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segunda-feira, junho 15, 2026

Açaí da Mata Atlântica conquista chefs e ajuda na preservação da floresta

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A dupla escala a palmeira como se fosse uma escada, munida de um laço firme, botas de borracha nos pés e um serrote dobrável na cintura. A cada vez um sobe, e o outro dá assistência, ficando de prontidão para agarrar o cacho cheio de frutos enquanto o colega escorrega até o chão. Parece uma cena da região Norte do país, mas estamos na Mata Atlântica de Morretes (PR), na região Sul.

É assim entre abril e agosto, época de colheita do açaí-juçara, uma palmeira muito usada em projetos de paisagismo. Também chamado de “coquinho”, o fruto roxo entrega uma polpa grossa e nutritiva quando batido, uma riqueza da Mata Atlântica que poucos conhecem. “Juçara” ainda remete ao palmito da planta, cuja extração é proibida no Paraná e permitida mediante manejo e fiscalização em outros estados.

Os escaladores especialistas, Phablo Bittencourt e Gustavo Najar Urbano Silva, comandam o Instituto Juçara, criado para estimular o uso do fruto e ajudar agricultores a beneficiar o produto, além de desestimular o corte ilegal do palmito, que acaba matando a árvore.

“O grande desafio é dar escala ao uso do fruto e combater a extração ilegal do palmito”, diz Rodrigo Conde — Foto: Gabriel Marchi/Divulgação

“Durante muitos anos produzimos conserva de palmito juçara e ainda temos mais de 2 mil hectares de áreas”, diz Maristela Mendes, proprietária da Bananina, fábrica de bala de banana de Antonina (PR). “Com o encerramento da atividade de produção de conserva, financeiramente não conseguimos manter os vigias no mato e o palmito dessas áreas foi saqueado. Não sobraram árvores, sementeiras, nem a casa da sede foi poupada. Acredito que, com a exploração para o processamento dos frutos, a atividade possa ser uma opção para a inclusão de pessoas que, antes, viam a atividade de roubar palmitos como única fonte de renda.”

A descoberta recente dos altos poderes nutricionais do açaí-juçara rendeu um novo sabor de bala de banana, que agora entra nas prateleiras ao lado das versões com pimenta, gengibre, goiabada, coco, abacaxi, entre outras.

“O açaí-juçara é sazonal, então precisamos aproveitar o período de colheita e congelar o máximo possível de polpa. Tem uma logística bem diferente de todos os sabores de bala de banana que produzimos. O sabor se mistura ao da banana no cozimento e fica quase imperceptível, mas as propriedades nutricionais estão presentes.”

O estímulo ao uso do fruto roxo faz parte do projeto Paisagens Multifuncionais na Grande Reserva Mata Atlântica, da ONG SPVS. O coordenador, Rodrigo Condé, foi quem procurou a Bananina para sugerir o novo sabor.

Gustavo Najar Urbano Silva é um dos diretores do Instituto Juçara, criado para estimular o uso do fruto e ajudar agricultores a beneficiar o produto — Foto: Gabriel Marchi/Divulgação
Gustavo Najar Urbano Silva é um dos diretores do Instituto Juçara, criado para estimular o uso do fruto e ajudar agricultores a beneficiar o produto — Foto: Gabriel Marchi/Divulgação

“O grande desafio é dar escala ao uso do fruto e combater a extração ilegal do palmito”, diz ao Valor o engenheiro florestal mineiro. A campanha começou no fim de 2024 e vai até o fim deste ano, custeada pelo programa Biodiversidade Litoral, fruto de um termo de ajustamento judicial da Petrobras.

Uma das ações do esforço em prol do açaí-juçara contempla o convite a jornalistas e chefs de cozinha para conhecer a cadeia produtiva em formação e ajudar a criar novas opções culinárias com o fruto, que já incluem drinques, pão, ceviche, uso em saladas e até brigadeiro de açaí-juçara.

“O açaí-juçara tem características muito interessantes gastronomicamente, principalmente quando pensamos em alta gastronomia, cozinha brasileira contemporânea e construção de identidade territorial”, afirma Willian Peters, que já passou por casas estreladas Michelin e participou do “MasterChef Brasil”.

“A juçara é menos doce que o açaí tradicional amazônico, tem notas que lembram frutas escuras, cacau, vinho tinto e oliva preta; com alta concentração de gordura e textura, o que gera uma untuosidade muito elegante, funcionando muito bem em molhos, emulsões, gelados, fermentações e sobremesas menos açucaradas”, diz.

O viveiro do Legado das Águas, que produziu mais de 6 mil mudas de juçara nos últimos dois anos — Foto: Divulgação
O viveiro do Legado das Águas, que produziu mais de 6 mil mudas de juçara nos últimos dois anos — Foto: Divulgação

“É rico em antioxidantes, antocianinas e lipídios bons, algo que também ajuda na comunicação contemporânea do ingrediente. Já realizei alguns testes e aplicações diferentes com juçara, principalmente tentando fugir daquela leitura da tigela de açaí. Usei juçara em redução com vinho tinto, fundo escuro e especiarias. Ficou muito próximo de uma lógica entre frutas vermelhas e demi-glace, com profundidade bem elegante para cordeiro e pato. Testei fermentação leve com juçara e frutas ácidas. O resultado ficou extremamente vínico, quase lembrando kombucha natural ou vinho jovem.”

Ainda na ala das bebidas, o bartender Leonardo Oliva explica que o fruto também é rico em taninos, o que o torna um ótimo ingrediente para se usar no lugar da uva, com novas camadas de sabores e identidade mais brasileira.

“Fiz testes criando um xarope com água e açúcar, em que o açaí se encaixou como base refrescante tipo soda italiana, perfeita para o verão. Também testei com inspiração no drinque old fashioned, e é incrível como ele trouxe uma profundidade de sabor que nos intriga para um próximo gole.”

Ele gera renda sem derrubar a palmeira e fortalece a conservação da Mata Atlântica”

— Gustavo Urbano Silva

A planta é do mesmo gênero do açaízeiro encontrado no Norte e que popularizou em todo o país o consumo do açaí. As espécies, porém, são diferentes, sendo que o produto da Mata Atlântica tem algumas vantagens nutricionais. “Estudos mostram que ele pode ter até quatro vezes mais antocianinas, um pigmento avermelhado que funciona como antioxidante, com benefícios para a saúde. As pessoas descrevem o sabor como mais suave e menos terroso”, diz Condé.

Porém, não se trata de concorrer com o açaí do Norte, que tem muita escala e chega mais barato no Sul e Sudeste, mesmo com o longo trajeto de caminhão. “Mas o pessoal da Mata Atlântica pode aproveitar o marketing que o açaí já faz e diferenciar suas propriedades nutritivas superiores para ganhar mercado em produtos de maior valor agregado.”

Para estimular a população do litoral a apostar no açaí-juçara e investir nessa cadeia produtiva, o projeto montou uma cozinha-laboratório em uma das reservas da SPVS, com uma máquina despolpadeira, que transforma as sementes em polpa, além de fogão e freezer. Quanto antes for congelada, a polpa terá mais qualidade.

A polpa do açaí-juçara, que é, segundo o chef Willian Peters, menos doce que o açaí amazônico — Foto: Gabriel Marchi/Divulgação
A polpa do açaí-juçara, que é, segundo o chef Willian Peters, menos doce que o açaí amazônico — Foto: Gabriel Marchi/Divulgação

Em outra frente vem o apoio aos agricultores, que recebem treinamento, além da manutenção de áreas frutíferas nativas. “Entre as frutas mais consumidas no Brasil, somente o maracujá, açaí e abacaxi são nativas. Falta conhecer e testar muitos frutos diferentes.”

Quem comanda a despolpa é Rayen Cristiane Mourão, agricultora agrofloresteira para quem “o potencial da juçara é promover saúde e soberania alimentar para o ecossistema como um todo: solo, animais, pessoas”. Com a coleta e despolpa, ela tem alimentado a família e pretende vender o excedente para produção de geleias e sorbets. “Fica ótimo colocar a polpa pura na comida, no peixe, arroz, macarrão, salada, na mandioca cozida fica de dar água na boca, fazer suco, vitamina, smoothie, sorvete, mousse e até tempero de saladas ou no preparo de massas como pão e massa de macarrão, além de doces e geleias.”

Gustavo, do Instituto Juçara, é tecnólogo em agroecologia e destaca o alto potencial ambiental, econômico e cultural do açaí-juçara. “Ele gera renda sem derrubar a palmeira e fortalece a conservação da Mata Atlântica. Agora precisamos ampliar essa cadeia com capacitação, eventos, apoio às pequenas agroindústrias, comunidades tradicionais e desenvolvimento de produtos, incentivando o consumo e a conservação.” Na região já ficou famoso o sorbet produzido e vendido pelo instituto.

Em outra frente, a Associação dos Pequenos Produtores Rurais e Artesanais de Antonina (Aspran), que reúne cerca de 60 cooperados, está negociando a inserção do produto na merenda escolar e parcerias para aproveitamento em outros setores, como o de cosméticos, por meio de parcerias viabilizadas pelo projeto da SPVS.

Na reserva Legado das Águas é possível fazer canoagem noturna sem lanternas, no escuro absoluto, assim como a observação noturna de corujas — Foto: Divulgação
Na reserva Legado das Águas é possível fazer canoagem noturna sem lanternas, no escuro absoluto, assim como a observação noturna de corujas — Foto: Divulgação

A proteção da palmeira-juçara é um dos braços de um projeto maior criado em 2018 chamado Grande Reserva Mata Atlântica. A área engloba o litoral sul de São Paulo até o norte de Santa Catarina, com 3 milhões de hectares, o maior contínuo de Mata Atlântica no mundo, com várias espécies ameaçadas. “Além do uso dos produtos alimentares, queremos estimular o turismo de inverno de qualidade na região, porque no verão as pessoas naturalmente já vão para as praias situadas ali”, diz o coordenador Ricardo Borges.

Com cerca de mil membros, entre empreendimentos e organizações, a Grande Reserva já conta com opções de turismo de luxo e atividades especializadas, buscando capacitar funcionários para atender em outros idiomas, por exemplo. “São lugares para você frequentar a floresta com segurança”, diz Borges.

Uma dessas opções fica na reserva Legado das Águas, no Vale do Ribeira paulista, onde o hóspede pode optar por uma série de atividades noturnas. Além de datas próprias para a observação da Via Láctea, é possível fazer canoagem noturna sem lanternas, no escuro absoluto, e “corujadas”, com a observação noturna de corujas.

Nos últimos dois anos, o Centro de Biodiversidade da Mata Atlântica do Legado das Águas também produziu mais de 6 mil mudas de juçara, vendidos para projetos de restauração ecológica e paisagismo urbano.

Em Morretes (PR), o Ekoa Park, conhecido como “Disney da Mata Atlântica”, oferece até voo de balão cativo e trilha com obras de arte criadas com elementos da natureza. Em Antonina, a SPVS possui duas reservas naturais que também estão abertas a visitação, a Reserva Natural Guaricica e a Reserva Natural das Águas, que realiza um dos programas de restauração ecológica mais longevos na Mata Atlântica, com mais de 2 mil hectares em recuperação e trilhas para observação de aves e mirantes.

Uma das metas dos turistas que vão à região é avistar os dormitórios de guarás, ave de vermelho intenso que se abriga em galhos de árvore para passar a noite. Entre os militantes da Mata estão também fotógrafos que se especializam em clicar aves raras e divulgar os passeios turísticos, como Gabriel Marchi.

“Eu estava há um tempo buscando trabalhar com filmes de natureza, mas para mim muitos projetos não faziam sentido, então fiz uma especialização em conservação para entender essa linguagem e como adaptá-la em histórias de impacto”, diz. “Os documentaristas que trabalham com um território específico sabem das histórias da região e podem agregar criatividade à divulgação da ciência.”

[Fonte Original]

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