18.4 C
Brasília
domingo, junho 21, 2026

Crítica | Aqueles Prestes a Morrer: 1ª Temporada – Plano Crítico

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

Lançada em 2024, Aqueles Prestes a Morrer surgiu como uma aposta colossal no cenário do streaming, apresentando 10 episódios com duração média de 50 minutos e um orçamento imponente de aproximadamente US$ 140 milhões. Sob a direção compartilhada de Roland Emmerich e Marco Kreuzpaintner, a produção dá vida aos roteiros elaborados por uma equipe diversificada, composta por nomes como Robert Rodat, Charles Holland e Marissa Lestrade. O título da obra é uma referência direta à icônica saudação latina dedicada ao soberano durante os espetáculos de sangue: “Ave Caesar, morituri te salutant” (Ave César, os que estão prestes a morrer te saúdam). Situada durante o reinado de Vespasiano, a trama mergulha nas entranhas do Império Romano, focando na monumental construção do Coliseu e nas complexas intrigas dinásticas que envolvem a ascensão e manutenção da família Flávia no poder. O material de divulgação, o seu grande atrativo, é de tirar o fôlego, assim como o envolvente primeiro episódio, mas, ao longo de seu desenvolvimento, a série comete um emaranhado de erros que a impedem de ser uma obra-prima épica contemporânea para ser apenas regular ou, talvez, relativamente boa, um daqueles conteúdos de entretenimento que desperdiça o geral.

A narrativa, que adapta o livro homônimo de Daniel P. Mannix, explora o submundo dos jogos romanos ao entrelaçar a vida de cocheiros, gladiadores e políticos em um mosaico de ambição e sobrevivência. Embora a premissa seja um tema recorrente e consolidado na ficção histórica televisiva, a série consegue despertar o interesse inicial pela sua escala visual e pela crueza de seu mote central. No entanto, o potencial da obra acaba diluído por uma estrutura excessivamente ramificada; a tentativa de sustentar um número muito elevado de personagens e subtramas simultâneas prejudica a fluidez do enredo. O que começa como uma imersão fascinante na política do pão e circo enfrenta dificuldades para manter o foco narrativo, resultando em uma experiência que, apesar de grandiosa em termos de produção, perde fôlego ao tentar abraçar todas as facetas da sociedade romana de uma só vez.

Sabemos que não é o suficiente, mas no que diz respeito aos seus requisitos estéticos, a série apresenta um vigor visual deslumbrante que justifica o investimento de sua produção. A direção de fotografia, assinada por Vittorio Omodei Zorini e Daniel Gottschalk, utiliza enquadramentos e movimentações virtuosos que elevam a escala épica da narrativa. Esse trabalho é complementado pela supervisão de efeitos visuais de Stephen Elson, que demonstra maestria ao equilibrar efeitos práticos com o uso de CGI. Essa sinergia é particularmente evidente na reconstituição minuciosa do Coliseu e na recriação de espécies selvagens exóticas que protagonizam os combates na arena. Somado a isso, o design de produção de Laura Pozzaglio e Johannes Muecke revela-se impecável na edificação dos espaços urbanos e palacianos, enquanto os figurinos de Giovanni Casalnuovo adotam uma abordagem criativa que, embora se permita liberdades estilísticas, mantém uma cuidadosa consonância com o contexto histórico romano. O episódio da batalha naval, por exemplo, é demasiadamente empolgante nestes aspectos, numa abordagem visual rica daquilo que conhecemos mais por leituras.

Por outro lado, essa excelência técnica contrasta com a oscilação qualitativa de outros elementos fundamentais. A abertura da série, composta por Marco Abbruzzese, é um ponto positivo isolado que, infelizmente, não encontra eco no desenvolvimento dramático da obra, muitas vezes efusivo e prejudicado por uma profusão de pequenas histórias que se confundem no ritmo da montagem. De maneira semelhante, a trilha sonora de Andrea Farri cumpre seu papel funcional, mas revela-se pouco memorável para uma produção de dimensões tão colossais, falhando em envolver o espectador com a força emocional esperada de um épico. Em contrapartida, o trabalho de maquiagem de Carmen Mendías é fundamental para tom visceral de Aqueles Prestes a Morrer, potencializando as passagens sangrentas e o realismo dos corpos que sucumbem às dinâmicas de traição e luta pelo poder, reforçando visualmente os temas centrais de sobrevivência que sustentam a trama. Para quem admira Gladiador ou Spartacus, a série é um material que podemos adotar como um “mata saudade”, caso não desejemos, por ora, rever tais clássicos.

Seguindo a cartilha das produções épicas de escala grandiloquente concentradas em poucos episódios, Aqueles Prestes a Morrer situa sua narrativa no ano de 79 d.C., sob a liderança de um Vespasiano envelhecido e com a saúde visivelmente debilitada. Interpretado por Anthony Hopkins, o imperador tenta gerenciar a construção do Coliseu, um presente estratégico para o povo, enquanto lida com a rivalidade de seus dois filhos, figuras de personalidades antagônicas que conspiram abertamente pela sucessão do trono. Paralelamente a esse núcleo palaciano, a trama se ramifica pela periferia de Roma, onde o ambicioso criminoso Tenax (Iwan Rheon) busca ascensão social ao formar uma equipe de corridas no Circo Máximo com o apoio do renomado cocheiro Scorpus (Dimitri Leonidas). Cruzando esses caminhos está Cala (Sarah Martins), uma mãe determinada que chega à capital com a missão desesperada de resgatar suas filhas da escravidão, e salvar seu filho do destino cruel como gladiador nas arenas. Embora essas premissas carreguem um forte apelo emocional e político, como já mencionado, o grande problema é o desenvolvimento que em um emaranhado de subtramas que, ao se desdobrarem em outras, acabam perdendo a profundidade em favor do espetáculo visual.

Assim, Aqueles Prestes a Morrer mergulha em uma narrativa onde a corrupção sistêmica e o entretenimento violento servem como engrenagens de uma política de distração em massa, traçando paralelos perturbadores com as dinâmicas da sociedade contemporânea. Ao explorar o conceito de Pão e Circo, a trama revela como o Imperador Vespasiano utiliza o magnetismo das corridas de bigas e a brutalidade dos gladiadores para apaziguar e controlar uma população volátil, mimetizando a forma como o esporte de massa e a onipresença das redes sociais operam hoje como anestésicos para crises políticas e sociais. Essa “Sociedade do Espetáculo”, termo reforçado pela visão do diretor Roland Emmerich, transpõe o Circo Máximo para os nossos palcos digitais, onde o voyeurismo moderno e a sede por conteúdos de impacto espelham a antiga busca pelo sangue na arena. No centro dessa engrenagem, a figura de Tenax personifica a comercialização extrema da diversão, revelando um submundo de apostas e corrupção empresarial onde a integridade é sacrificada em nome do lucro; uma crítica direta à atual indústria das apostas esportivas e à transformação do entretenimento em um negócio puramente predatório, onde a alienação do público é o produto mais valioso.

Ademais, a produção é uma obra que utiliza a desigualdade social e a corrupção como pilares para expor o abismo entre as elites e o proletariado romano, utilizando uma semiótica visual onde o luxo cromático dos poderosos contrasta com a miséria monocromática dos despossuídos, evidenciando que o espetáculo é construído sobre o sofrimento alheio e financiado pelo “blood money”. Esse cenário de injustiça é o terreno fértil para a demagogia de figuras como Domiciano, que manipula a massa através de um populismo cruel e mentiras patológicas, estabelecendo um espelhamento direto com líderes contemporâneos que utilizam a desinformação para consolidar o poder. Ao capitalizar sobre a chamada “Síndrome da Roma Antiga”, a produção conecta o fascínio atual pelo declínio imperial com a ansiedade moderna acerca da erosão das democracias ocidentais, sugerindo que o ciclo de corrupção, entretenimento vazio e cinismo político não é apenas um registro histórico, mas um alerta sobre o declínio civilizatório que ressoa profundamente na nossa própria realidade política e social.

Em linhas gerais, uma série cheia de boas intenções, mas que falha pelos motivos que já delineei anteriormente. Talvez, se mais temporadas forem desenvolvidas para continuidade das tramas enlaçadas, possa voltar aqui para redirecionar as análises do primeiro ano.

Aqueles Prestes a Morrer (Those About to Die/Estados Unidos/Itália – 2024)
Criação: Robert Rodat
Direção: Roland Emmerich, Marco Kreuzpaintner
Roteiro: Robert Rodat, Charles Holland, Marissa Lestrade (baseada no livro homônimo de Daniel P. Mannix)
Elenco: Anthony Hopkins, Iwan Rheon, Sara Martins, Tom Hughes, Jojo Macari, Moe Hashim, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Rupert Penry-Jones, Gabriella Pesion, Dimitri Leonida, Emilio Sakraya, David Wurawa, Pepe Barroso, Gonçalo Almeida, Eneko Sagardoy, Lara Wolf, Romana Maggiora Vergano, Angeliqa Devi
Duração: 55 min (cada um dos 10 episódios)



[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img