Morreu nesta segunda-feira, 29, em São Paulo, o presidente emérito da Federação das Indústris do Estado de São Paulo (Fiesp), Luis Eulalio de Bueno Vidigal Filho, aos 87 anos. Ele estava internado no Hospital Sírio Libanês para tratamento de doença real crônica.
A Fiesp emitiu nota de pesar assinada pelo presidente da entidade, Paulo Skaf. A nota diz que Vidigal filho foi “uma das lideranças mais determinadas e visionárias da história da indústria brasileira”.
Vidigal Filho era estudante de direito na Universidade de São Paulo, em 1959, quando começou a trabalhar no departamento jurídico da Companhia Brasileira de Material Ferroviário (Cobrasma), fundada por seu avô, Gastão Vidigal, em 1944. Pós-graduou-se em administração de empresas na Universidade de Illinois, Estados Unidos. Tornou-se, com o passar dos anos, o principal dirigente do grupo Cobrasma, um dos mais importantes da indústria brasileira, que teve seu auge na época dos grandes investimentos estatais e da substituição de importações.
Projetou-se entre as principais lideranças empresariais do país e ocupou espaços crescentes de representação em diversas entidades industriais. Foi vice-presidente do Sindicato da Indústria de Forjaria do Estado de São Paulo; vice-presidente e presidente do Sindicato da Indústria de Peças para Automóveis e Similares; representante do setor de autopeças no Grupo Executivo da Indústria Automotiva do Ministério da Indústria e Comércio; diretor adjunto da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo/Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp), onde foi também vice-presidente e, depois, presidente, de 1980 a 1986.
Sua posse, em 3 de outubro de 1980, resultava de uma campanha vencedora contra a candidatura de Theobaldo de Nigris, que disputava a quinta reeleição. Aos 41 anos, Vidigal foi eleito com uma mensagem de renovação do papel da Fiesp e das relações do empresariado com o governo, num contexto de defesa da plena democratização (pesquisa do Instituto Gallup, publicada no dia seguinte à posse de Vidigal, revelava que 63% dos brasileiros maiores de 18 anos queriam eleger seus governantes por meio de voto direto). Não era uma atitude de consenso, mas assinalava uma divisão crescente entre duas gerações de empresários, a dele pretendendo ter sua voz institucionalizada nos processos de discussão e decisão de políticas públicas, em contraposição a influências apenas tênues ou pontuais, se não de acomodação passiva a um modelo estatista e fechado que perdia fôlego. A crise econômica irresolvida — retração somada a inflação renitente – acrescentava estímulos à revisão de posições do empresariado.
No discurso de posse, Vidigal afirmou que, “se apoiarmos a abertura política e não nos preocuparmos em defender a economia de mercado, mantendo um esforço conjunto, planificado, sistemático e permanente em favor da livre empresa, teremos muito provavelmente, amanhã, em nosso país, uma luta de classes de consequências imprevisíveis”. Referiu-se à sua eleição como reflexo de uma realidade maior: “Transformamos uma luta, que sempre se processou intramuros, num processo político aberto, certos de que de alguma forma o país como um todo tinha muito a ver com o que se estava passando, pois o resultado da disputa poderia representar a consolidação do direito e do poder dos empresários influirem nos destinos da nação”. Falou da importância de se formular “um novo projeto de nação que chegou a ser delineado no governo de Juscelino Kubitschek”. Advertiu que “dessa crise que vivemos ou sairemos como uma nação fortalecida ou legaremos aos nossos filhos uma carga explosiva de problemas agravados e irresolvidos”. O empresariado, em papel que, deixou subentendido, supostamente caberia à Fiesp desempenhar, queria ter voz ativa na formulação daquele “projeto político, econômico e social” [que] “não deverá ser atribuição exclusiva do governo ou da classe política”. [Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1980, pág. 15]
Vidigal vinha de experiências próprias de interlocução com o governo. Um ano antes de assumir a presidência da Fiesp, foi indicado por Mario Henrique Simonsen, então ministro do Planejamento do governo de João Batista Figueiredo, para integrar o Conselho Monetário Nacional (CMN), e lá permaneceu até 1986, quando terminou seu segundo mandato na Fiesp. Recorda sua conversa com Simonsen: “Eu disse: ‘Mario, não sei se sou ilibado ou não. Mas notório saber econômico, definitivamente não tenho’. Ele respondeu: ‘E daí? Você acha que os outros têm?’” [Depoimento para o livro “Mario Henrique Simonsen – Um Homem e Seu Tempo”, 2002]
Seu relacionamento com o ministro vinha da época em que era representante da indústria de autopeças na CNI, no princípio dos anos 1970, quando defendia medidas de proteção para as empresas brasileiras, em contraposição ao que pensava e propunha Simonsen, então assessor da diretoria da entidade. Foi um debate difícil: “Cheguei para o nosso pessoal [do Sindicato da Indústria de Autopeças, do qual era vice-presidente] e disse: ‘Gente, não dá! Ou vocês arranjam alguém melhor do que eu, ou não dá. Esse camarada sabe tudo! Tudo que eu digo ele prova o contrário!’ (…) No fundo, eu não estava só lutando contra uma pessoa extremamente inteligente, como estava lutando contra o óbvio. Mas na época eu achava que o óbvio era ter proteção”. [No mesmo depoimento]
Disse também: “Acompanhei de perto a saida do Mario Henrique do governo. (…) São Paulo festejou a saida dele. Não o Delfim, mas Severo Gomes, Dilson Funaro, aquela Fiesp que eu derrotei no ano seguinte. Esses é que festejaram. Faziam campanha contra o Mario Henrique. Era o nacionalismo, o protecionismo. Enxergavam nele um risco para a economia nacional, quando ele não representava risco algum, definitivamente.”
Em meados dos anos 80, que constituiriam a chamada “década perdida”, Vidigal lançou ações da Cobrasma na Bolsa, buscando aumentar o capital, a maior operação do gênero até então conhecida no Brasil. Mas projeções de lucro, divulgadas para informação de possíveis investidores, não se confirmaram. A Comissão de Valores Mobiliários abriu inquérito. A Delegacia de Crimes Fazendários da Polícia Federal concluiu que o lançamento lesara milhares de investidores e indiciou os diretores da Cobrasma. O episódio terminou com o arquivamento judicial do processo.
Em março de 1991, Vidigal encaminhou à Justiça pedido de concordata preventiva do grupo Cobrasma, com suas fábricas de caldeiras, equipamento ferroviário e tubos galvanizados. Na petição, responsabilizou o governo federal pela situação de insolvência, que teria se tornado inevitável como decorrência da recessão econômica, da mudança de regras no pagamento de empresas públicas, dos vários planos de estabilização e da suspensão dos contratos com algumas empresas estatais. Em mais de uma ocasião, porém, admitiu que, como outros tantos empresários, também errou, ao orientar sua estratégia de negócios por estímulos dos tempos do “Brasil Grande”, sobretudo em termos de facilidades de crédito.