Quando os mercados brasileiros abriram para negociação na segunda-feira (5), Pradeep Kumar viu em sua tela um movimento diferente de tudo o que havia presenciado em duas décadas operando ativos do país.
As taxas dos contratos de juros futuros — que refletem as expectativas dos operadores para o rumo dos custos de financiamento — iniciaram a sessão já com um tombo de 90 pontos-base (ou 0,9 ponto percentual), atingindo a variação máxima permitida pela B3. O limite foi ampliado e depois flexibilizado novamente ao longo da sessão, à medida que o resultado da eleição presidencial de domingo levou investidores a precificar uma probabilidade maior de mudança de governo — e, com ela, a perspectiva de medidas fiscais que poderiam abrir espaço para a queda da taxa de juros, hoje em dois dígitos.
“Nunca vi um movimento assim”, disse Kumar, gestor da equipe de dívida de mercados emergentes da PGIM, que administra US$ 1,5 trilhão, em Newark, Nova Jersey. “Ninguém queria ficar de fora desse trade.”
Era apenas o começo de uma semana marcada por movimentos extraordinários nos ativos brasileiros, depois que o candidato de direita Flávio Bolsonaro (PL) teve um desempenho melhor do que o esperado contra o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no primeiro turno.
O volume negociado no maior fundo de índice que acompanha ações brasileiras, conhecido pelo ticker EWZ, atingiu um recorde na segunda-feira. O ETF caminha para sua melhor semana desde 2020, com alta de quase 12%, enquanto o Ibovespa, que avança cerca de 7%, registra sua melhor semana desde janeiro. O real acumulou valorização de mais de 3% até quinta-feira e está a caminho de sua melhor semana desde agosto de 2024.
O Brasil já oferecia aos investidores algumas das taxas de juros mais altas entre os mercados emergentes, com a Selic, a taxa básica, em 13,75%. E a , disse Raghav Adlakha, estrategista do Bank of America (BofA).
“Foi uma espécie de tempestade perfeita” na segunda-feira, disse Adlakha.
Muitos investidores haviam evitado apostas direcionais antes de uma eleição amplamente vista como imprevisível. Embora o real brasileiro tenha sido um dos favoritos entre investidores de “carry trade” (estratégia de tomar dinheiro a uma taxa de juros em um país e aplicá-lo em outra moeda, onde as taxas são maiores) neste ano, o mercado local de juros refletia maior cautela diante dos riscos.
As fortes oscilações também destacam os riscos que gestores enfrentam nas próximas semanas: Flávio precisa transformar seu embalo em uma vitória no segundo turno, marcado para 25 de outubro, e ainda não apresentou detalhes do ajuste fiscal no qual os investidores estão apostando.
“O mercado está ansioso para criar uma narrativa de que o Brasil deixará de ser ‘o país do futuro’”, disse Luis Estrada, estrategista do RBC Capital Markets. “Estou cauteloso em relação a isso.”
Estrada aponta como principais riscos uma reviravolta caso Lula vença — cenário que ele considera improvável — ou a possibilidade de frustração com os planos de Flávio.
Durante o terceiro mandato de Lula, a dívida como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) aumentou cerca de 10 pontos percentuais, para 82,6% em agosto, ante 73,1% quando ele assumiu o cargo, em janeiro de 2023, segundo dados do Banco Central. Um superávit fiscal de 2% a 3% do PIB seria necessário para estabilizar essa relação, em comparação com um déficit de 0,6% nos 12 meses até agosto, segundo dados da Bloomberg Economics e do BC.
No mercado de juros futuros na segunda-feira, um instrumento que representa a taxa implícita para um vencimento de aproximadamente dois anos registrou sua maior queda desde 2003.
Isso foi apenas um ano depois de Milena Landgraf começar a operar juros no Brasil. Hoje sócia da gestora Jubarte Capital, ela mantém posições que se beneficiam da queda das taxas. Landgraf espera que as propostas econômicas de Flávio e, caso ele vença, a composição de sua equipe sejam os próximos catalisadores para os mercados locais.
Embora parte considerável do potencial de valorização já tenha sido incorporada aos preços, Adlakha, do BofA, ainda vê espaço para o rali se estender no curto prazo.
“Ainda há algum prêmio de risco nos títulos de prazo mais longo, mas a maior parte do prêmio nas taxas curtas já foi comprimida”, disse Adlakha. Historicamente, os DIs, como são conhecidos os contratos de juros futuros, “reagem mais ao momentum do que ao valor”, disse.