Há muito que a computação gráfica deixou de ser um instrumento para viabilizar produções audiovisuais, passando a ser, ao revés, a razão para a existência delas, com muitos roteiros criando não exatamente uma história, mas sim oportunidades para seu emprego, o que normalmente os transforma em colchas de retalho narrativas que tendem ao espetáculo e esquecem por completo o conteúdo. Per Aspera Ad Astra, superprodução chinesa que chegou em streaming ao ocidente é um desses casos em que o que vemos em tela é resultado do “toró de palpites” de uma coalização de roteiristas focados em potencializar o CGI e não exatamente detalhes insignificantes como coesão narrativa, desenvolvimento de personagens e outros aspectos que, em um mundo ideal – mesmo em obras feitas “somente” para divertir – deveriam ficar em primeiro plano.
E, em termos de uso das ferramentas de programação visual à disposição, o roteiro escrito em colegiado faz o que é possível para abrir espaço para o deslumbramento, mesmo que esse deslumbramento, por sua vez, exista muito mais em razão do histrionismo das sequências do que pela computação gráfica em si que, apesar de bonita em sua superfície, é asséptica, fria, plástica, artificial e repetitiva mesmo quando há os mergulhos criativos nos sonhos dos tripulantes da nave Mengya cuja viagem de 65 anos é interrompida quando faltam pouco mais de quatro anos depois que Xu Tianbiao (Dylan Wang), responsável pela ferramenta que cria sonhos para evitar a degeneração neurológica durante a criogenia, acorda de seu sono profundo e testemunha uma explosão. Chega a ser irônico que um longa cuja mensagem de fundo é um libelo anti-inteligência artificial pareça justamente algo criado por I.A., em uma infinita progressão que não passa de um formulário do que fazer para ser um blockbuster sci-fi tendo cada quadradinho devidamente “ticado”. Até mesmo o tal libelo não só é introduzido muito tardiamente, como ele é soterrado pela cinética da montagem que não deve nada aos momentos mais caóticos da carreira de Michael Bay.
Com um elenco diminuto basicamente formado de atores que vivem personagens que precisam ser acordados a conta-gotas na medida em que os problemas precisam ser resolvidos, o filme não parece sequer cair na categoria live-action, pois a artificialidade é tanta que até mesmo as fisionomias dos atores parecem ser resultado de bits e bytes e não da efetiva presença de seres humanos diante da câmera. É, para resumir, um filme com atores reais que quer muito ser uma animação, mas que não tem nem o coração dramático do primeiro e nem o deslumbramento visual da segunda. O que se segue da premissa até interessante é uma abordagem amalucada que consegue divertir no começo, mas que cansa quando começa a mostrar que toda a progressão narrativa é feita exclusivamente na base do “lave, enxague e repita”, com pequenos incrementos repletos das obrigatórias reviravoltas e, claro, referências, que parece ser tudo o que supostos blockbusters de ação atuais – da China, de Hollywood e até da Europa – conseguem fazer, com direito a uma montagem feita tendo em mente o estado atual da desatenção em massa que impede a fixação exclusiva em uma coisa apenas por mais de alguns segundos se não houver nada chamativo ou explosivo que fixe a atenção.
Nos poucos momentos em que a ação para um pouco para dar descanso, ela é substituída por diálogos expositivos sobre o que acabamos de ver e o que veremos em seguida e diversas tentativas patéticas de criar profundidade para os personagens, como é o caso da conversa entre Xu Tianbiao e Li Simeng (Victoria Song), capitã da nave, sobre a mãe dela. Toda a artificialidade visual é ecoada na artificialidade das relações humanas e o longa, com isso, acaba esvaziado e distante demais do espectador para que seja possível, genuinamente, sentir alguma coisa por quem quer que seja ou pela situação em tese periclitante por que a nave passa. A sensação de urgência inexiste para além dos sacolejos visuais que gritam perigo sem lidar com ele, sem realmente materializar o desafio que os tripulantes precisam enfrentar e o que fica são lampejos que ameaçam mostrar algo interessante, mas que se perdem exatamente pelo bombardeio incessante desses lampejos que jamais são concretizados.
O título ocidental do longa é um ditado latino que significa, em resumo, que o sucesso só pode ser alcançado se as dificuldades forem enfrentadas, mas a produção justamente evita toda e qualquer dificuldade, todo e qualquer obstáculo, para entregar algo que, mesmo que tenha como público alvo jovens e adolescentes, o que jamais pode ser usado como desculpa para fazer algo banal, não oferece nada que lembre mesmo de longe algum tipo de desafio. Na verdade, minto, pois o desafio, aqui, é não revirar os olhos em incredulidade diante de um longa que tenta ser visualmente deslumbrante, somente para acabar sendo mais uma daquelas obras que carecem de alma ou de qualquer semblante de que humanos realmente participaram de sua criação.
Per Aspera Ad Astra (星河入梦 / Xīnghé Rùmèng – China, 2026)
Lançamento no Brasil: 18 de junho de 2026
Direção: Han Yan
Roteiro: Qian Ninghuang, Han Yan, Gao Lu, Liu Dalin, Xu Chen, Ma Peisi
Elenco: Dylan Wang, Victoria Song, Zu Feng, Luo Haiqiong, Wang Duo
Duração: 111 min.