Em meio ao desafio de lidar com o impacto das mudanças climáticas, que impõem revisões nos modelos de precificação e pressionam a sinistralidade, o setor segurador brasileiro tem se movimentado para atuar na prevenção e na gestão de riscos. Como parte dessas iniciativas, o Sindicato das Seguradoras de São Paulo (Sindseg SP) e a prefeitura da capital paulista anunciam hoje uma parceria voltada a fortalecer a preparação da cidade para os efeitos de eventos climáticos extremos.
O projeto terá como base um estudo sobre os riscos climáticos da cidade, que mapeia a exposição de diferentes regiões e seus potenciais impactos. “Nosso mercado, pela própria característica de analisar riscos, acumula muita informação não só sobre onde já ocorreram eventos, mas também sobre onde eles podem ocorrer no futuro”, explica Patricia Chacon, presidente do Sindseg SP. “A ideia é que o estudo funcione como um sistema de apoio à tomada de decisão da administração municipal, ajudando a definir prioridades de prevenção, adaptação e resposta.”
Para isso, a cidade foi dividida em áreas de um quilômetro quadrado, permitindo uma análise mais ampla da exposição de cada região. Além dos danos materiais, o estudo mapeou potenciais impactos sociais e sobre o funcionamento da cidade, com informações sobre hospitais, unidades de pronto atendimento, escolas de diferentes níveis de ensino, centros de abastecimento, instalações logísticas e os principais corredores de deslocamento e de escoamento.
A análise também considerou a resiliência da infraestrutura urbana diante de cenários extremos, identificando rotas alternativas e pontos críticos para evitar situações de colapso semelhantes às observadas durante as enchentes que atingiram Porto Alegre em 2024, afirma Farme.
O plano, segundo Chacon, é estender o estudo para outras cidades paulistas e fazer com que a iniciativa seja “um farol” para outros estados brasileiros. “O mercado ainda convive com uma lacuna muito grande de proteção securitária, e as parcerias público-privadas são um dos caminhos para resolver parte desse problema e tornar as cidades mais resilientes.”
Nos últimos anos, os desastres relacionados ao clima deixaram de ser uma preocupação secundária para o setor e passaram a representar um desafio central, principalmente após as enchentes no Rio Grande do Sul, consideradas o maior sinistro climático da história do país.
“No Brasil, sempre falávamos daquela ideia de sermos abençoados e, por isso, não termos catástrofes naturais, mas isso mudou”, diz Farme. “O que estamos começando a ver é muitas seguradoras multinacionais que estão trazendo para o Brasil os modelos de precificação internacionais, colocando efetivamente no preço da apólice o componente eventos da natureza.”
Em meio a esse cenário, as seguradoras também ampliaram a participação em fóruns internacionais sobre o tema. No fim deste mês, por exemplo, executivos das principais seguradoras nacionais e internacionais que operam no país participarão da London Climate Action Week.
“Estar presente nessas discussões é fundamental porque os desafios climáticos exigem cooperação, inovação e construção coletiva de soluções. O seguro tem um papel relevante na proteção financeira, obviamente, mas principalmente na prevenção de riscos e na geração de inteligência para adaptação climática”, diz Eduard Folch, presidente da Allianz Brasil.
A estratégia de inserção nos debates sobre sustentabilidade, liderada pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), foi iniciada em 2023 com a participação do setor na COP 28, em Dubai, e se estendeu para a COP 30, em Belém. “Conseguimos, com o apoio de atores muito importantes, fazer com que o seguro fosse percebido como um instrumento fundamental de adaptação, mitigação, prevenção e financiamento da transição climática, tanto que o setor foi destacado na carta do presidente da COP 30, embaixador André Corrêa do Lago, à comunidade internacional”, diz Dyogo Oliveira, presidente da CNseg.
Segundo ele, a inserção nos fóruns globais também impulsionou iniciativas e parcerias voltadas ao desenvolvimento do mercado, como um estudo que está sendo produzido com a UNEP FI (Iniciativa Financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) sobre riscos físicos e de transição em carteiras de seguros massificados.