A Blur, plataforma que chegou a liderar o mercado de NFTs (tokens não fungíveis) na rede Ethereum, anunciou que encerrará seu site em 12 de novembro, após registrar uma queda de mais de 99% no volume de negociações em relação ao auge de suas operações. A decisão representa mais um sinal das dificuldades enfrentadas pelo setor, que movimentou bilhões de dólares durante a onda de valorização dos NFTs entre 2021 e 2022.
O anúncio foi feito na segunda-feira (12) e também prevê mudanças no Blend, serviço que permite aos usuários obter empréstimos utilizando NFTs como garantia. A partir de 12 de novembro, a plataforma deixará de intermediar novos empréstimos.
A Blur foi lançada em 2022 e rapidamente se tornou uma das principais concorrentes da OpenSea, até então líder do mercado. Em março de 2023, chegou a concentrar mais de 70% do volume negociado em NFTs na rede Ethereum.
Naquele mês, as negociações na plataforma alcançaram aproximadamente US$ 1,43 bilhão. Três anos depois, em março de 2026, o volume mensal havia despencado para menos de US$ 7 milhões, segundo dados da DefiLlama citados pelo CoinDesk. A redução supera 99,5%.
Apesar do anúncio, a Blur esclareceu que o encerramento não significa o desligamento completo de sua tecnologia. Os contratos inteligentes que sustentam o marketplace continuarão funcionando na blockchain Ethereum.
Na prática, isso significa que o site utilizado pelos investidores para comprar e vender NFTs deixará de estar disponível, mas o protocolo descentralizado continuará existindo e poderá ser acessado por outras interfaces.
Os detentores do token BLUR também continuarão responsáveis pelas decisões relacionadas à cobrança de taxas no protocolo, por meio de um mecanismo de governança que permite ativar ou desativar essas cobranças.
Já os usuários do Blend terão até 12 de novembro para quitar seus empréstimos. Caso contrário, poderão entrar em inadimplência, com as consequências previstas nos contratos.
A equipe da Blur informou que disponibilizará posteriormente uma ferramenta específica para que os usuários possam retirar os ativos mantidos no protocolo.
O anúncio provocou uma forte reação no mercado. O token BLUR chegou a perder mais de 20% de seu valor, sendo negociado próximo de US$ 0,015.
Como a Blur chegou a liderar o mercado de NFTs
A ascensão da Blur aconteceu durante um período de forte competição entre plataformas de negociação de NFTs.
Esses ativos digitais são registros únicos em blockchain que podem representar obras de arte, itens de jogos, objetos colecionáveis e outros produtos digitais. O mercado ganhou popularidade especialmente entre 2021 e 2022, quando algumas coleções chegaram a movimentar milhões de dólares.
Diferentemente de plataformas voltadas principalmente para colecionadores, a Blur buscou conquistar investidores que negociavam NFTs com frequência, oferecendo ferramentas profissionais, transações mais rápidas e incentivos financeiros.
Uma das principais estratégias foi eliminar as taxas cobradas pela plataforma e distribuir recompensas em tokens para incentivar as negociações.
O modelo ajudou a atrair usuários e permitiu que a Blur ultrapassasse a OpenSea em volume negociado, mesmo tendo sido lançada anos depois da concorrente.
O crescimento, porém, também provocou críticas. Os programas de recompensas estimularam operações especulativas, enquanto a política de taxas pressionou os pagamentos de direitos autorais aos criadores das coleções.
Outro problema foi a dificuldade de transformar o elevado volume de negociações em receita.
Segundo dados da Token Terminal citados pelo CoinDesk, a Blur não registrou receitas provenientes de taxas do marketplace nos últimos três anos, apesar de ter intermediado bilhões de dólares em transações.
Isso não significa necessariamente que a empresa não tenha obtido recursos por outras atividades, como seu serviço de empréstimos, mas mostra uma limitação importante do modelo adotado para atrair usuários.
Em seu site, a Blur ainda destaca ter movimentado mais de US$ 7,4 bilhões desde o lançamento, valor que contrasta com a forte redução da atividade nos últimos anos.
O encerramento da interface também ocorre em um cenário mais amplo de retração dos NFTs. Após o crescimento acelerado durante o ciclo de alta anterior, o mercado perdeu liquidez, viu os preços de diversas coleções despencarem e passou a enfrentar dificuldades para recuperar o interesse dos investidores.
Segundo projeções da Statista citadas pelo Decrypt, a receita global do mercado de NFTs deve alcançar aproximadamente US$ 318,3 milhões em 2026, um patamar muito inferior ao observado nos anos de maior atividade.
Outro projeto do fundador da Blur será encerrado
O fechamento do site da Blur acontece apenas dez dias depois de outro projeto ligado ao mesmo fundador anunciar o encerramento de suas operações.
Em 2 de outubro, a Blast, rede blockchain desenvolvida para ampliar a capacidade de processamento do Ethereum, informou que também deixaria de funcionar.
A Blast foi criada por Tieshun Roquerre, conhecido no mercado cripto pelo apelido Pacman, fundador da Blur.
A rede ganhou destaque por oferecer recompensas aos usuários que transferiam criptomoedas para seu ecossistema e chegou a concentrar mais de US$ 2 bilhões em ativos.
Entretanto, esse valor havia diminuído para aproximadamente US$ 32 milhões quando a equipe anunciou o encerramento.
No caso da Blast, os desenvolvedores afirmaram que os custos necessários para manter a rede haviam superado as receitas geradas pelo projeto, tornando sua continuidade financeiramente inviável.
Os usuários têm até 26 de outubro para retirar seus recursos utilizando a interface convencional da rede.
Já a Blur não atribuiu publicamente sua decisão a prejuízos operacionais. Por isso, embora a queda de 99,5% nas negociações e a ausência de receitas com taxas ajudem a contextualizar o encerramento, a plataforma não apresentou esses fatores como justificativa oficial.
Os dois anúncios, realizados em um intervalo de apenas dez dias, representam uma forte retração dos projetos associados a Roquerre, que estiveram entre as iniciativas de maior destaque do mercado de criptomoedas durante o ciclo anterior.
No caso da Blur, o fim da interface em novembro encerrará uma etapa importante da disputa pelo mercado de NFTs no Ethereum, que chegou a movimentar bilhões de dólares mensais, mas ainda enfrenta dificuldades para recuperar os níveis de atividade registrados em seu auge.
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