A pesquisa Meio/Ideia de setembro, publicada nesta quarta-feira, perguntou sobre a segunda opção de voto para presidente. Um exercício para entender o ordenamento mental da opinião pública das candidaturas presidenciais. O resultado mostra que 53,2% dizem não ter uma segunda alternativa, seguidos por 9% que têm branco/nulo como tal. Ou seja, 2026 é a eleição da falta de opção. Porém, será que um eventual voto ranking ajudaria a ampliar as opções do eleitorado?
Em 2025, os eleitores de Nova York escolheram o prefeito da cidade não marcando um único nome na cédula, mas ordenando até cinco candidatos por preferência. A Austrália usa o sistema, a Irlanda também, e ainda mais de dez cidades americanas. O Brasil, fiel ao seu apego ao voto majoritário puro, sequer debate a alternativa. Deveria.
O voto em ranking, ou ranked-choice voting, parte de uma premissa simples: em vez de escolher um só nome, o eleitor ordena os candidatos por ordem de preferência, como quem monta o pódio de um campeonato. Se ninguém atinge maioria absoluta na primeira contagem, o candidato mais mal colocado é eliminado, e seus votos são redistribuídos conforme a segunda preferência de quem votou nele. O processo se repete até que um nome ultrapasse 50%. Na prática, é um segundo turno instantâneo.
A vantagem mais imediata é o fim do “voto útil” como cálculo estratégico, aquele exercício de contorcionismo mental em que o eleitor abandona quem realmente gostaria para votar em quem “tem chance”, como se estivesse escolhendo time de futebol pela tabela e não pelo coração. Hoje, parte dos eleitores brasileiros busca não “desperdiçar” o voto. O antipetismo de chegada, fenômeno que beneficia o candidato com melhores chances de vencer o PT na presidencial, reflete bem essa atitude.
O ranking elimina esse dilema: dá para votar no candidato dos sonhos em primeiro lugar e no candidato viável em segundo, sem culpa. Pesquisas de opinião pública em cidades americanas que adotaram o sistema mostram queda consistente na campanha negativa, afinal, atacar o adversário fica menos tentador quando se depende dos votos de segunda preferência dos eleitores dele. Nada como a matemática eleitoral para ensinar boas práticas.
Os críticos têm razão em apontar um custo real: a complexidade cognitiva. Ordenar cinco ou seis nomes exige mais do eleitor do que marcar um único X, e a curva de aprendizagem inicial gera taxas de erro maiores nas primeiras eleições, como mostrou a experiência de Maine, pioneira americana do sistema em 2018. De qualquer forma, é um custo transitório, não estrutural, e a adesão popular cresce eleição após eleição, à medida que o sistema se naturaliza.
O Brasil tem um sistema eleitoral sofisticado tecnologicamente mas conservador no desenho institucional. Testar o voto em ranking em eleições municipais de menor porte seria um experimento de baixo risco e alto potencial de aprendizado. Antes de descartar a ideia como sonho acadêmico, vale perguntar: o que o(a) eleitor(a) brasileiro(a) ganharia se pudesse, finalmente, votar com o coração e com a cabeça ao mesmo tempo, sem precisar escolher entre os dois, como faz há décadas? No mínimo, ganharia novas opções.