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terça-feira, junho 16, 2026

CrossFit: Uma nova estética de satisfação? – Revista Cult

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A inscrição do corpo na cultura não é um sintoma da modernidade tardia; é, antes, o cimento da própria civilização. Dos ginásios gregos às arenas romanas, o corpo empenhado em práticas esportivas sempre foi o suporte de narrativas épicas – o palco onde o vivente desafia seus semelhantes, a natureza e a própria finitude. O Coliseu permanece até hoje como um monumento pétreo a esse testemunho: o esforço físico elevado a espetáculo, tateando a fronteira movediça entre o humano e o brutal.

Contudo, ao lançarmos o olhar para as práticas esportivas contemporâneas sob o prisma seja da Psicologia, seja da Psicanálise, topamos com um paradoxo incômodo: por que atividades que mobilizam tão drasticamente o sujeito em seu trabalho com o próprio corpo – numa tentativa de satisfação que escapa a qualquer obrigatoriedade e que implica um alto investimento de tempo, energia e força – ainda habitam as margens do debate das ciências da psique? Mesmo a Psicologia do Esporte, embora em franca expansão, parece ainda tatear as bordas do fenômeno, sem alcançar a profundidade subjetiva e o abismo que essas práticas evocam.

É justamente no limite desse hiato que se faz necessário lançar um olhar exploratório sobre um fenômeno relativamente novo no universo esportivo: o CrossFit. Gestada na virada do milênio pelo norte-americano Greg Glassman, a modalidade não apenas colonizou as Américas com velocidade impressionante, mas encontrou em solo brasileiro um terreno extraordinariamente fértil. Ao assumir o posto de segundo país em número de centros de treinamento (boxes) no mundo, o Brasil transformou a prática em algo que ultrapassa o mero condicionamento físico. Estamos diante de um autêntico fenômeno de massas que convoca uma leitura para além do suor.

A modalidade do CrossFit configura-se pela hibridização de técnicas da ginástica, do levantamento de peso olímpico (LPO) e do condicionamento físico de alta intensidade. Muito popular nas redes sociais por meio de memes e de representações caricatas que retratam seus praticantes como membros de grupos fortemente coesos – quase como seitas de indivíduos correndo sob o sol do meio-dia –, o CrossFit, contudo, revela muito mais do que uma combinação dinâmica de exercícios.

Trata-se, sobretudo na idealização do criador, de introduzir um novo estilo de vida, o que inclui cuidados com a alimentação, hábitos saudáveis de sono e comportamentos de higiene integral com a saúde. Essencialmente, o CrossFit convoca seus praticantes a desafiarem-se, conhecendo e ultrapassando os próprios limites. Apesar disso, o box – assim como o cenário de qualquer atividade física – também abriga aqueles que veem no CrossFit não uma forma de reconstrução na relação consigo mesmos, mas sim o terreno ideal para reatualizar um circuito marcado pela insatisfação e pelo atestado de limitação.

Como funciona?

O CrossFit consiste em um método de condicionamento de alta intensidade que amalgama três grandes eixos corporais: a ginástica olímpica (o domínio do próprio corpo), o levantamento de peso olímpico (LPO) e o treino cardiovascular (como corrida, remo e corda). Distanciando-se da musculação tradicional, a modalidade abdica do isolamento muscular – a exemplo da clássica repetição para o bíceps – em prol do desenvolvimento de uma capacidade de trabalho integral. O objetivo é preparar o organismo para qualquer contingência física por meio de movimentos funcionais que emulam o cotidiano: agachar, erguer, empurrar e saltar.

Essa engenharia corporal ganha configuração em um espaço com coordenadas muito estritas: o box oficial. Trata-se de um ambiente desprovido de espelhos, onde a subjetividade da imagem dá lugar à tirania objetiva do cronômetro. Ali, em sessões que duram de 40 a 50 minutos, o tempo é rigidamente faturado entre o aquecimento, a lapidação técnica e o WOD (Workout of the Day). Embora o treino seja democraticamente coletivo, a comunidade se fraciona entre iniciantes e avançados por meio do célebre recurso do treino “adaptado” (scaled) – reformulações cirúrgicas do circuito desenhadas para acolher a singularidade e a limitação anatômica de cada corpo.

Uma leitura psicanalítica sobre o CrossFit

A psicanálise é uma forma de tratamento sobre o sofrimento psíquico, inaugurada pelo médico neurologista austríaco Sigmund Freud, e que sempre se ocupou dos mistérios da psique, debruçando-se sobre os caminhos enigmáticos por meio dos quais o homem, a cada época, extrai prazer – mesmo ali onde a lógica comum enxerga apenas a dor. É a partir dessas cartografias sobre as formas paradoxais da satisfação humana que o CrossFit se revela um observatório privilegiado das forças psíquicas. Causa espanto, portanto, que tais práticas ainda não tenham despertado a devida atenção da comunidade psicanalítica, visto que funcionam como uma ampla vitrine daquilo que constitui o cerne do seu próprio campo: a satisfação, o prazer e a subjetividade do sofrimento.

Longe de se reduzir a um instinto biológico com fins predeterminados, essa força que move o homem incessantemente para a frente – e que impulsiona tanto os avanços da cultura quanto os retrocessos da barbárie, tanto o investimento na vida quanto a aceleração de sua finitude – localiza-se naquilo que Freud conceituou como pulsão (Trieb). No CrossFit, ela revela-se como uma força-limite: um trabalho eminentemente corporal e sem objeto específico, que empurra o sujeito a inventar destinos e circuitos inéditos para alcançar a satisfação. Se nem tudo pode ser reduzido ao “sexual” nos termos em que os críticos da psicanálise insistem, não se pode desconsiderar que a experiência humana orbita impreterivelmente em torno do quantum de satisfação que se pode extrair de cada ato, mesmo sob o jugo das mais severas restrições impostas pela realidade. Sabemos, a partir das contribuições da obra freudiana, que a fonte dessa energia reside nos processos profundos do corpo, encontrando no aparelho muscular a sua via privilegiada de descarga e expressão. Essa força atua como uma exigência de trabalho imposta ao psiquismo humano, colocando em movimento a engrenagem da civilização – tanto para a criação estética quanto para a ruína bárbara.

Nesse horizonte, vemos manifestar-se no CrossFit de modo evidente uma distinção que o bom senso costuma negligenciar: prazer e satisfação não caminham necessariamente de mãos dadas. Não é preciso um longo inquérito para constatá-lo; basta a proximidade com um “crossfiteiro” – como são chamados os praticantes – para testemunhar os efeitos dessa engrenagem sobre o funcionamento psíquico. Por mais anti-intuitivo que pareça à lógica ordinária, o aparelho psíquico é perfeitamente capaz de extrair satisfação do sofrimento e da dor – e nisso não há qualquer desvio ou indício de patologia.

Não é preciso ir longe para testemunhar esse paradoxo em ato. A paixão obstinada, quase devocional, que os praticantes de CrossFit nutrem pela modalidade sustenta-se, precisamente, na reiteração diária de condições extremas: o calor do suor, o colapso da exaustão e, não raramente, o sangue na barra de ferro. Na economia subterrânea da pulsão, o que superficialmente poderia ser lido como uma espécie de tortura muscular é, na verdade, a via de acesso a uma imensa e paradoxal satisfação – onde o limite real do corpo passa a funcionar como o contorno do próprio sujeito. Para além das respostas fisiológicas, como as descargas de dopamina e a abundância de endorfina, a prática opera um apaziguamento na relação do sujeito consigo mesmo.

O aspecto mais curioso desse circuito é que as atividades de ginástica e calistenia – que utilizam estritamente o peso corporal – exigem um trabalho motor e posicional muito similar ao experimentado na infância: o ficar de ponta-cabeça (handstand), o pendurar-se e o balançar-se na barra (toes-to-bar). A nosso ver, essa dinâmica provoca no praticante o reencontro com um corpo que ainda não sabe do que é capaz. Trata-se de uma arqueologia corporal análoga às brincadeiras infantis, mas que aqui permite uma experimentação capaz de dar destino à agressividade e à angústia por meio de uma descarga consentida. Seria esse encontro com a força e a potência do próprio corpo uma via de sublimação? Sustentamos essa consideração sob a forma de interrogação. Afinal, são as perguntas que movem o psiquismo, assim como o universo do CrossFit, onde a cada WOD o sujeito se confronta com o mesmo enigma: “Será que eu consigo?”.

Antonio Trevisan é psicólogo e psicanalista. Doutor em psicologia pela Université Côte d’Azur (França) e em psicologia clínica e cultura pela UnB. Atua na clínica psicanalítica e coordena o grupo de pesquisa em psicanálise Poiésis.



[Fonte Original]

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