Há nuvens nas relações bilaterais entre os EUA e o Brasil, mas momentos como o encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Casa Branca, em 7 de maio, trazem alívio. A fase da confrontação direta atravessada em 2025, com tarifas, ameaças e sanções, parece ter ficado para trás, pelo menos por enquanto. Os dois países se comprometeram a trabalhar juntos no tema do comércio bilateral e no combate ao crime organizado.
No entanto, considerando a célebre imprevisibilidade do presidente americano, tudo isso pode se inverter mais uma vez, alerta Nick Zimmerman, sócio-fundador da consultoria Dinámica Americas e ex-diretor do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca para Assuntos do Brasil e do Cone Sul. Os Estados Unidos ainda estão empenhados em conter a presença chinesa na América Latina, o que coloca a participação brasileira nos Brics no olho do furacão.
Outros pontos de atrito persistem, desde a possibilidade de Trump tentar influenciar as eleições de outubro até a ameaça de declarar organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. Um tema particularmente delicado é a política de terras raras, que afeta diretamente os interesses econômicos de Washington: se o governo impedir empresas americanas de adquirir minas brasileiras, a retaliação pode ser pesada. A seguir os principais trechos da entrevista:
Valor: Quando a visita de Lula à Casa Branca foi adiada, muitos pensaram que ela jamais aconteceria. Mas aconteceu e, ao final, ambos os presidentes declararam que o resultado foi positivo. Como o sr. interpreta essa reviravolta?
Nick Zimmerman: Fiquei surpreso quando o encontro foi anunciado. Achei que Trump relutaria em receber um líder crítico da guerra no Irã, justamente quando perde apoio dos americanos por causa dela. O fato de a visita ter acontecido, e a pedido da Casa Branca, ressalta o quanto Trump valoriza os relacionamentos pessoais em detrimento da ideologia. Ele gosta de Lula e desenvolveu uma conexão com ele, apesar do antagonismo de alguns de seus assessores políticos. Os ideólogos do Departamento de Estado que se aproximaram dos Bolsonaro foram marginalizados. O Departamento de Estado nem sequer esteve presente na reunião, o que é revelador. No rescaldo imediato da visita, a perda de influência das vozes anti-Lula no governo Trump é a notícia mais importante do lado americano.
O resultado positivo da reunião diminui a probabilidade de Trump questionar o processo eleitoral brasileiro, apoiar Flávio Bolsonaro, implementar novas tarifas ou atacar o Pix. Mas deixo uma nota de cautela. Os amigos de Trump podem rapidamente se tornar inimigos. Basta ver o que está acontecendo entre Trump e a primeira-ministra Giorgia Meloni, da Itália. Além disso, as diretrizes de Trump para sua equipe podem ser vagas e deixar seus assessores com muita margem para interpretação e manobras. Ainda podemos ver surpresas e pontos de tensão à medida que esses grupos de trabalho se reúnem. Mas por ora a reunião foi uma vitória para Lula e para as relações Brasil-EUA como um todo.
Valor: Considerando o tamanho do Brasil e sua economia, a “Donroe Doctrine” e a nova Estratégia de Segurança Nacional podem afetar o Brasil? Por exemplo, o caso da Venezuela e o bloqueio a Cuba devem acender um alerta?
Zimmerman: A elevação da América Latina e do Caribe na Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump é uma questão relevante, que vai afetar de um jeito ou de outro todos os países das Américas. Não vejo uma relação direta que possa atingir o Brasil a partir dos casos da Venezuela e de Cuba, mas é evidente que a ênfase em dar apoio a lideranças ideologicamente alinhadas ao governo americano na região ilustra por que houve tantas tentativas do regime de Trump para intervir na política brasileira, de maneiras que, eles acreditam, beneficiam a família Bolsonaro.
Valor: Um ponto sensível é o papel do Brasil como parceiro comercial da China e membro dos Brics. Considerando os esforços de Trump para reduzir a penetração chinesa na América Latina, estamos em rota de colisão?
Zimmerman: Quando Trump foi reeleito, eu pensava que uma colisão frontal seria inevitável. Não fiquei surpreso quando Trump anunciou o aumento agressivo de tarifas comerciais contra o Brasil, nem com as sanções contra Alexandre de Moraes, embora acredite que ambas as ações foram injustificáveis, hipócritas e contraproducentes. O que me deixou mais surpreso foi que os setores privados dos EUA e do Brasil acabaram conseguindo chegar a um acordo, o que criou espaço para Trump e Lula desenvolverem sua suposta “química”.
Trump parece ter uma visão mais positiva de Lula do que a sua entourage”
Valor: Podemos esperar novas medidas tarifárias ou de outra natureza?
Zimmerman: Não podemos descartar a possibilidade de Trump recorrer novamente a tarifas, já que isso está no seu DNA. Mas ele não tem mais a mesma autoridade para implementar tarifas amplas, devido às derrotas judiciais que sofreu. Ele também está sofrendo por causa da inflação e os democratas já perceberam sua vulnerabilidade no tema do poder de compra. Por isso, é improvável que ele recorra a novas tarifas sobre as principais exportações brasileiras, como café e carne, em ano eleitoral. Mais viáveis são as sanções direcionadas ao Pix, por exemplo. Ou em casos em que as autoridades americanas considerem a regulamentação brasileira do setor de tecnologia como “contrária à liberdade de expressão”.
O Brasil não é uma prioridade para Trump e duvido que ele tenha capacidade ou disposição para tomar medidas abrangentes no curto prazo. Talvez alguns de seus assessores o convençam do contrário. Uma das razões pelas quais as previsões sobre Trump e o Brasil são difíceis é que sua equipe não está unida sobre o assunto. Trump parece ter uma visão mais positiva de Lula do que a sua entourage. Alguns de seus assessores econômicos também entendem as oportunidades que existem no Brasil, mas autoridades políticas, em agências como o Departamento de Estado, apoiam Bolsonaro e querem se opor a Lula.
Valor: A Suprema Corte dificultou o recurso a tarifas para pressionar países. Considerando esse episódio e a situação no Irã, a posição de Trump se enfraqueceu? Isso favorece o Brasil?
Zimmerman: Sim, sua posição se enfraqueceu consideravelmente. Trump nunca foi muito popular nos EUA, mas a lua de mel do segundo mandato acabou. Se as eleições de meio de mandato fossem amanhã, ele provavelmente sofreria perdas históricas. O Irã e a inflação mudaram o clima do país. A população não quer essa guerra. Dito isso, Trump tende a se tornar mais imprevisível e radical quando está vulnerável, então, não podemos dizer que um Trump enfraquecido, por si só, favorece o Brasil. E se a fraqueza de Trump o levar a realizar uma intervenção militar unilateral em Cuba? Assim como na Venezuela, tais ações marginalizam o Brasil e mostram como sua influência regional diminuiu. Não acho que possamos tirar muitas conclusões definitivas sobre como a posição de Trump no plano doméstico impacta os interesses estratégicos do Brasil.
Valor: Pode-se dizer que é hora de se preparar para o “pós-Trump” nos Estados Unidos?
Zimmerman: Por razões semelhantes à da resposta anterior, é cedo demais para dizer que estamos perto de um momento pós-Trump nos EUA. Ele remodelou o Partido Republicano e aproximou o país de um modelo autoritário competitivo. Infelizmente, seu impacto perdurará além de sua presidência. E precisamos observar atentamente como ele continua a interferir indevidamente nos processos eleitorais do país. É preciso levar a sério os esforços para suprimir o voto nos EUA.
Valor: No Brasil, há um temor, sobretudo entre os apoiadores do governo, de que o governo americano tente intervir nas eleições, e o exemplo citado é o da ajuda de US$ 20 bilhões à Argentina no ano passado. Quais são suas expectativas em relação a essa possibilidade?
Zimmerman: É uma pena, mas as relações entre os EUA e o Brasil se tornaram extremamente polarizadas e politizadas. Funcionam menos, no nível de Estado para Estado, do que quando eu estava no governo. Por isso, algum tipo de intervenção nas eleições brasileiras parece inevitável. Mas nem todas as intervenções são iguais. Veja, por exemplo, a defesa da legitimidade do processo eleitoral brasileiro em 2022 feita pelo governo [do democrata Joe] Biden, em resposta às alegações infundadas de fraude eleitoral de Jair Bolsonaro. Isso foi rotulado por alguns como “intervencionismo”, mas foi uma defesa das instituições e da soberania brasileiras. Então, a verdadeira questão é: como será a intervenção dos EUA neste ano?
Valor: Há algum sinal quanto a isso?
Zimmerman: Vamos supor que seja só o apoio de Trump a Flávio Bolsonaro. Isso não seria diferente de quando Jair Bolsonaro apoiou a candidatura fracassada de Trump à reeleição em 2020 ou de quando Lula apoiou Biden e Kamala [Harris em 2024]. Não sou especialista em política eleitoral brasileira, mas suspeito que tais apoios não tenham grande importância para os eleitores. É claro que a intervenção poderia ser algo mais agressivo, como novas tarifas, a designação do PCC e do CV como organizações terroristas ou o lançamento de dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral. Algumas dessas ações poderiam ter impacto nas eleições brasileiras e, ironicamente, esse impacto provavelmente seria contrário às preferências de Trump.
Algum tipo de intervenção nas eleições brasileiras parece inevitável”
Valor: Ainda sobre as eleições, os apoiadores de Lula também têm uma certa aposta no chamado “efeito Trump”: do Canadá à Hungria, candidatos pró-Trump vêm sendo derrotados, acredita-se que por repúdio ao americano. Esse efeito existe? Ele vale para o Brasil?
Zimmerman: Acredito que o “efeito Trump” existe, sim, só que ele age em ambas as direções. O apoio de Trump prejudicou candidatos no Canadá e na Hungria, mas beneficiou outros na Argentina e Honduras. No Brasil, o “efeito Trump” vai depender do que a intervenção dos EUA vier a envolver. É compreensível que Trump não seja popular no Brasil, mas se ele se limitar a apoiar Flávio ou implementar tarifas direcionadas, que não impactem grandes parcelas da população, não tenho certeza se haverá um grande “efeito Trump”. A menos que a Casa Branca implemente mais uma vez tarifas amplas, que prejudiquem o bolso dos brasileiros comuns, acho que esta eleição será decidida por dinâmicas internas do Brasil. Isso acontece também nas eleições americanas, já que ambos são países continentais, que tendem a ser isolados.
Valor: Outro temor é esse que o sr. mencionou: que o governo Trump avance com o projeto de declarar o PCC e o CV como terroristas, o que permitiria intervenções no sistema financeiro nacional. Qual é a probabilidade de que isso aconteça e quão poderoso seria o impacto?
Zimmerman: Acho que é muito possível, para não dizer provável. Seria uma decisão equivocada e poderia criar uma série de novos pesadelos de conformidade para empresas que operam no Brasil, além de abrir espaço para novas formas de sanções e pressão do governo Trump. Também acho que poderia representar um desafio político para Lula durante o ciclo eleitoral.
Valor: Uma recente causa de atrito foi a compra da mineradora Serra Verde pela USA Rare Earth, que pode ser barrada. Esse caso pode levar a uma intervenção americana mais pesada?
Zimmerman: Sim. O governo Trump se preocupa muito com o acesso a minerais críticos. É uma parte fundamental de sua estratégia para reduzir os riscos em relação a Pequim. Se o governo brasileiro bloquear o acordo, acredito que a Casa Branca poderá responder de forma muito agressiva. Esse tipo de questão tem o potencial de enfurecer Trump e levá-lo a buscar medidas punitivas contra o Brasil.
Além disso, acredito que o cancelamento desse tipo de acordo não atenderia, em última análise, aos interesses estratégicos do Brasil. Afinal, o domínio da China no setor de minerais críticos a torna, essencialmente, a principal concorrente do Brasil nesse segmento. Por isso, o Brasil precisa encontrar outros parceiros, como os Estados Unidos, que ofereçam investimentos de alto valor agregado. Essa parece ser uma questão importante, que devemos, de fato, acompanhar de perto.
Valor: Recentemente, em parte devido à agressividade de Trump, houve uma aproximação do Brasil com a Europa, com a ratificação do acordo Mercosul-UE e também encontros amistosos com Macron, Sánchez e Merz. Como esse movimento é visto desde Washington?
Zimmerman: Para aqueles em Washington que se importam com a democracia e as estruturas de alianças globais, o acordo comercial é mais um exemplo da comunidade democrática de nações deixando os Estados Unidos para trás. Não sei o que Trump pensa sobre o acordo, mas suspeito que ele mal esteja ciente dele.
Valor: Antigamente, havia a ideia de estabelecer uma “relação especial” entre os EUA e o Brasil, devido a semelhanças como o território, a composição multirracial, a democracia federativa etc. Alguns analistas falavam da possibilidade de o Brasil ser um intermediário da política americana na região. Essa ainda é uma ideia que faz sentido no contexto atual?
Zimmerman: Na minha opinião, o último presidente dos EUA que considerou o Brasil como um possível interlocutor na região foi George W. Bush. Já faz muito tempo que essa dinâmica que você descreve não existe. Mesmo naquela época, o Brasil não era visto como um interlocutor para o continente como um todo, mas, sim, para a América do Sul. Washington tem muitos interesses e muita história na região para não se engajar diretamente com os parceiros sul-americanos. Além disso, a maioria dos países sul-americanos não quer que seu relacionamento com os Estados Unidos seja mediado pelo Brasil.
Quando trabalhei com as relações com o Brasil na Casa Branca de Obama, de 2014 a 2016, por exemplo, certamente queríamos coordenar com o Brasil em questões regionais. Mas nossa principal prioridade era criar um nível de ambição mais elevado no relacionamento como um todo, que refletisse o fato de sermos duas das maiores democracias do mundo. Queríamos que nossa cooperação fosse global, não apenas regional. O melhor exemplo disso foi a histórica declaração conjunta sobre mudanças climáticas assinada pelos presidentes Obama e Dilma Rousseff em 2015, que desempenhou um papel importante na aprovação do Acordo de Paris sobre o clima.