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terça-feira, junho 16, 2026

Nick Jonas, Elisabeth Shue e David Arquette vivem drama sobre luto, mágoas familiares e recomeços, na Netflix

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Dirigido por Robert Schwartzman e lançado em 2023, “A Boa Metade” acompanha Renn Wheeland, interpretado por Nick Jonas, um escritor que deixa Los Angeles e volta a Cleveland após a morte da mãe, Lily Wheeland, vivida por Elisabeth Shue. O retorno, motivado pelo funeral, obriga Renn a encarar a irmã, Leigh Wheeland, papel de Brittany Snow, o pai, Darren Wheeland, interpretado por Matt Walsh, o padrasto, Rick Barona, vivido por David Arquette, e uma dor que ele tenta disfarçar com ironia, distância e aquela pose de quem está sempre a um comentário sarcástico de fugir da sala.

Renn Wheeland mora em Los Angeles, tenta seguir a vida como roteirista e evita assumir compromissos que possam parecer desistência de seus sonhos. Ele trabalha, ou quase trabalha, em um ambiente no qual uma promoção poderia lhe dar estabilidade, mas também soaria, para sua cabeça teimosa, como uma derrota criativa. Esse detalhe ajuda a situar o personagem. Renn é adulto o bastante para ter contas e jovem demais, emocionalmente, para aceitar que amadurecer não costuma vir com trilha sonora inspiradora.

A morte de Lily Wheeland interrompe essa fuga particular. Renn pega um voo para Cleveland, sua cidade natal, para participar do funeral da mãe, de quem se manteve afastado durante a doença. A viagem já carrega uma cobrança antes mesmo do pouso. Ele não volta apenas para uma cerimônia, volta para uma família que lembra sua ausência, cobra presença e não está disposta a tratar seu cinismo como charme.

No avião, Renn conhece Zoey Abbott, interpretada por Alexandra Shipp. Ela é expansiva, curiosa, fala com facilidade e parece ter uma disponibilidade afetiva que o protagonista não sabe muito bem administrar. A conversa entre os dois abre uma espécie de respiro dentro da viagem, com comentários sobre cinema, cultura pop e afinidades improváveis. Zoey surge como alguém de fora daquele drama familiar, e por isso se torna uma companhia menos ameaçadora do que os parentes à espera em Cleveland.

Quando Renn chega, a tensão com Leigh aparece sem rodeios. A irmã ficou mais próxima do processo de perda, acompanhou a doença da mãe e agora precisa lidar com detalhes do funeral, além da volta tardia do irmão. Brittany Snow dá a Leigh uma firmeza compreensível. Ela não precisa gritar para parecer magoada. Basta olhar para Renn com a fadiga de quem já ouviu piadas demais no momento errado.

Darren Wheeland, pai de Renn, tenta ocupar um lugar de equilíbrio, mas também parece perdido diante dos filhos. Matt Walsh interpreta Darren com um desconforto quase cotidiano, de homem que gostaria de dizer algo bonito e útil, mas encontra apenas frases insuficientes. Rick Barona, padrasto vivido por David Arquette, acrescenta outra camada ao embaraço familiar. Ele também amava Lily, também sofre a perda e também precisa disputar espaço numa casa onde o luto vem acompanhado de mágoas antigas.

Renn, por sua vez, reage quase sempre com humor seco e comentários defensivos. A graça, quando aparece, nasce do descompasso. Ele tenta aliviar a própria dor com tiradas ácidas, mas ninguém ali parece com muita vontade de rir. O efeito é propositalmente incômodo. Suas frases revelam mais fragilidade do que esperteza, e o filme usa esse comportamento para mostrar um homem incapaz de pedir desculpas sem antes tentar parecer acima da situação.

A relação de Renn com Lily ganha forma por meio de lembranças. Elisabeth Shue interpreta a mãe como uma presença afetuosa, livre e complicada. Lily não surge apenas como lembrança idealizada. Ela é carismática, mas também imprevisível. Para Renn, essa mistura deixou marcas difíceis de organizar. Ele a amava, mas também carregava ressentimentos que a morte não apagou por educação.

Essas lembranças ajudam a explicar por que o protagonista evita falar com honestidade sobre o que sente. A doença da mãe expôs a distância entre os dois, e o funeral transforma essa distância em fato público dentro da família. Leigh sabe. Darren sabe. Rick sabe. Renn sabe mais do que todos, embora finja não saber. O filme ganha força quando deixa essa culpa circular pela casa sem transformar cada conversa em acerto de contas.

Robert Schwartzman aposta em uma comédia dramática de tom íntimo, concentrada em diálogos, silêncios e encontros desconfortáveis. A montagem alterna o presente do funeral com passagens da vida de Lily, criando um retrato fragmentado dessa mãe que cada personagem guarda de maneira diferente. Quando a lembrança entra, ela não apenas explica Renn. Ela muda o peso de sua presença na sala, porque cada memória confirma uma ferida que ele tentou deixar em Los Angeles.

Zoey oferece a Renn um tipo de escuta que a família, naquele momento, não consegue oferecer. Ela não viveu a doença de Lily, não acompanhou as ausências dele e não carrega a mesma lista de cobranças. Por isso, Renn consegue falar com ela com menos defesa, embora nem sempre diga aquilo que realmente importa. Alexandra Shipp dá à personagem uma leveza bem-vinda, mesmo quando o roteiro a aproxima demais da função de apoio emocional.

A relação entre Renn e Zoey acrescenta movimento à história, pois tira o protagonista da casa e permite que ele respire fora do funeral. Ainda assim, o melhor do filme está menos nessa possível conexão romântica e mais no contraste entre os dois mundos. Com Zoey, Renn pode parecer interessante. Com Leigh, Darren e Rick, ele precisa responder pelo que fez, pelo que não fez e pelo tempo que perdeu longe da mãe.

Nick Jonas sustenta Renn com uma apatia estudada, às vezes eficiente, às vezes limitada. O personagem pede uma mistura difícil de frieza, culpa e charme cansado. Em seus melhores momentos, Jonas deixa ver um homem que usa sarcasmo porque qualquer frase sincera parece perigosa demais. Em outros, a atuação fica contida a ponto de esvaziar certas cenas. O filme, então, depende dos coadjuvantes para devolver temperatura à história.

“A Boa Metade” fala de luto sem transformar a dor em espetáculo. Seu assunto principal é simples, mas nada pequeno. Uma mãe morreu, um filho voltou tarde demais e uma família precisa atravessar uma despedida sem fingir que tudo estava resolvido. O roteiro de Brett Ryland acerta quando permite que a culpa apareça em gestos comuns, numa conversa atravessada, numa resposta seca, numa lembrança que chega sem pedir licença.

O filme enfraquece quando insiste em certos atalhos sentimentais ou quando faz Zoey parecer boa demais para existir fora de uma comédia independente. Ainda assim, há verdade no desconforto de Renn diante da própria família. Ele não sabe ser filho naquele momento, não sabe ser irmão, não sabe ser adulto com elegância. Convenhamos, pouca gente sabe. A diferença é que ele tenta resolver isso com piadas, e a vida, grosseira como sempre, pede algo um pouco mais trabalhoso.

No caminho até o funeral, Renn precisa aceitar que comparecer não é o mesmo que estar presente. Cleveland deixa de ser apenas a cidade natal e vira o lugar onde sua omissão ganhou testemunhas. Entre a irmã ferida, o pai sem palavras, o padrasto deslocado e a lembrança insistente da mãe, “A Boa Metade” encontra seu melhor ponto ao tratar a despedida como uma tarefa familiar imperfeita. Renn volta para enterrar Lily, mas descobre que a primeira coisa a fazer é permanecer na sala.

[Fonte Original]

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