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quarta-feira, junho 10, 2026

Cenário muda e se torna desfavorável ao Brasil

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O cenário para a economia brasileira mudou rapidamente para o lado negativo. Os recursos externos intensificaram a saída das aplicações em ações, com fuga de R$ 15 bilhões em maio, embora o saldo ainda seja positivo em R$ 39,76 bilhões até 8 de junho. O choque do petróleo, commodity da qual o Brasil é exportador líquido, estimulou não só o grande aporte de capital externo, como valorizou o real e contribuiu para reduzir a inflação. Esse movimento se reverteu, especialmente pela mudança de expectativas sobre o comportamento da economia americana, de sua política monetária e da proximidade, ainda incerta, de um fim negociado do conflito entre EUA e Israel contra o Irã.

O grande diferencial de juros domésticos em relação aos dos Estados Unidos contribuiu para a atração de capital externo para renda fixa e ações no Brasil, enquanto o dólar exibia tendência de baixa internacional. O renovado vigor da economia americana, porém, voltou a fortalecer o dólar, e enfraquecer o real, o que retirou um dos principais fatores de queda da inflação brasileira. Ainda que o governo esteja amenizando com subsídios parte dos efeitos do choque do petróleo nos preços internos, a mudança de rota da moeda americana traz dificuldades adicionais, com o retorno de um ciclo perverso: commodities em alta com a moeda de conversão (dólar) caminhando na mesma direção.

O ciclo de afrouxamento monetário brasileiro, diante de pressões adicionais nos preços, é agora considerado natimorto pelos investidores. Embora a enorme taxa de juros real (9%) seja mortal para os negócios e os investimentos, com peso substancial sobre os resultados das empresas, seu diferencial em relação aos juros americanos tende a cair, diante da perspectiva de mudança de atitude do Federal Reserve. O choque do petróleo levou a inflação ao consumidor nos EUA a 3,8% em abril e elevou o núcleo do índice de gastos pessoais do consumo a 3%, em alta, ambos bem acima da meta de 2%.

Não é apenas o choque externo ou o impulso inflacionário passivo vindo da guerra contra o Irã que ensombrece as perspectivas para o Brasil. A economia americana continua em boa forma, como mostrou a surpreendente criação de postos de trabalho em maio, de 172 mil vagas, o dobro do previsto pelos analistas. O desempenho não é um ponto tão fora da curva, já que grande parte dos empregos criados o foi no setor de alojamento e turismo, às vésperas de uma Copa do Mundo na qual as cidades americanas são as maiores hóspedes dos jogos.

De qualquer forma, a boa performance da criação de vagas retirou do cenário o fantasma da derrocada do mercado de trabalho, o principal motivo para que o Fed iniciasse o ciclo de afrouxamento, a despeito de os índices de preços se situarem bem acima da meta.

Os investidores não esperam mais um par de corte dos juros nos EUA em 2026, mas, ao contrário, um aumento da taxa até o fim do ano. Mesmo que não se saiba quando o choque do petróleo acabará, há outros fatores em jogo.

Os investimentos em inteligência artificial (IA) sustentam o crescimento de muitos setores relacionados à tecnologia, garantindo o crescimento, mas pressionando a inflação. Os preços também tendem a subir diante da nova investida tarifária do presidente Donald Trump e dos efeitos estimulantes dos cortes de impostos que vigoram desde o início do ano. Um estudo do Fed de Boston estima que alta de preços do petróleo, dos serviços correlatos à IA e seus investimentos acabará elevando o índice de gastos pessoais do consumo (PCE) em 1 ponto percentual até o fim do ano (Chris Giles, FT). Se a previsão estiver correta, a inflação ultrapassará 4%, sepultando a possibilidade de o Fed reduzir os juros e talvez obrigando-o a subí-los.

Se o cenário externo começa a se mostrar desfavorável ao Brasil, fatores domésticos colaboram para a mudança de perspectiva. Com estímulos fiscais e parafiscais oficiais que chegam perto de 2% do PIB, a economia brasileira mantém um ritmo incompatível com a queda de preços almejada pelo Banco Central e pela sua política monetária exacerbada. A trajetória ascendente da dívida pública bruta acrescenta incertezas que se refletem em um prêmio maior sobre os juros futuros, que deixaram de apontar qualquer redução em relação ao nível atual (14,5%).

A confluência dos cenários externos e interno desfavoráveis indica que a inflação subirá mais, empurrada ainda pela possibilidade de um El Niño vigoroso. Eleições sem favoritos claros, em ambiente polarizado, contribuem para a cautela dos investidores externos, da mesma forma que retaliações protecionistas dos EUA contra o Brasil, que poderá ser punido com as maiores tarifas de ingresso no maior mercado mundial.

Na tentativa de se reeleger para um quarto mandato, o presidente Lula não tem poupado o uso do dinheiro público, bem escasso há muito tempo. Não há como endividamento, juros e inflação entrarem em trajetória declinante sem esforço de austeridade e superávits primários consistentes, sem truques, nas contas públicas. O atual governo nunca cogitou isso, mas deveria pelo menos se resguardar de ampliar o rombo das contas públicas, que pode se tornar sua própria herança maldita, caso Lula seja reeleito.

[Fonte Original]

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