23.4 C
Brasília
segunda-feira, junho 22, 2026

O empresário que levou a descontração de botequins cariocas à terra da Disney

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

Marcelo Riveiro, 56 anos, escolheu Orlando para abrir o primeiro Boteco do Maneco fora da zona de shoppings certers do subúrbio carioca, onde a marca nasceu e se expandiu nos últimos anos. Hoje, o restaurante que reproduz a estética dos botequins do Rio em solo abarrotado de brasileiros turistando nos parques da Disney fatura mais do que todos os outros onze que constam no Brasil. Só nos Estados Unidos são sete Manolos, sendo quatro franquias com planos de expansão em vigor pelo estado da Flórida. Ao lado da mulher, Cintia Rocio Marques, ele surfa na boa onda dos negócios. Marcelo comenta o que pesa na hora de decidir pelo mercado americano em detrimento do brasileiro: “os encargos trabalhistas e os impostos aqui são muito menores”, diz. Confira a seguir a entrevista completa.

Boteco do Manolo, em Tampa, Flórida – (./Divulgação)

Como trazer a cultura dos botequins cariocas para a realidade americana? Não nos adaptamos à cultura americana. Tanto que os pratos continuam sendo para compartilhar. O americano está acostumado ao prato individual. A lógica foi: isso aqui é o que a gente faz, não vamos mudar. Conseguimos entrar bem no mercado americano sem abrir mão dessa identidade. E vou te dizer. Em Orlando, 95% dos clientes são brasileiros. Mas em Tampa já é 50 a 50. Em Miami, também. O turista é saudosista da comida e do tempero brasileiro. Escuta o cara entrar e falar: ‘Graças a Deus, alguém fala português’. Ou: “Ufa, arroz e feijão’. O brasileiro sente falta do feijão (risos).

O feijão vem do Brasil? Não, há muitos fornecedores latinos e mexicanos. Agora, o arroz já é diferente. O arroz precisa vir do Brasil porque aqui não existe igual ao nosso. Com catupiry é a mesma coisa. Não tem substituto. Catupiry é brasileiro, e pronto. O sabor não tem nada a ver com qualquer outra coisa que tentam colocar no lugar.

Sua rede de franquias começou em áreas do subúrbio carioca. Como foi esse começo? Meu pai faleceu em 1999. A diretoria do shopping Nova América que frequentava o Adegão, restaurante dele, em São Paulo, pediu que eu abrisse um Adegão lá no subúrbio do Rio. Aí apresentei outra ideia em 2003, o nome foi em homenagem ao meu pai, Manolo.

Por que o conceito de bares dentro de shoppings no Brasil? Por conta da segurança no Brasil. aqui é na rua, não precisa disso. E quando o Manolo chegou em Orlando, fomos os primeiros com formato estruturado de restaurante a la carte, com proposta completa. Antes, havia a lógica de buffet, acabamos sendo pioneiros, entre aspas, nesse modelo.

Continua após a publicidade

Qual é o valor mínimo para se investir numa franquia sua? Pensando em números, investimento de 1 milhão para retornar cerca de 500 mil dólares por ano. Dividindo por 12, dá algo próximo de 40 mil dólares mensais, considerando um bom ponto comercial.

Qual é a maior diferença que sentiu de empreender nos EUA? O retorno aqui é mais rápido. Tem muito menos encargos, não tem passivo trabalhista. Se mandar toda a sua equipe embora lá, teria que entregar a casa junto, não conseguiria arcar com os custos. Energia é mais barata, gás é mais barato, tudo é mais barato. Vou te dar um exemplo: aqui, com ar-condicionado ligado em tempo integral, funcionando o mês inteiro, a conta de energia fica em torno de 5 mil dólares. E estamos falando de quatro máquinas de ar-condicionado, cozinha, exaustor, água quente, lavanderia, tudo ligado o tempo todo. Se você deixa uma máquina de ar ligada no Brasil, vai pagar mais que isso. Lá, muitas vezes, a gente precisava desligar porque, no fim do mês, a conta ficava pesada demais.

O que pensa sobre o fim da escala 6×1 no Brasil? Particularmente, não tenho conclusão fechada, porque os encargos são altos. Esse é o problema. Quando aumenta o número de funcionários, aumentam também os encargos ligados a cada posição. Por isso o sistema de banco de horas é uma das melhores soluções. Se o movimento está fraco, você libera o funcionário para ir para casa. Agora, quando o profissional recebe fixo por mês, não há o que fazer.

A ausência de vínculo entre funcionário e empregado não distancia as relações? No Brasil, se eu trabalho com você há um ano e peço demissão, perco fundo de garantia e outros direitos. O funcionário pensa duas vezes. Mesmo insatisfeito, muitas vezes ele continua e vai empurrando com a barriga. Mesmo desmotivado, porque não consegue enxergar outra saída imediata. Aqui não. Se alguém oferecer um centavo a mais, a pessoa vai embora. Muitas vezes nem avisa, simplesmente sai. Ao mesmo tempo, se ele não trabalhar bem, também sabe que pode ser dispensado a qualquer momento. Essa via é de mão dupla.

Continua após a publicidade

O que é preciso para quem quer se arriscar no empreendedorismo? Barriga no balcão, não tem jeito. O dono precisa estar presente, vivendo o negócio de verdade. Quando você olha para quem veio para cá e não deu certo, percebe isso com clareza. Fiquei dois anos cobrindo folga de chefe de cozinha, manhã e noite. Ficava na expedição dos pratos, olhando qualidade, vendo tudo sair certo, controlando o padrão. Era o maestro da cozinha, quem comanda a saída dos pratos. Tem que dar a cara a tapa à frente do negócio. Tem que acompanhar, viver a operação, entender o que acontece.

Brasileiro costuma dizer que tem “complexo de vira-lata” ao se autossabotar nos negócios mais ousados. Concorda? Quando você vê uma marca como o Manolo, totalmente brasileira, dando certo aqui, quebra esse pensamento. Isso mostra que sabemos fazer, que temos produto, conceito e experiência para levar a qualquer lugar. É possível empreender fora, mesmo com outras leis, outros desafios e outro tipo de mercado.

(Agora a coluna GENTE também está no Instagram. Siga o perfil @veja.gente)

Qual é o seu diferencial num mercado tão diversificado como o dos EUA? Quando vim morar aqui, percebi que não havia nada parecido com o Manolo. Todo mundo falava isso. E até hoje, em lugares onde abrimos, continua assim. Você encontra o all you can eat, o rodízio, o buffet, ou restaurantes mais rápidos e informais. Mas essa proposta de sentar, pegar um menu, escolher com calma o que quer comer, ficar no tira-gosto, sentar no bar, viver experiência mais brasileira, não existia.

Continua após a publicidade

Sentiu o baque com as tarifas para importações de Trump? Se teve algo que nos afetou mais foi dezembro, um impacto de cerca de 10%, principalmente por causa do turismo interno, muita gente ficou com medo de viajar por causa da imigração. Isso afetou bastante o brasileiro que mora aqui e que não tem documentação regularizada. O brasileiro sem documento parou de circular.

Como tem sido isso no dia a dia? O brasileiro que mora, por exemplo, em Boston e não está regularizado, fica com receio de viajar para a Flórida. Mesmo conseguindo tirar um ID em alguns estados, teme ser parado pela polícia. Antes era mais restrito; agora, a abordagem pode acontecer com mais facilidade, o que gera insegurança real. Então muita gente prefere não sair de onde está.

Há clima de insegurança? Há incerteza muito forte, principalmente naquele início mais intenso do governo Trump, quando houve vários casos de fiscalização agressiva. Isso gerou efeito em cadeia, porque a pessoa que já estava em situação irregular ficava com medo até de sair para trabalhar. Se ela não sai para trabalhar, também deixa de consumir. É uma bola de neve. Havia operações em condomínios, bairros residenciais, locais onde as pessoas iam fazer faxina, jardinagem, construção. Era uma verdadeira caça. No fim, afeta a própria economia, porque muita gente deixa de circular, de consumir e de manter o mercado girando.

Como estão se estruturando para receber a torcida brasileira durante a Copa? O movimento tende a ser ainda maior. Só que tem um ponto: muita gente vem para ver o jogo e fica no refrigerante. Então a gente precisou estabelecer consumação mínima. Vamos decorar a loja, fazer itens comemorativos. O uniforme dos funcionários também vai mudar, com tema do Brasil. Manolo vai estar todo em verde e amarelo.

Continua após a publicidade

E onde quer chegar com o Manolo? Europa, esse é o próximo passo. Portugal. Nosso público primário ainda é o brasileiro, faz muito sentido começar por lá.

(Agora a coluna GENTE também está no Instagram. Siga o perfil @veja.gente)

Pessoas sentadas em mesas de madeira em um restaurante movimentado, com iluminação quente e decoração moderna. Homens e mulheres conversam, alguns com bebidas, em um ambiente social animado.
Boteco do Manolo, em Tampa, Flórida – (./Divulgação)



[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img