Graduados de universidades americanas culpam a inteligência artificial por suas dificuldades em encontrar emprego após pagarem centenas de milhares de dólares para frequentar instituições de prestígio.
O ex-executivo-chefe (CEO) do Google, Eric Schmidt, foi vaiado durante seu discurso de formatura na Universidade do Arizona após afirmar que a transformação tecnológica causada pela inteligência artificial seria “maior, mais rápida e mais impactante do que tudo o que aconteceu antes”.
Mas os estudantes de ciência da computação, em particular, estão competindo diretamente com a inteligência artificial.
“Me candidatei a cerca de 8 mil vagas”, mas “ainda não consegui um emprego em tempo integral”, disse Dhruv, formado em sistemas de informação pela Universidade de Nova York.
Quando Dhruv, que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, se mudou para os Estados Unidos para fazer pós-graduação, as empresas de tecnologia estavam contratando em massa, oferecendo salários altos. Ele tinha certeza de que conseguiria ganhar pelo menos US$ 200 mil por ano. Mas não conseguiu encontrar nem mesmo um estágio e reduziu suas metas para US$ 120 mil. Agora, ele só quer encontrar um emprego.
Dhruv argumenta que a inteligência artificial está se tornando uma barreira para os inexperientes. “Antes, para vagas de nível inicial, se você soubesse uma linguagem de programação e talvez uma ou duas ferramentas, isso era suficiente”, disse ele.
“Agora, as vagas de nível inicial exigem de três a cinco anos de experiência”, afirmou.
“Como vou adquirir experiência se ninguém me contrata?”, questionou Dhruv.
“É um ciclo vicioso”, disse ele. “Eles querem experiência, mas você não consegue experiência sem um emprego.”
Muitos recém-formados estão desistindo dos empregos que almejavam.
Haram Kang se formou em ciência da computação pela Universidade Rutgers, em Nova Jersey, com o objetivo de se tornar gerente de projetos. “As pessoas sempre diziam que, se eu estudasse ciência da computação, tudo daria certo”, disse ela. “Dez anos atrás, até mesmo cinco anos atrás, isso provavelmente era verdade”, disse Kang.
Mas “quando nos formamos, o mercado já estava completamente saturado”, afirmou.
Kang se candidatou a mais de 200 empresas apenas no último ano da faculdade e a pelo menos 500 nos dois anos seguintes à formatura. Embora tenha adquirido experiência por meio de estágios, eles não a levaram a vagas efetivas.
“Eu não estava mais pensando no meu emprego dos sonhos”, disse ela. “Eu só precisava trabalhar.” Ela acabou encontrando uma vaga em vendas de tecnologia.
Yohan Aton foi demitido da Meta Platforms em maio. O jovem de 25 anos entrou na empresa como estagiário em 2020, quando ainda era o Facebook, e se tornou funcionário efetivo após se formar em 2022.
Ele foi contratado antes da inteligência artificial decolar. “Naquela época, havia a sensação de que, se você estudasse ciência da computação em uma boa universidade, conseguiria entrar em uma empresa de tecnologia sem problemas”, disse ele.
Mas “tudo mudou no último ano”, disse ele. Segundo Aton, cerca de 20% dos novos códigos eram gerados por inteligência artificial em junho de 2025, uma porcentagem que saltou para cerca de 70% em janeiro deste ano e para quase 95% em maio.
“As empresas querem investir mais em hardware de inteligência artificial do que em pessoas”, afirmou.
A Meta demitiu cerca de 8 mil funcionários — um décimo de sua força de trabalho — e cancelou planos de contratar 6 mil. Enquanto isso, a empresa prevê um investimento de até US$ 145 bilhões em 2026.
A taxa de desemprego nos Estados Unidos para recém-formados com idades entre 22 e 27 anos subiu de cerca de 4% em 2022 para 5,6% em março deste ano, de acordo com o banco central (Fed) de Nova York. Embora esse número ainda seja baixo em comparação com os níveis durante a pandemia de covid-19 ou a crise financeira global em 2008, os obstáculos para jovens em busca de emprego continuam aumentando.
Os dados sobre desemprego por área de formação em 2024, divulgados pelo Fed de Nova York em fevereiro deste ano, mostraram que a engenharia da computação registrou 7,8% — ficando atrás apenas da antropologia, com 7,9%. Ciência da computação não ficou muito atrás, com 7%, empatada com artes cênicas.
Stephen Henriques, pesquisador da Escola de Administração da Universidade de Yale, argumenta que a inteligência artificial está tendo um impacto significativo no mercado de trabalho para iniciantes.
“A inteligência artificial está fazendo muito do trabalho deles ou simplificando muito do trabalho deles. Em vez de precisar de 10 analistas, você precisa de apenas cinco”, disse ele, observando que muitos líderes empresariais estão tentando avaliar o impacto da inteligência artificial na produtividade.
Pei Ying Chua, economista-chefe para a Ásia-Pacífico do LinkedIn, cita engenheiros de software, gerentes de marketing e analistas de dados como funções com um alto grau de tarefas replicáveis por inteligência artificial. “Até 2030, 70% das habilidades exigidas para a maioria dos empregos mudarão devido à inteligência artificial”, disse ela, enfatizando a importância de se adaptar a essas mudanças.
A incerteza econômica nos Estados Unidos está aumentando. Laura Ullrich, diretora de pesquisa econômica do site de busca de empregos Indeed, vê o mercado de trabalho como “com poucas contratações e poucas demissões”, deixando poucas vagas, com estudantes de ciência da computação e finanças enfrentando dificuldades especialmente relevantes.
Alguns recém-formados estão optando pelo empreendedorismo, criando suas próprias empresas caso não encontrem emprego. O número de pessoas que se inscrevem como “fundador” no LinkedIn aumentou 75% no último ano, afirmou Chua.