23
Na sétima minissérie – sempre em quatro edições – dos Monstros da Universal pela Skybound/Image, é chegada a vez da releitura do clássico O Lobisomem, de 1941, tecnicamente o segundo com a criatura pelo estúdio, mas indubitavelmente o mais lembrado em razão das magnéticas atuações de Lon Chaney Jr. como Lawrence “Larry” Talbot, o Lobisomem, Claude Rains como Sir John Talbot, pai de Larry, e Bela Lugosi como Bela, o cartomante romani que também é um lobisomem. Sob comando de Joshua Williamson, egresso dos títulos de G.I. Joe, parte do Universon Energon da mesma editora, O Sangue do Lobisomem é uma releitura modernizada e talvez simplificada do longa dos anos 40, com personagens renomeados, mas uma estrutura que segue a cadência do filme, pelo menos em linhas gerais.
Aos puristas de plantão, não se assustem, pois todo o espirito da obra original está devidamente presente aqui, com a licantropia permanecendo como uma espécie de trauma ancestral sobre o qual pairam dúvidas até um ponto bem avançado, mesmo que o brutal ataque inicial, ocorrido em uma festa de faculdade em que Adam Jaeger está, não deixe dúvidas para o leitor do que está acontecendo. Com seu pai constantemente protegendo-o depois das mortes da esposa e do irmão mais velho em circunstâncias inexplicadas – mas constantemente inferidas – a minissérie lida com a culpa com que Adam tem que lidar pelo ocorrido, por ele sentir que algo errado partiu dele e dizimou seus colegas. O roteiro de Williamson anda de maneira muito assertiva na fronteira entre o que os personagens acham que sabem (e, no caso do pai de Adam, se recusa a admitir) e o que o leitor sem dúvida alguma sabe e, pela natureza da minissérie, mais do que espera, mas sem que o roteirista descambe facilmente pelo didatismo. Ao contrário até, ele escrupulosamente mantém o mistério guardado bem próximo ao peito e, mesmo quando tudo é finalmente escancarado, a natureza da coisa toda ainda é deixada na penumbra, cercada de névoa, o que é sempre um desafio e uma ousadia, seja no audiovisual, seja nos quadrinhos.

Para dar vida a essa pegada ao mesmo tempo moderna e antiga de uma história contada em centenas e mais centenas de versões, Williamson contou com a bela arte do italiano Massimiliano Leonardo, que assina como Leomacs, dono de um traço firme, capaz de transitar facilmente entre a fábula e o realismo, entre a luz e a sombra, com as cores de Pip Martin enfatizando as duas personas de Adam, uma torturada e contida e outra violenta e livre, como duas metades da mesma pessoa que constantemente se chocam e se desafiam. Gosto particularmente que Leomacs não tenta emular por completo o visual do filme de 1941, mas mantém características suficientes para que a conexão seja feita, especialmente no que diz respeito ao rosto “barbado” do monstro. O fato de a história se passar em tempos mais recentes (mas não na atualidade, vale dizer) em nada afeta o estilo clássico da abordagem visual de Leomacs, até porque a história se passa em uma cidade pequena nos EUA e na mansão vazia da falida família Jaeger, mansão essa cercada de uma floresta repleta de animais para serem caçados tanto por humanos quanto pela alcateia que vive por ali.
O Sangue do Lobisomem é uma história que Williamson consegue encaixar muito bem no espaço limitado das minisséries dessa mais do que consistente linha editorial, sem realmente faltar nada, o que se dá pela bem-vinda quantidade econômica de personagens e acontecimentos bem cadenciados que não se perdem em explicações e contextualizações desnecessariamente detalhadas e que, ainda por cima, consegue evocar o longa em que a obra foi inspirada. Nada como um roteirista que sabe se adaptar ao número de páginas disponível e, mais do que isso, reimaginar um filme clássico emprestando sua própria assinatura narrativa acompanhada de belos – mas também sanguinolentos – visuais por parte da equipe artística.
Monstros da Universal: O Sangue do Lobisomem (Universal Monsters: Blood of the Wolf Man – 2026)
Contendo: Universal Monsters: Blood of the Wolf Man #1 a 4
Roteiro: Joshua Williamson
Arte: Leomacs (#1 a 4), Riccardo La Bella (lápis adicionais na edição #4)
Cores: Pip Martin
Letras: DC Hopkins
Editoria: Caitlin Chappell, Diegs Lopez
Editora: Skybound Entertainment (Image Comics)
Datas de publicação: 27 de maio de 2026
Páginas: 112