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quarta-feira, junho 17, 2026

Com guerra próxima do fim, Irã tem de enfrentar demandas de uma população irritada e ressentida

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Os governantes teocráticos do Irã sobreviveram a uma campanha militar dos Estados Unidos, mas seus verdadeiros problemas podem estar apenas começando: administrar as demandas conflitantes entre os linha-dura, fortalecidos por terem resistido à ofensiva, e uma população empobrecida e revoltada.

Os poderosos linha-dura do Irã saem revigorados de um confronto de três meses que consideram ter sido vencido pelo país. Eles querem que a liderança adote uma postura firme nas próximas negociações com os EUA e priorize o rearmamento, confiantes de que conseguem conter qualquer dissidência interna pela força.

Os iranianos comuns, porém, estão desesperados para que qualquer dividendo da paz ou alívio financeiro seja usado para elevar o padrão de vida e oferecer perspectivas melhores após uma guerra destrutiva, que se seguiu a anos de sanções dolorosas.

Os dois grupos têm expectativas elevadas, demandas conflitantes e pouca paciência. Ao fundo, paira o espectro de novos protestos em massa, semelhantes aos distúrbios que as autoridades reprimiram em janeiro, matando milhares de manifestantes.

“No momento em que a guerra terminar, e considerando que esse acordo provisório é frágil, os verdadeiros problemas para o establishment clerical iraniano vão começar”, disse Hamidreza Azizi, pesquisador visitante do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim.

Quatro autoridades iranianas e um ex-integrante do governo descreveram à Reuters as pressões que agora recaem sobre a República Islâmica, à medida que a população deixa de se concentrar na guerra para avaliar as ruínas de sua economia.

Três dessas autoridades disseram que há uma expectativa pública de que qualquer alívio financeiro obtido pelo governo, seja por meio da suspensão de sanções ou da recuperação de ativos, seja usado para impulsionar a economia e melhorar a vida das pessoas.

Uma delas, uma alta autoridade que descreveu os iranianos como “cansados da guerra e das dificuldades econômicas”, afirmou que os recursos provavelmente serão direcionados à reconstrução, à injeção de liquidez nos bancos e a um apoio econômico mais amplo.

As quatro autoridades reconheceram explicitamente, ou fizeram alusão, ao risco de novos protestos caso o governo não consiga melhorar o padrão de vida. Uma delas descreveu o acordo para encerrar a guerra como “uma faca de dois gumes”, diante do aumento das expectativas da população.

O ex-integrante do governo, ligado ao campo reformista, disse que os riscos são plenamente compreendidos nos níveis mais altos da liderança iraniana e que essa foi uma das razões pelas quais Teerã aceitou o acordo para reabrir o Estreito de Ormuz.

O memorando para encerrar a guerra, que Irã e Estados Unidos devem assinar oficialmente na sexta-feira, deverá incluir algum alívio financeiro para o Irã, com mais medidas previstas caso as partes consigam concluir um acordo mais amplo até o fim do verão no Hemisfério Norte.

A economia iraniana enfrenta inflação muito elevada, desvalorização da moeda, desemprego disseminado e, desde o início da guerra, enormes danos à indústria e à infraestrutura, cuja reparação será extremamente cara.

“Do ponto de vista doméstico, o Irã agora tem uma janela limitada para retomar o controle das condições internas. Os Estados Unidos sempre deram atenção aos acontecimentos internos no Irã e continuam fazendo isso”, disse Saeed Laylaz, economista e analista político iraniano.

Obter um alívio mais duradouro das sanções — permitindo que empresas iranianas recuperem o acesso aos mercados e ao sistema financeiro globais — exigiria um acordo mais amplo com os Estados Unidos sobre o programa nuclear de Teerã, algo que ainda parece distante.

Uma mulher caminha ao lado de uma faixa com a foto do falecido Líder Supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, em uma rua de Teerã , Irã, em 7 de junho de 2026 — Foto: Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS

Linha-dura busca recompensa por sua postura durante a guerra

Ao longo da guerra, as autoridades iranianas contiveram a dissidência por meio de advertências severas, punições draconianas e mobilizando apoiadores para as ruas em uma série quase ininterrupta de manifestações e outros eventos em apoio ao sistema.

Após anos pressionando o establishment a adotar uma postura mais dura contra o Ocidente e a demonstrar o poder iraniano por meio de ações como o fechamento do Estreito de Ormuz, os linha-dura se sentem reivindicados e esperam ser recompensados por seus esforços.

O campo linha-dura reúne várias facções, incluindo a Guarda Revolucionária. Mas, enquanto a Guarda está agora disposta a aceitar um acordo para ajudar a República Islâmica a sobreviver, a chamada Frente Paydari não está.

A frente inclui parlamentares influentes, políticos veteranos e figuras de destaque na mídia, e consegue mobilizar um amplo apoio entre as pessoas que lotaram as ruas desde o início da guerra.

Embora não tenham força suficiente para reverter a política de Estado, podem criar dificuldades para o establishment governante.

Muitos deles estão decepcionados com o fato de o Irã aceitar negociar com os Estados Unidos agora, em vez de esperar condições melhores, especialmente após a morte do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia do conflito.

“Estão fechando um acordo com o inimigo que martirizou nosso líder, mesmo depois de termos vencido a guerra. Então o que aconteceu com a vingança pelo sangue do imã Khamenei? Que tipo de governo islâmico é esse? E agora, na sexta-feira, querem apertar a mão dos assassinos do imã”, disse Hossein, integrante da milícia voluntária Basij, ligada à Guarda Revolucionária. Ele usou um título reverencial para se referir ao falecido líder do Irã e pediu para que seu sobrenome não fosse divulgado.

Uma das quatro autoridades ouvidas pela Reuters, embora tenha reconhecido a necessidade de enfrentar as dificuldades da população, afirmou que a guerra mostrou que as capacidades militares do Irã são a principal prioridade. A reconstrução do poderio militar iraniano “continuará em ritmo acelerado”, disse a autoridade.

Se o acordo provisório resultar em uma rápida injeção de recursos na economia, o governo poderá adiar, por enquanto, um acerto de contas com a população, afirmou Azizi.

“O desafio mais imediato para a liderança é convencer sua própria base de apoio linha-dura de que este é, de fato, um bom acordo. Isso porque, ao longo da guerra e durante o cessar-fogo, eles dependeram fortemente dessa minoria radical”, acrescentou.

Para complicar ainda mais a situação, a última grande onda de protestos, entre 2022 e 2023, resultou em um recuo de fato na questão dos códigos de vestimenta femininos. Desde as manifestações em massa provocadas pela morte sob custódia de Mahsa Amini, as mulheres passaram a poder circular sem os véus obrigatórios em público, uma fonte constante de irritação para os linha-dura.

Durante o conflito, a Guarda Revolucionária tornou-se ainda mais poderosa, ajudando a impulsionar seu candidato preferido, Mojtaba Khamenei, para suceder o pai morto como líder supremo. Khamenei ainda não apareceu em público e a Guarda permanece em posição dominante, segundo analistas.

Ela pode estar tão disposta a reprimir linha-dura ideológicos que rejeitem um acordo que ajudou a negociar quanto manifestantes que desafiem o sistema islâmico, afirmou Alex Vatanka, pesquisador sênior do Middle East Institute, em Washington.

“Acho que eles vão agir contra qualquer um que desafie o consenso, porque o controle interno agora, após Ali Khamenei, é extremamente importante. Haverá liberdades sociais, como mulheres circulando sem hijab, mas não haverá tolerância com liberdades políticas”, disse.

[Fonte Original]

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