Crédito, Reuters
- Author, Mariana Schreiber
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
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Tempo de leitura: 5 min
A informação tornou-se pública com o fim do sigilo de parte do caso Master, determinado nesta quinta-feira (10/9) pelo presidente do Supremo, Edson Fachin. O inquérito referente a Bolsonaro, no entanto, permanece em sigilo.
Flávio nega qualquer irregularidade sobre o financiamento do filme sobre seu pai e já disse, em sabatina ao Jornal Nacional, que o tema está “mais que esclarecido” e é um “livro fechado, ressignificado e na prateleira”.
Cobrado, porém, o senador não apresentou ainda um detalhamento de como os mais de R$ 60 milhões que teriam sido recebidos do Master para o filme foram, de fato, gastos na produção.
Entenda a seguir, em seis pontos, o que se sabe e o que falta ser esclarecido sobre o inquérito que investiga Flávio Bolsonaro:
1. Quando a investigação foi instaurada por Mendonça?
A conexão entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiamento do filme Dark Horse foi revelada em 13 de maio pelo portal The Intercept Brasil.
O acordo, dizia a reportagem, previa o repasse de US$ 24 milhões (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões), dos quais cerca de metade foi pago.
Quase dois meses depois, em 8 de julho, a Polícia Federal solicitou a Mendonça a abertura de um inquérito sigiloso para apurar possíveis crimes envolvendo o financiamento da obra. O pedido veio em um relatório que descrevia as interações e encontros entre o banqueiro e o filho do ex-presidente.
Em 21 de julho, a Procuradoria-Geral da República (PGR) endossou o pedido de investigação.
Com isso, em 22 de julho, Mendonça determinou a instauração de um inquérito para apurar se Flávio cometeu os “crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos”.

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2. O que diz o relatório inicial da PF?
O relatório da PF que embasou o pedido de investigação diz que Flávio Bolsonaro (PL) foi um “interlocutor direto” do banqueiro Daniel Vorcaro na produção do filme Dark Horse, segundo a Polícia Federal (PF).
Os contatos ocorreram quando Vorcaro já estava no radar da PF, ao longo de 2025, e mesmo após sua primeira prisão, em 17 de novembro. Ambos se reuniram ainda no final daquele mês, quando o banqueiro estava em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica.
Os investigadores também levantam a hipótese de que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, “orientou a gestão dos recursos [do filme] em solo estrangeiro”.
Nos documentos, a PF sustenta que mensagens e arquivos extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, somados a um Relatório de Inteligência Financeira do Coaf, indicam uma rota financeira internacional possivelmente ligada à produção de Dark Horse.
Segundo a PF, a empresa Entre Investimentos e Participações, ligada a Antônio Carlos Freixo Júnior, enviou US$ 12.333.335 ao Havengate Development Fund LP, nos Estados Unidos, entre fevereiro e setembro de 2025.
No telefone de Vorcaro, os investigadores localizaram um contrato para o filme que previa investimento de US$ 24 milhões em 14 parcelas. A PF diz que os valores e o calendário das remessas se aproximam daqueles previstos no contrato.
3. Qual o objetivo da PF na investigação?
Ao solicitar a abertura do inquérito, a Polícia Federal disse que buscaria esclarecer cinco pontos:
- a origem dos recursos destinados pelo Master ao financiamento do filme;
- a razão da utilização da empresa Entre Investimentos como intermediária dos pagamentos enviados ao fundo Havengate nos Estados Unidos;
- a função desempenhada pelo fundo Havengate;
- os beneficiários finais dos valores remetidos ao exterior;
- o papel efetivamente exercido por Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Mário Frias (deputado federal), Thiago Miranda (publicitário que intermediava os contatos com Vorcaro), Fabiano Zettel (cunhado de Vorcaro), Antônio Freixo (dono da Entre Investimentos), Altiers Santana e Paulo Calixto (controladores do Havengate) na estruturação, cobrança, execução e destinação dos aportes.
Além disso, a PF argumentou que a investigação serviria para, se necessário, “a adoção de medidas de cooperação jurídica internacional com os Estados Unidos”.
4. O que se sabe sobre o andamento da investigação?
Não há informações sobre os desdobramentos do caso após a formalização do inquérito contra Flávio Bolsonaro em 22 de julho.
Como o caso segue em sigilo, não é sabido se a PF já adotou novas diligências ou se solicitou medidas ao ministro.
Da mesma forma, não há conhecimento sobre que outras decisões Mendonça pode ter adotado dentro do inquérito.
Também não há informações sobre apurações nos Estados Unidos.

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5. Por que esse inquérito continua em sigilo?
A retirada do sigilo de parte do caso Master foi solicitada a Mendonça pelo presidente do STF, Edson Fachin, na noite de quinta-feira (10/9).
O objetivo era dar acesso aos demais ministros da Corte a esse material devido ao julgamento marcado para terça-feira (15/9), quando o STF pode decidir se abre uma investigação sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Vorcaro.
Nesse pedido, Fachin solicitou que não fosse tornado público apenas “diligências cujo sigilo seja imprescindível à realização da medida” — ou seja, disse para se manter em sigilo apenas o que fosse necessário para o andamento de investigações.
A BBC News Brasil questionou o gabinete de André Mendonça a razão para o inquérito sobre Flávio Bolsonaro ser mantido em sigilo, mas não obteve esclarecimento.
Já na tarde de sexta-feira (11/9), Fachin deu mais 24 horas para que Mendonça ampliasse a retirada dos sigilos, após a PGR analisar o conteúdo liberado pelo ministro e apontar que ainda havia conteúdos secretos que poderiam ser divulgados.
Nesse segundo despacho, Fachin solicita que seja retirado todo o sigilo de conteúdos relacionado à operação Compliance Zero, que investiga o Master, “ressalvadas exclusivamente as diligências em andamento ou a serem realizadas”.
6. O que Flávio diz — e o que ainda não explicou sobre o dinheiro do Master?
Flávio nega qualquer irregularidade sobre o financiamento do filme sobre seu pai e insiste que se trata apenas de um patrocínio privado para uma obra privada, sem uso do dinheiro público.
Em sabatina ao Jornal Nacional, porém, ele foi cobrado sobre a falta de detalhamento sobre os recursos obtidos e como eles foram gastos.
As investigações apontam que o equivalente a mais de R$ 60 milhões chegaram a ser liberados para a obra, mas, até o momento, a produtora do filma não detalhou e comprovou a utilização dos recursos.
Pressionado pelo Jornal Nacional a apresentar o contrato para o patrocínio e uma planilha detalhada sobre o uso dos recursos no filme, o candidato do PL insistiu que já prestou os esclarecimentos e que se trata de um financiamento privado para realização de uma “obra de arte”.
“Eu não fui buscar dinheiro em recursos públicos, e esse foi um patrocínio, na verdade, que não tem nenhuma transferência para Flávio Bolsonaro. É um patrocínio para um filme privado sobre o meu pai”.
Já nesta sexta, em uma agenda de campanha no Amazonas, Flávio Bolsonaro disse estar com “muita tranquilidade” em relação a divulgação da existência do inquérito e afirmou que “transparência total nesse assunto foi a melhor coisa que poderia acontecer”.
“Estamos numa eleição presidencial e não é novidade para ninguém que vão tentar fazer de tudo para desestabilizar e inventar coisas onde não tem”, afirmou.
“Sempre disse que a relação com o filme foi privada, um patrocínio privado em relação ao filme do presidente Bolsonaro. É muito positivo para confirmar o que sempre falei.”