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- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
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Escrito entre 1670 e 1690 e atribuído ao poeta Gregório de Matos (1636-1696), A Huma Dama Que Macheava Outras Mulheres é um texto que parte de um mote e é resolvido em quatro estrofes de dez versos cada. Satírico, como considerável parte da produção do autor, apresenta a personagem Nise, que não cede aos galanteios do narrador porque prefere o amor das mulheres.
“Acredito ser o primeiro poema do Novo Mundo a falar de uma lésbica”, pontua o antropólogo Luiz Mott, professor na Universidade Federal da Bahia, fundador do Grupo Gay da Bahia e autor de, entre outros livros, O Lesbianismo no Brasil.
“Sem dúvida, trata-se de uma peça pioneira nesse sentido”, concorda o poeta e ensaísta Adriano Espínola, professor aposentado na Universidade Federal do Ceará (UFC), pesquisador na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e autor de As Artes de Enganar: Um Estudo das Máscaras Poéticas de Gregório de Matos, entre outros livros.
Espínola ressalta que a temática hoje chamada de LGBTQIA+ apareceria ainda em outros textos da lavra de Gregório de Matos — que ficou conhecido como Boca do Inferno.
A homossexualidade masculina, por exemplo, consta da sátira escrita pelo poeta alfinetando o administrador colonial português Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho (1638-1702), que foi governador do território brasileiro — supostamente, Coutinho vivia um relacionamento gay com o capitão de sua guarda.

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Há ainda textos de Gregório de Matos ironizando o amor homoerótico de forma geral.
“E ele foi também pioneiro na expressão do amor freirático, isto é, entre freiras e sacerdotes nos claustros, e entre freiras e leigos. Mas isso é outra história”, salienta Espínola.
Sobre A Huma Dama Que Macheava Outras Mulheres, o escritor e professor universitário Miguel Sanches Neto, reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Uepg), também destaca a novidade.
“É o primeiro momento, da literatura [brasileira] que eu conheço, em que aparece um personagem com identidade homoafetiva”, comenta. “Ele está satirizando essa orientação sexual.”
Mas é preciso fazer três ressalvas importantes ao trazer este tópico ao debate. Em primeiro lugar que, como costuma acontecer com a maior parte dos marcos culturais e históricos, é muito difícil cravar com absoluta certeza o pioneirismo de algo.
No caso de textos produzidos por poetas populares, é admissível que muita coisa não tenha sido registrada — e muitos registros não tenham sobrevivido aos séculos.
“É difícil precisar se é o primeiro registro luso-brasileiro [dessa temática] mas podemos dizer que talvez seja uma das mais antigas escritas sobre o tema não heteronormativo”, diz o professor Jean Pierre Chauvin, que pesquisa e leciona cultura e literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP).
O outro ponto é o evidente risco do olhar anacrônico ao julgar essas produções.
Eram tempos em que os hoje chamados de LGBTQIA+ não só sofriam os preconceitos e a marginalização — que, em parte, ainda se repetem — como também não tinham atendidos seus direitos básicos de cidadania e dignidade.

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Por fim, não podemos confundir o autor com o narrador — ou a persona poética, o eu-lírico. O texto atribuído a Gregório de Matos satiriza a lésbica. Mas é uma peça de ficção poética, em que o autor pode estar só se aproveitando de um comportamento comum na sociedade da época para criticar essa própria sociedade.
Aliás, cabe aqui mais uma observação: especialistas não têm certeza se todos os textos atribuídos a Gregório de Matos foram mesmo escritos por ele.
Como eram poesias populares que não foram publicadas em livros naquele século 17, acredita-se que o nome do poeta também tenha sido utilizado para assinar outros poemas de estilo semelhante ao seu.
Nise
No poema, o narrador começa com o mote de que havia se enamorado de alguém “sem saber esse vício” dela, “que a nenhum homem te dás, e tomas toda a mulher”.
A personagem, chamada de Nise, é apresentada como uma bela dama que não cede às investidas do eu-lírico masculino.
“Porque ela queria era machear, ser macho de outras”, contextualiza Mott.
O antropólogo lembra que o Boca do Inferno, “irreverente em matéria de religião e moral”, inúmeras vezes imbuiu em seus textos um narrador de voz que “manifesta-se empedernido machista”.
Segundo Mott, “a misoginia” dele “transparece em muitos poemas, esculhambando agressivamente as mulheres que rejeitaram suas solicitações lascivas”.
No caso deste texto, seria justamente a resposta a uma “de suas muitas investidas eróticas”, afirma o antropólogo, quando “o poeta deparou-se com uma lésbica, Nise”. Mott lembra que o verbo “machear” não consta de dicionários antigos — mas obras atuais o definem como “cópula do macho com a fêmea”.
“Foi inquestionavelmente neste sentido que Gregório o empregou”, destaca. “O verbo machear tem um caráter extremamente preconceituoso. Mas o texto tem função satírica”, comenta Sanches Neto.
Para Chauvin, o verbo em questão era, na época, restrito ao universo da carpintaria — para se referir ao encaixe entre duas peças.
“O poeta retirou o verbo desse contexto e o transferiu ao sentido figurado da sobreposição de duas fêmeas, destacando uma relação interpessoal em que uma mulher se comporta ‘como macho'”, interpreta ele.
Chauvin acredita que o emprego de uma terminologia ligada a um trabalho braçal, manual — visto como inferior em uma sociedade que valorizava mais as profissões intelectuais do que as de força física —, evidenciava essa divisão entre o digno e o indigno, entre o alto e o baixo, a virtude e o vício. A sátira, portanto, está também nas entrelinhas.
“Que rendidos homens queres,/ que por amores te tomem?”, dizem versos do poema. “Se és mulher não para homem,/ e és homem para mulheres”.
“O poema tem evidente tom crítico relativamente ao comportamento da dama por quem, em primeiro momento, se encanta, mas não se demora a descobrir-lhe ‘outros hábitos'”, comenta o professor de literatura Emerson Rossetti, criador do canal no YouTube Elite da Língua.
“Assim, o poeta inscreve seu texto num comportamento que hoje é, ou ao menos deve ser, tratado com naturalidade, mas no século 17 servia como tema perfeito ao gênero satírico.”
Rossetti completa lembrando que a conduta sexual, os fetiches e a homossexualidade “faziam parte do vasto território” que era exposto “pela veia satírica do poeta”.
O professor acredita que a maior importância de resgatar este texto hoje é justamente o fato de que o poema, embora satírico, se resume ao lamento do narrador homem rejeitado pela mulher. Não a condena deliberadamente.
“Não passa de frustração de uma persona satírica decepcionada pela rejeição de uma mulher que o troca pelos dotes de outras damas”, diz Rossetti. “Abstrai-se, assim, uma defesa do direito da mulher a um outro tipo de prazer. Não há propriamente condenação àquelas preferências, nem reivindicação em benefício do livre exercício do amor independente dos papéis sociais estabelecidos.”
Sanches Neto lembra ainda que revisitar este poema também é tratar da visibilidade de grupos não heteronormativos.
“O texto aborda uma orientação sexual que não aparecia na literatura, digamos, oficial da época. E isso é importante lembrar”, pontua.
Para Mott, Nise é nome inspirado na mitologia grega. A deusa Nice é a deusa da vitória. O pesquisador lembra que o termo era comumente utilizado por outros poetas do período colonial.
“Sem conotação lesbiana”, ressalta. Já Chauvain acredita que Nise seja uma derivação a partir das letras de Inês — que, por sua vez, acredita-se que seja uma variação de Agnes, “cordeiro de Deus”.
“A ideia do Gregório de Matos foi usar o nome que lembra o cordeiro de Deus para uma mulher descrita como nada de pura, já que, segundo o texto, teria uma prática viciosa, que não era virtuosa conforme a moral vigente”, afirma. Mais uma possível provocação do Boca do Inferno afinal.
“Segundo o Boca do Inferno, Nise era mulher muito bela, uma dama, quiçá de família rica. Era dada ao ‘vício’ de suspirar por outras damas. Ousada, chegava a tomar ‘toda a mulher'”, analisa o antropólogo Mott.

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O pesquisador lembra que, se era comum à época que as mulheres homossexuais mantivessem casamentos heteronormativos e vivessem às escondidas seus romances lésbicos, Nise “parece ser uma das poucas” que não tinha marido. Isto estaria indicado no trecho “a nenhum homem te dás”.
“O casamento no mundo antigo era uma exigência social tão forte que a vida de um solteiro se tornava um verdadeiro suplício”, contextualiza Mott. “Casar-se era a maneira ideal de disfarçar uma homossexualidade clandestina.”
O luso-brasileiro
Gregório de Matos e Guerra nasceu na Bahia, então colônia portuguesa, filho de família de boa condição financeira.
Seu pai era um empreiteiro de obras ligadas à administração da colônia. Aos 14 anos, foi enviado para Lisboa, a fim de estudar. Dois anos depois, em Coimbra, ingressou na universidade onde se graduaria em direito.
Atuou como juiz de fora e procurador nas cortes portuguesas até retornar ao território brasileiro, já na década de 1670, como desembargador ligado às autoridades eclesiásticas. Mais tarde, o reino português o nomeou tesoureiro.
Sua produção literária, satírica e muitas vezes agressiva, começou a lhe causar problemas com as autoridades.
Para Sanches Neto, Gregório de Matos foi um dos maiores “poetas extremistas” da literatura brasileira.
“São daqueles que têm uma importância muito grande do ponto de vista literário, mas que tiveram uma queda de braço com a vida, com o sistema. E produziram uma obra extrema, no sentido de que estavam entre a vida e a morte, entre a execração e o reconhecimento, em um jogo de tudo ou nada com a vida”, define.
“Não por acaso, entrou para a história da literatura como o Boca do Inferno”, completa Rossetti. “No gênero satírico, soube como poucos, movido por arguto senso de observação, exercitar a crítica de modo contundente e bastante expressivo, colocando a palavra, com que engenhosamente trabalhou, a serviço da denúncia dos nossos males pelas vias da linguagem poética.”
“Ele foi o nosso primeiro grande poeta”, elogia Espínola.
O professor lembra que a obra atribuída a Gregório de Matos, além de revelar um grande domínio técnico, também “soube retratar” a sociedade baiana daquela época.
“Sua poesia também se transformou em um documento de época”, diz.