O Comitê Olímpico Internacional quer exames de saúde mental em esportes de elite; saiba o motivo

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Atletas de elite estão expostos a uma série de fatores específicos do esporte que podem aumentar sua vulnerabilidade a problemas de saúde mental. Entre eles estão lesões, excesso de treinamento, esgotamento físico e emocional (burnout), pressões relacionadas ao desempenho, intenso escrutínio público e abusos nas redes sociais.

Apesar desses riscos, os atletas costumam ser vistos como exemplos de resiliência psicológica, capazes de suportar as tensões inerentes à competição em alto nível. O mito do atleta “mentalmente forte” ou “à prova de balas” frequentemente obscurece a realidade do impacto que o esporte de elite pode ter sobre a saúde mental.

É por isso que o Comitê Olímpico Internacional (COI) está incentivando modalidades esportivas de alto rendimento em todo o mundo a desenvolver protocolos mais robustos de saúde mental para atletas.

O COI aposta na intervenção precoce

Fui um dos integrantes de uma rede global de pesquisadores que ajudou a desenvolver a versão mais recente do consenso de especialistas do COI sobre saúde mental no esporte de elite.

Com ênfase na intervenção precoce, um dos elementos centrais é o rastreamento da saúde mental. Nesse processo, os atletas respondem a perguntas breves e estruturadas com o objetivo de identificar possíveis sinais de dificuldades psicológicas que possam justificar uma avaliação mais aprofundada.

O rastreamento da saúde mental no esporte de elite tem vários objetivos. O principal é detectar, o mais cedo possível, fatores de risco para transtornos mentais, permitindo que apoio ou tratamento adequados sejam oferecidos em tempo hábil.

Quando realizado em conjunto com exames regulares de saúde física, esse rastreamento pode ajudar a normalizar a saúde mental como uma preocupação legítima tanto para a saúde quanto para o desempenho esportivo, além de estimular a busca por ajuda quando necessário. Muitos atletas têm dificuldade em falar sobre seus problemas ou pedir apoio. Para alguns, é preciso chegar a uma situação de crise para receber o suporte psicológico de que necessitam.

Como o estresse pré-competição é comum, assim como as oscilações emocionais ao longo de uma temporada, o rastreamento também pode ajudar a diferenciar o sofrimento emocional relacionado ao esporte de sintomas mais específicos de transtornos mentais, como depressão, ansiedade, abuso de substâncias ou transtornos alimentares.

Quando e por que fazer o rastreamento?

O documento de consenso do COI recomenda que o rastreamento seja realizado em diferentes momentos, como:

  • no início de uma temporada competitiva;
  • após grandes eventos, como campeonatos mundiais ou Jogos Olímpicos (devido ao risco da chamada “tristeza pós-evento”);
  • após lesões significativas, incluindo concussões, dada a forte associação entre lesões esportivas e prejuízos à saúde mental;
  • durante a transição para fora do esporte, como aposentadoria ou desligamento de equipes, período que pode representar um risco para a saúde mental.

O motivo para realizar esse rastreamento é simples: identificar atletas que possam estar em risco de desenvolver problemas de saúde mental, permitindo o encaminhamento para um profissional especializado ou a oferta de apoio o quanto antes.

Ele jamais deve ser utilizado para excluir atletas, ou seja, para decidir que alguém não está apto a competir ou integrar uma equipe com base apenas em um questionário breve de triagem. O objetivo do rastreamento é ajudar os atletas a acessar suporte quando necessário, e não prejudicar suas carreiras.

Como fazer o rastreamento?

O rastreamento da saúde mental no esporte de elite não é isento de riscos. Podem surgir consequências indesejadas, como estigma, vergonha ou constrangimento entre atletas que necessitem de avaliação complementar ou apoio psicológico.

Essas preocupações normalmente podem ser superadas quando o processo é conduzido de forma ética por profissionais especializados. Eles podem construir a confiança necessária para que os atletas tenham certeza de que os resultados não serão usados contra eles, além de garantir que informações sensíveis sobre saúde mental sejam tratadas com respeito e confidencialidade.

Criar um ambiente ético para o rastreamento também é fundamental para que os atletas se sintam confortáveis e seguros para relatar suas experiências de maneira precisa, em vez de encarar o processo apenas como mais uma formalidade burocrática.

E no esporte comunitário?

Os esportes de alto rendimento e profissionais geralmente contam com bons recursos financeiros e estrutura adequada. O mesmo nem sempre acontece no esporte comunitário.

Se não houver profissionais qualificados e éticos disponíveis, o rastreamento da saúde mental não deve ser realizado.

Nesses casos, podem ser adotadas as diretrizes australianas de boas práticas para a saúde mental no esporte comunitário. Elas enfatizam a importância da alfabetização em saúde mental, ou seja, a capacidade de reconhecer e compreender sinais de sofrimento psicológico, além da criação de caminhos acessíveis para obtenção de apoio nas comunidades locais.

Essas diretrizes incluem:

  • reduzir o estigma por meio da promoção de atitudes positivas sobre a importância da saúde mental;
  • apoiar a formação de treinadores para que adotem práticas de treinamento seguras e acolhedoras;
  • desenvolver planos de resposta a incidentes críticos, permitindo que clubes esportivos lidem adequadamente com emergências de saúde mental, como risco de suicídio ou automutilação;
  • elaborar um plano de ação em saúde mental que estabeleça como a modalidade esportiva irá prevenir problemas, promover bem-estar e responder a situações relacionadas à saúde mental.

Quais são os próximos passos?

O esporte de elite australiano avançou significativamente nas últimas décadas ao ampliar a conscientização sobre saúde mental. A capacidade de identificar necessidades psicológicas e responder a elas de forma adequada representa mais um importante sinal de progresso.

O próximo desafio é criar ambientes esportivos de alto rendimento capazes de prevenir, na medida do possível, que os fatores de estresse inerentes ao esporte prejudiquem a saúde mental dos atletas.

*Rosemary Purcell é Professora Sênior Associada do Centro de Saúde Mental de Jovens, da Universidade de Melbourne.

* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

[Fonte Original]

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