Após a pedagogia de choque, é o mútuo reconhecimento o que buscamos – Revista Cult

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Nas cisões de posições grupais de luta por reconhecimento, legítima e vital, que tem caracterizado o campo progressista e a vida da esquerda nos últimos anos, a projeção do ódio incorporado, fruto de traumatismos reais, tem sido estratégia política primeira.

Nossa cultura, em busca de avanço civilizatório, tornou-se paradoxalmente belicosa e inamistosa. Essa lógica, como forma afetiva de fundo das coisas, faz corresponder as ações de guerra próprias da direita de hoje com as ações de luta por reconhecimento dos grupos de fato lesados em seus direitos. Deste ponto de vista afetivo das coisas, só o embate exclusivo e a ideia de submissão direta do outro, o que implica ganhos de poder imediatos, parecem ser possíveis. É um momento, o do diálogo em que o oprimido precisa configurar o opressor como absolutamente mal, como o portador presente de todas as violências somadas da história. A fala de quem nunca foi ouvido aparece como choque e como luta limite de morte.

Esse primeiro sentido das coisas de uma conversa de transformação possível funde a dor vivida com a desesperança em ser ouvido. Daí o choque é a intensidade do que tem que ser recebido. Mas é necessária a abertura de um outro horizonte de valor do aprendizado social e do reconhecimento. O mútuo reconhecimento, em um novo espaço aprendido de valor do outro, e do sentido das coisas, é o que se busca.

A pedagogia de choque dos movimentos identitários, que são tantos, deve se realizar com a efetiva transformação subjetiva e política do lugar do outro. O punitivismo puro e seco, e seu gozo do extermínio imaginário, o cancelamento que pressupõe a impossibilidade radical do encontro comum, é um momento do processo que pode ser superado. É necessária a pesquisa mais complexa, e mais rica, de uma verdadeira política da reparação, que supere a repetição infinita da crueldade. É o mundo desejável.

 

Tales Ab’Sáber é doutor em Psicologia (USP), psicanalista
e professor de Filosofia da Psicanálise na Unifesp



[Fonte Original]

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