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terça-feira, junho 9, 2026

Ano com El Niño, guerra e tarifas

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O fechamento do mercado da União Europeia para a carne brasileira é um golpe a mais no setor agropecuário e na economia do país, em um ano cheio de complicações. No fim de junho ou de julho, a exportação de carne para os chineses completará a cota, e as vendas terão que ser suspensas. As novas ameaças tarifárias dos Estados Unidos sobre o Brasil já estão postas. A guerra com o Irã se transformou em um choque de oferta de energia. As sombras do El Niño forte rondam o país e assustam o agronegócio.

Conversei com o professor José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), para saber se a ameaça climática é mesmo forte. Ele disse que o El Niño já se formou no Oceano Pacífico. A intensidade dos efeitos no clima, contudo, ainda não está certa. Tudo indica que será forte.

— O El Niño já está por aí fazendo travessuras. O fenômeno mesmo está configurado. Ele é o aquecimento das águas do Oceano Pacífico. Em março, o Climate Prediction Center dos Estados Unidos dava uma probabilidade de 40% a 50% de ocorrência de El Niño. Agora está em 90%. A dúvida é se ele será moderado, forte ou muito forte— diz o cientista.

O fenômeno produz chuvas intensas no Sul, como aquelas de 2023 e 2024 em Porto Alegre, muito calor no Centro-Oeste e secas na Amazônia. Neste inverno, poderemos ter ondas de calor e, na primavera, chuvas fortes no Sul. Além dos riscos à vida, provocados por enchentes, secas e calor excessivo, haverá impactos econômicos.

— O verão do próximo ano pode ser o mais perigoso para todos. Na agricultura pode acontecer, por exemplo, de a temperatura estar muito alta em outubro para o plantio da soja. Há produtores querendo antecipar o plantio. Existem riscos de muitas queimadas na Amazônia e no Pantanal. O Centro-Oeste terá temperaturas altas e ambiente seco. Em São Paulo, no Vale do Paraíba, também tem risco de queimadas. É uma cadeia de reações que afeta tudo, água, alimentação e fogo.

O ano tem outros problemas. A partir de 3 de setembro, o Brasil não exporta mais carne para a União Europeia devido à suspeita de que continua usando antimicrobianos como estratégia de engorda do boi. Por ano, o país vende US$ 2 bilhões em carne para o bloco. Até o fim deste mês ou, no mais tardar, no fim de julho, o Brasil vai completar a cota de venda para a China. Como os exportadores correram para aproveitar a tarifa reduzida, terão de interromper as vendas até o fim do ano.

Existe um lado bom da má notícia? Sobrará mais carne para vender no mercado interno derrubando o preço? Dois economistas que ouvimos aqui sobre o tema dizem que talvez sim, mas o efeito será pequeno. André Braz, da FGV, fala que o preço cai um pouco, mas o efeito não é automático, até porque o varejo repassa as quedas em velocidade menor do que as altas. Admite que as duas barreiras podem reduzir o preço do boi gordo e chegar ao varejo. Sérgio Vale, da MB Associados, acredita que o efeito será marginal e não será suficiente para reverter as consequências do El Niño.

A crise no Oriente Médio continua jogando toneladas de incerteza no cenário econômico. Olha o que diz Carlos Frederico de Souza Coelho, professor da PUC-Rio e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

— O conflito com o Irã traz algo que há muito não se via: um choque de oferta de escala sistêmica. Cerca de 20% a 25% do petróleo mundial, 15% dos grãos, 25% dos fertilizantes e 35% dos químicos e plásticos,em geral, transitam pelo Estreito de Ormuz. Quando está fechado ou funcionando parcialmente, cobra um preço significativo para a economia global.

Ele lembra que a guerra da Ucrânia está entrando no quinto ano. E agora há as tensões no Irã produzindo mais imprevisibilidade.

— O maior risco é um confronto de baixa intensidade prolongado. O petróleo fica praticamente num platô. Para o Brasil, o quadro é ambíguo, pois é exportador líquido de energia, mas o benefício é superficial e assimétrico. O petróleo mais caro funciona como um imposto invisível sobre o consumo interno pressionando a inflação e por consequência a taxa de juros. O Brasil é um país que lucra com a crise alheia, mas não consegue escapar dela, ao mesmo tempo.

O país vive este ano eleitoral, naturalmente tenso, diante de um cenário econômico tumultuado.

(Com Ana Carolina Diniz e Luciana Casemiro)

[Fonte Original]

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