seu acervo. Aprendi a desenhar copiando os seus fósseis, habilidade transferida ao meu filho que a exercitava nos mesmos salões. Conhecia cada detalhe daquela construção… capitéis, balaustradas e entalhes. De tanto frequentar aqueles espaços, me arrisco a dizer que até suas manchas de mofo e de infiltrações me eram familiares. Marcas que não só contam, mas contêm o rico passado deste palácio, que já foi morada de reis e imperadores.
Portanto, me recordo também, sempre com muita dor, da terrível sensação de avistar labaredas de fogo subindo alto naquele final de tarde de setembro, há oito anos, quando voltava de Petrópolis pela Linha Vermelha e intuí, imediatamente, que queimava o museu que eu tanto amava. Pois essa dor também ardeu no Vik, uma das mentes mais brilhantes e inquietas deste país. Paulista de nascimento, cidadão do mundo e carioca por adoção, que através do seu trabalho abriu as portas das mais importantes instituições do planeta, também tinha especial carinho por esta, o primeiro museu que conheceu, aos 8 anos, quando trazido ao Rio por seu pai.
Quem o conhece sabe que Vik não se emociona fácil, mas a destruição deste símbolo o sensibilizou. Passado o período forense, deu um jeito de se juntar às equipes de resgate e colocou a sua arte a serviço da memória. Resolveu criar uma série, cuja doação do resultado de suas vendas ajudou no custeio de parte significativa dos trabalhos de recuperação arqueológica do acervo, não coberto pelo seguro. É curioso imaginar o cenário de emergência encontrado pelo artista naquele trimestre final do ano de 2018… pesquisadores e arqueólogos garimpando resquícios dos mesmos objetos obtidos por arqueólogos de outrora, no interior do próprio edifício destinado justamente a exibir tal arqueologia. Pura metalinguagem. Curioso descobrir também que o incêndio revelou desconhecidas camadas históricas do prédio, hoje reveladas ao público em um primoroso trabalho de reconstrução e restauro liderado pelos escritórios H+F Arquitetos e Atelier de Arquitetura e Desenho Urbano, com coordenação de Lucia Basto, do Projeto Museu Nacional Vive.