As vendas de bebidas no varejo, em aplicativos de entrega e nos bares cresceram em junho, em um movimento puxado pelos dias de jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo, segundo empresas do setor. No iFood, o volume financeiro de bebidas cresceu a cada partida do Brasil, com alta de 99% no primeiro jogo, 127% no segundo e 193% no terceiro, contra a Escócia.
Para a diretora de crescimento e eficiência comercial da consultoria em varejo AGR, Jamile Poinho, o torneio funcionou como catalisador temporário de tendências já existentes no consumo, especialmente ligadas à compra em cima da hora, mas não deve ser lido como movimento estrutural. “A Copa é um catalisador temporário de tendência, mas não é um evento sozinho que vai desenhar a curva de consumo da categoria”, afirmou.
Segundo a executiva, a intensidade do movimento variou conforme o horário dos jogos, o desempenho da seleção e o dia da semana em que as partidas ocorreram.
No iFood, o pico de pedidos ocorreu cerca de uma hora antes do início das partidas, e as buscas por destilados aumentaram 1.400% durante os jogos. No Rappi, o braço Turbo registrou aumento de 220% na demanda por bebidas em comparação a um dia normal, após a partida de 29 de junho — o diretor do Rappi Turbo no Brasil, Rodolfo Montanha, afirmou que o serviço passou a ser usado como ferramenta de reposição durante as transmissões.
A 99, por meio da operação 99Compras, informou crescimento superior a 60% na categoria de bebidas na Grande São Paulo e em Goiânia, com alta superior a quatro vezes em refrigerantes e alcoólicos em relação a períodos regulares.
O movimento também foi observado em lojas de proximidade e minimercados autônomos. O Market4u, rede com cerca de 2.700 unidades no Brasil, disse que as vendas de bebidas alcoólicas passaram de 6,5 mil para mais de 28 mil unidades na segunda-feira (29), dia em que o Brasil venceu o Japão por 2 a 1 — alta de 330%.
“Houve uma alteração no perfil dos produtos mais vendidos nos dias de jogos, com refrigerante de 1,5 litro superando a cerveja em lata de 350 ml, o que indica maior consumo compartilhado”, disse o presidente da empresa, Eduardo Córdova.
Na rede catarinense Minha Quitandinha, que opera 870 unidades por meio de franquias, as vendas de bebidas alcoólicas cresceram 400% no primeiro jogo do mata-mata. Já a rede Oxxo informou aumento de 60% nas vendas digitais em relação ao ano anterior, com alta de 90% na cerveja e de 86% nos destilados no canal online.
No varejo supermercadista, o impacto também foi registrado. Segundo o Carrefour, houve crescimento de 10% a 12% nas vendas de cervejas, refrigerantes e energéticos nos dias de jogos da seleção — um avanço, segundo o diretor executivo da rede, Marco Alcolezi, que ocorre em período no qual normalmente há maior participação de bebidas associadas ao inverno. “O serviço de bebidas geladas da rede operou com volume duas vezes acima da projeção nos horários de pico das partidas”, disse o executivo.
No Grupo Pão de Açúcar, as vendas de bebidas cresceram 20% nos dias de jogos, com destaque para destilados (alta de 47%) e cervejas premium (alta de 30%). “Os dias de jogo têm funcionado como um gatilho de consumo, elevando o nível de vendas acima do padrão”, contou Paulo Sergio Mariano, gerente comercial de líquida da companhia.
Um levantamento da Scanntech, plataforma de inteligência de dados, mostra que, no primeiro jogo da seleção, as vendas de cerveja cresceram 18% no país, enquanto de licores avançaram 57,9% e gelo, 31,5%. No segundo jogo, as vendas de gelo aumentaram 88,3%, segundo a mesma base.
O comportamento também se refletiu no setor de bares e restaurantes. De acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), 83% dos empresários esperavam aumento de faturamento durante o período da Copa, e 52% dos estabelecimentos investiram na transmissão dos jogos como forma de atrair público.
Segundo o Itaú Unibanco, as vendas em bares cresceram 38,6% no dia do quarto jogo da seleção, na comparação anual, com um padrão de consumo concentrado após o apito final. Segundo o levantamento, os pagamentos no segmento atingiram o pico logo depois do encerramento da partida, reforçando o efeito dos jogos sobre o consumo em estabelecimentos que concentram venda de bebidas durante as transmissões.
A receita do microssetor de bares, discotecas e casas noturnas cresceu 34,1% no dia da partida entre Brasil e Escócia, disputada no fim da tarde de uma quarta-feira, e 37,2% no e-commerce, segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA). A marca de coquetel alcoólico de doce de leite Don Cream registrou crescimento de 19,3% no volume no segundo trimestre, com cerca de 80 mil doses vendidas em junho em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Distrito Federal.
Enquanto o consumo interno disparava nos dias de jogo, a produção nacional de bebidas permaneceu direcionada principalmente ao abastecimento do mercado doméstico. Dados da Logcomex mostram que as exportações brasileiras de bebidas para os países-sede da Copa somaram US$ 1,01 milhão no primeiro semestre — um volume pouco expressivo perto do salto de vendas registrado internamente.
O levantamento aponta ainda uma mudança de perfil entre as duas últimas edições do torneio. Para o Catar, sede do Mundial de 2022, o Brasil embarcou US$ 126.293 em bebidas, dos quais US$ 98.599 — ou 78% do total — em cerveja de malte. Já para o bloco formado por Estados Unidos, México e Canadá, sedes da Copa de 2026, as exportações somam US$ 1.010.660, oito vezes mais que o registrado para o país-sede de 2022.
O crescimento, porém, é puxado por categorias não-alcoólicas. As exportações de “outras bebidas não-alcoólicas” saltaram de zero para US$ 495.177, e as de águas adicionadas ou aromatizadas passaram de US$ 27.694 para US$ 382.918. Juntas, as duas linhas respondem por 87% do avanço total, enquanto a cerveja de malte, embora também tenha crescido (para US$ 132.557), perdeu participação relativa, caindo de 78% para 13% do total exportado.