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domingo, junho 21, 2026

Na Netflix, a ficção científica com 2 indicações ao Oscar que transforma IA em dilema moral

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Num futuro que se acostumou a tratar a inteligência como ameaça, o gesto mais revolucionário talvez seja reconhecer alguma forma de inocência justamente onde se esperava encontrar o inimigo. “Resistência” parte dessa inversão simples e poderosa para construir uma ficção científica de guerra que olha menos para o brilho das máquinas do que para o pânico dos homens diante de tudo aquilo que escapa ao seu controle. Gareth Edwards, diretor que já demonstrara em “Monstros” e “Rogue One” uma inclinação por criaturas colossais vistas de baixo, pela escala humana esmagada por sistemas, exércitos e mitologias, volta aqui a um cenário em que a tecnologia assombra não porque seja fria, mas porque talvez tenha aprendido depressa demais a reproduzir nossas melhores e piores qualidades.

Joshua, o ex-agente vivido por John David Washington, é um homem quebrado antes mesmo que a missão comece. A guerra entre humanos e inteligências artificiais não lhe tirou apenas uma função ou uma crença política; tirou-lhe a possibilidade de uma vida doméstica, amorosa, ordinária, essa felicidade sem fotografia heroica que o cinema de ficção científica costuma sacrificar em nome do espetáculo. Recrutado para localizar e eliminar o Criador, figura quase messiânica acusada de desenvolver uma arma capaz de encerrar o conflito e aniquilar a humanidade, Joshua atravessa territórios ocupados pela IA como quem volta a uma ferida mal cicatrizada. O roteiro de Edwards e Chris Weitz lhe reserva, então, a descoberta que muda a temperatura moral do filme: a arma não é uma torre, um míssil, um algoritmo abstrato, mas Alphie, uma criança artificial, silenciosa e vulnerável, dotada de um poder que todos querem possuir ou destruir antes de compreender.

Essa escolha sustenta o melhor de “Resistência”. Edwards sabe filmar ruínas, bases militares, vilarejos asiáticos futuristas e máquinas de guerra como se tudo já pertencesse a um passado que ainda não aconteceu. Há beleza na poeira levantada pelos robôs, na luz baixa que atravessa templos e campos de arroz, na mistura de alta tecnologia e precariedade cotidiana, como se a guerra do futuro não fosse tão diferente das guerras antigas, apenas mais limpa em sua propaganda e mais devastadora em seus efeitos. O filme ganha força quando abandona a pressa explicativa e deixa Joshua e Alphie dividirem o quadro: ele, armado de ressentimento e culpa; ela, programada ou nascida para uma pureza que desarma o cinismo alheio. Madeleine Yuna Voyles, na pele da menina, tem uma presença que não se apoia em gracinhas infantis. Seus olhos parecem sempre saber menos e mais do que deveriam, e é daí que nasce boa parte da comoção do longa.

John David Washington, por sua vez, compõe Joshua com uma secura que às vezes favorece o personagem e às vezes o limita. Sua contenção combina com esse soldado que já perdeu demais para se permitir grandes arroubos, mas há momentos em que o filme pede um abalo interior mais visível, alguma rachadura menos disciplinada na couraça do protagonista. Ainda assim, sua relação com Alphie cresce de modo convincente, sem transformar de imediato a criança em mascote emocional ou o guerreiro em pai substituto domesticado pelo afeto. Gemma Chan, como Maya, surge como lembrança, ausência e chave afetiva de Joshua, e sua presença dá ao conflito uma dimensão mais íntima, embora o roteiro a trate com certa solenidade, como se a personagem precisasse carregar sozinha todo o peso espiritual da história. Ken Watanabe, com a gravidade habitual, empresta dignidade a Harun, um dos rostos mais interessantes desse mundo em que as inteligências artificiais parecem menos monstruosas que os homens encarregados de caçá-las.

O problema de “Resistência” não está na ambição, mas na maneira como o filme por vezes tenta condensar numa única jornada discussões enormes sobre colonialismo, luto, fé, terrorismo, paternidade, militarismo e consciência artificial. Há ideias demais competindo por espaço, e algumas delas passam como naves ao fundo, belas, ruidosas, mas um tanto distantes. Edwards filma com um sentido plástico raro no blockbuster contemporâneo, sobretudo num momento em que tanta ficção científica parece montada dentro de uma vitrine digital sem atmosfera; contudo, nem sempre o drama acompanha a sofisticação visual. A guerra entre humanos e IA, que poderia abrir uma investigação mais incômoda sobre a arrogância da espécie, às vezes se acomoda em oposições fáceis, com militares ocidentais reduzidos a uma brutalidade quase automática e máquinas investidas de uma humanidade que o filme já decidiu defender antes mesmo de testá-la até o limite.

Ainda assim, seria injusto diminuir “Resistência” por não resolver todos os dilemas que convoca. Sua virtude está em devolver à ficção científica de grande escala alguma sensação de descoberta, alguma sujeira, algum espanto. A ação tem clareza, os cenários respiram, os efeitos visuais não esmagam os personagens, e a figura de Alphie impede que o filme se transforme apenas numa sucessão de ataques, fugas e explosões. No fundo, Gareth Edwards parece menos interessado em perguntar se as máquinas podem se tornar humanas do que em mostrar como os humanos, diante do medo, tornam-se máquinas com assustadora facilidade. Nesse sentido, “Resistência” é irregular, por vezes simplificador, mas guarda uma tristeza bonita: a de perceber que, no futuro imaginado pelo cinema, talvez a última criança capaz de nos ensinar piedade nem sequer tenha nascido de uma mulher.

[Fonte Original]

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