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terça-feira, julho 7, 2026

Desaceleração pode abrir fresta a novo corte da Selic

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Depois de um crescimento robusto no primeiro trimestre do ano, a economia perdeu fôlego de abril a junho e pode desacelerar pelo resto do ano. As previsões de analistas públicos e privados indicam que o desaquecimento não deve ser vigoroso e o PIB pode crescer perto de 2%, não muito longe dos 2,3% do ano passado. O mercado de trabalho dá os primeiros sinais de fraqueza, e, o que é relevante caso a tendência persista, o avanço do salário médio real diminuiu, para 4% no trimestre encerrado em maio em comparação com o mesmo período de 2025. As dúvidas do Banco Central em relação à pressão dos salários sobre os preços podem se dissipar no curto prazo, embora a grande quantidade de estímulos oficiais do governo para manter a economia em expansão tenda a nublar o cenário.

O desemprego, segundo a Pnad Contínua do IBGE, caiu mais um pouco no trimestre findo em maio, para 5,6%, diante de 5,8% do trimestre anterior. Mas há uma perda de ritmo da criação de vagas nos setores cíclicos e uma primeira redução do rendimento médio habitual real recebido de todos os trabalhos, que caiu R$ 36 no período, uma diminuição de 0,8% ou de 0,6% dessazonalizada. A massa de rendimentos ainda cresceu 4,8% em um ano pelo avanço do emprego, mas foi menor que a do trimestre anterior em 0,3%.

Os dados desse início de menos vigor no mercado de trabalho foram corroborados pela criação de 72.960 empregos formais em maio, segundo o Caged, o menor número para o mês desde a pandemia. O salário médio de admissão começou a cair (0,75% de redução em relação a abril). Em relação a maio de 2025, houve aumento de 1,5%. A perda de ímpeto dos salários é mais intensa no setor de serviços, o que é especialmente importante porque ele tem sido a maior fonte de pressão inflacionária no IPCA, com preços evoluindo 6% em 12 meses terminados em junho. Dentro do grupo de serviços, o recuo do salário de admissão foi mais forte, de 2,22% em outros serviços e 1,88% em transporte, armazenagem e correio, mas ele se estende a todos os subgrupos, com exceção de alojamento e alimentação.

O volume de serviços apresentou estabilidade em maio, com avanço de 0,1%, mas seu ritmo de crescimento vem se reduzindo desde fevereiro. Ainda assim, encontra-se perto do recorde da série histórica e 17,5% acima do nível da pandemia. No entanto, esse bom desempenho pode estar prestes a sofrer inflexão. O índice de gerentes de compras da S&P mostra que os negócios cresceram em junho, porém com “a primeira onda de demissões em cinco meses, uma diminuição na confiança nos negócios e pressões inflacionárias mais intensas”. O início de demissões quebra uma sequência de quatro meses de criação de empregos. A pressão de custos tem sido mais alta e repassada nos serviços ao consumidor, o que, levando-se em conta a redução dos salários em geral em relação à inflação, indica menor consumo à frente.

O varejo não foi bem em abril (último dado disponível), com queda de 1,5% sobre março. A média móvel trimestral do índice do varejo do IBGE indicou crescimento zero no mês, depois do 0,7% de março. Houve recuos significativos em vários segmentos, como os de combustíveis (-6,26%), artigos de uso pessoal e doméstico (-4,6%) e equipamentos para escritórios e informática (-4,5%). Uma das poucas exceções foi o comportamento de hipermercados e supermercados, com alta de 1,3%.

O comportamento da indústria não é favorável ao emprego. Teve recuo de 0,2% em maio em relação a abril e mal cresce em 12 meses (0,4%). Indicando desaceleração da economia à frente, bens de capital seguiram o índice (-0,2%) no mês, mas têm queda acumulada de 6,2% no ano e de 4,8% em 12 meses. Em maio, a indústria criou apenas 4.974 vagas; a maior parte dos novos postos de trabalho ficou ainda a cargo de serviços (45.655) e construção (12.096).

A população em idade ativa fora da força de trabalho cresceu 1,6%, fazendo com que a taxa de participação (porcentagem das pessoas em idade de trabalhar empregadas ou ativamente buscando emprego) no fim do trimestre atingisse 62,1%, abaixo do fim do trimestre findo em fevereiro (62,3%) e razoavelmente abaixo dos 63,2% da média dos dois anos anteriores à pandemia. Isso significa que se a taxa de participação fosse a mesma de então, a taxa de desemprego seria bem maior hoje, de 7,3%.

A desaceleração da economia compatível com a enorme taxa de juros vigente tem sido refreada pelos estímulos oficiais, fiscais e parafiscais. Isto faz com que os efeitos esperados da política monetária contracionista apareçam em câmera lenta, mais fracos, ou não apareçam. Os primeiros sinais de um enfraquecimento no mercado de trabalho podem, nestas circunstâncias, revelar-se como “falso positivo” do esfriamento das atividades. Mas, ao lado de um IPCA de maio menor que o esperado, a queda dos preços dos combustíveis e a perda de ímpeto dos salários podem abrir uma fresta para mais uma redução dos juros na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária.

[Fonte Original]

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