O cancelamento da Vertigo pela DC Comics em 2020, depois de um declínio de anos causado pela própria editora que reintegrou alguns títulos importantes à linha editorial principal, foi uma das decisões mais míopes tomadas pelos engravatados de lá, criando um vácuo criativo que nem de muito longe foi preenchido pelo selo DC Black Label ou pelo badalado Universo Absolute simplesmente por não haver espaço para riscos verdadeiramente autorais fora dos super-heróis de sempre. Depois de alguns falsos recomeços, a DC reiniciou o selo para valer – ou assim eu espero! – em 2026 com a primeira das HQs mensais originais a ter um arco encerrado sendo Bleeding Hearts, obra com roteiro de Deniz Camp (dos sensacionais Assorted Crisis Events e Absolute Caçador de Marte) e arte do croata Stipan Morian que trabalharam juntos na minissérie 20th Century Men, da Image Comics.
Trata-se de uma história de zumbis, artifício narrativo que considero já bastante desgastado tanto nos quadrinhos quanto no audiovisual, mas que volta e meia ainda oferece coisas interessantes, como foi o caso recente de Tudo Morto e Morrendo. Como era o retorno da Vertigo e, ainda por cima, assinado por Camp, simplesmente tive que conferir e fiquei feliz em ver que, apesar de não ser o tipo de história absolutamente incrível que o selo merecia em seu novo começo, definitivamente é algo de valor, que merece ser conferido pelos leitores de quadrinhos que querem fugir do mainstream, mesmo que dentro do guarda-chuva de uma editora mainstream. A premissa, apesar de já ter sido de certa forma abordada anteriormente em obras como In the Flesh, ainda é razoavelmente rara, com o apocalipse zumbi visto a partir do ponto de vista dos zumbis e não dos humanos, com a criação de toda uma cultura zumbi que, claro, gira em torno da caçada a humanos incautos para degustações sanguinolentas, mas que vai além disso.
No centro das atenções desse apocalipse zumbi em andamento por pouco mais do que 10 anos, há Mouse-Pokes-Golf-Ball-Out-Of-Head-Hole* (todos os zumbis têm nomes assim, na estrutura de nativos americanos), mais conhecido como Poke, um zumbi de aparência jovem, com cabelos brancos e uma flor saindo da testa que, de uma hora para a outra, passa a não ter mais prazer em comer carne de humanos vivos e, principalmente, a sentir seu coração batendo, o que o faz ter sentimentos estranhos como compaixão e empatia por aqueles que, antes, eram apenas saborosas refeições. Não demora e Poke, guiado por essa sua nova realidade, salva e passa a esconder uma mãe e sua filha da sana faminta de sua horda, o que o coloca diante de problemas com seus melhor amigo corpulento Mush, que tem cogumelos crescendo em seus ombros e, pelo visto, conversa com eles.

O grande acerto acerto de Deniz Camp é estabelecer logo de início que, mesmo que não concordemos com o que vemos nas páginas e naturalmente torçamos para os humanos vivos, os desmortos têm sua própria cultura e conversam e debatem longamente entre si, sendo organizados em grandes grupos, dividindo toda a comida entre si e até mesmo celebrando o “dia da cultura zumbi” anualmente com uma caçada cerimonial aos poucos humanos que eles conseguem achar. Da mesma forma que os humanos vivos acham que eles são monstros descerebrados que emitem apenas sons guturais, os zumbis acham que os humanos vivos são monstros descerebrados que emitem apenas guinchos sem sentido, com cada um dos grandes grupos – mortos e vivos – entrincheirando-se em suas posições originárias de uma década da praga que assola o planeta. Poke é o primeiro – e, pelo menos nesse primeiro arco, o único – a conseguir quebrar essa barreira ao manter a forma zumbificada por fora, mas passando a ser humano por dentro, com seus primeiros contatos não alimentares com os vivos sendo complicado, especialmente no que se refere à desconfiada mãe da pequena Rabbit, que naturalmente faz de tudo para proteger a filha, o que significa que ela desconfia de tudo o que Poke faz para ajudá-las.
Ao estabelecer essas duas visões aguerridas e diametralmente opostas de mundo que os mortos e os vivos têm uns dos outros, Deniz Camp parece querer cutucar um ferida muito aberta em nossa realidade, em que ninguém mais parece capaz de realmente ouvir opiniões contrárias sem ataques de fúria, negativas genéricas e muita “bateção de pé” e, mais ainda, de ser capaz de mudar de posicionamento depois de mastigar a verdade dos fatos. Se olharmos ao nosso redor, tudo o que vemos parece ser binário, sem meio termo, sem a menor possibilidade de encontro de opiniões e abordagens, sem que sequer seja possível construir espaço para uma conversa civilizada. Mesmo usando muitos dos tropos clássicos de zumbis – como eles anualmente se encontrarem em um shopping center – o foco do texto de Camp está muito mais na perda de nossa capacidade de ouvir os outros, de internalizar comentários e de ouvir o nosso coração, o que definitivamente é um excelente uso para o artifício já bastante comum do apocalipse zumbi. Poke é a solitária ponte entre mundos que só encontra eco nos olhos de uma criança que, mesmo tendo vivido horrores, ainda cultiva sua pureza original e consegue enxergar que o demostro com flor na testa não é o que parece ser.
Para materializar a visão de Deniz Camp, Stipan Morian faz uso sem freios de uma arte exagerada e caricata tanto para humanos vivos quanto mortos, com toda a violência gráfica ganhando ares de cartum e, com isso, sabiamente perdendo a explicitude realista que, aqui, é mesmo desnecessária. Com um braço como o do Popeye – que ele trocou com Mush como sinal de amizade eterna – e uma aparência lânguida e um rosto cheio de angústia que tenta entender o que está acontecendo com ele próprio, Poke é um zumbi muito feito, mas ao mesmo tempo agradável de ver e acompanhar, de maneira semelhante à feiura irresistível do pequeno alienígena de coração pulsante – que me pareceu uma das inspirações para a dupla criativa – em E.T. – O Extraterreste. Seus pares são ainda mais exagerados, com Morian humanizando os “zumbis padrão” especialmente de filmes e séries, mas sem retirar deles a ameaça que representam aos poucos humanos ainda vivos que perambulam pelo mundo. Trata-se de um mundo horrível, como deveria mesmo ser, mas visualmente fascinante e que, a partir do ponto de vista dos zumbis, permite que o leitor encare como um novo padrão, por assim dizer, e não apenas o resultado de corpos reanimados, mas completamente descerebrados.
Bleeding Hearts, como disse, não tem o nível qualitativo – pelo menos não pelo momento – dos três trabalhos de Deniz Camp que citei, mas esse arco inicial deixa entrever muito potencial para a subversão de nossas expectativas sobre histórias de zumbi e, também e especialmente, para mostrar que mudar faz parte de ser humano e que se esconder por trás de posicionamentos inamovíveis é que contribui para o declínio da humanidade. Há um meio termo em algum lugar e talvez não seja brega dizer que tudo começa quando passamos a escutar nosso coração, sob pena de não passarmos de zumbis vazios por dentro que apenas caminham na mesma direção por puro comportamento bovino.
*A tradução seria algo como Camundongo-Empurra-Bola-de-Golfe-do-Buraco-da-Cabeça.
Bleeding Hearts – Vol. 1 (Idem – EUA, 2026)
Contendo: Bleeding Hearts #1 a 6
Roteiro: Deniz Camp
Arte: Stipan Morian
Cores: Matt Hollingsworth
Editoria: Matthew Levine, Chris Conroy
Editora: Vertigo Comics (DC Comics)
Datas originais de publicação: 11 de fevereiro, 11 de março, 08 de abril, 13 de maio, 10 de junho e 08 de julho de 2026
Páginas: 168