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sexta-feira, julho 3, 2026

Diretor administrativo da Agiliza Marmoraria, Diohn do Prado explica como o quartzito levou as rochas brasileiras ao recorde de exportação

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Poucos setores da economia brasileira atravessaram o tarifaço americano com o desempenho das rochas ornamentais. As exportações do segmento somaram US$ 1,26 bilhão em 2024 e bateram recorde histórico em 2025, com US$ 1,48 bilhão, segundo dados do setor. Até julho do ano passado, a receita crescia 22,9%, puxada justamente pelos Estados Unidos, o maior comprador. O motor dessa resistência tem nome: quartzito. As chapas e blocos de quartzito maciço já respondem por quase metade do faturamento exportado, de acordo com a Abirochas, e o material ficou de fora das tarifas americanas que atingiram mármores, granitos e ardósias. A isenção tem uma razão de mercado: o Brasil é praticamente o único fornecedor mundial da pedra.

Na outra ponta da cadeia, quem transforma a rocha em produto acompanha o fenômeno de perto. Diohn do Prado, diretor administrativo da Agiliza Marmoraria, no Paraná, viu a pedra sair do anonimato para virar pedido com nome próprio. “O mundo descobriu uma pedra que a gente conhece há muito tempo. Hoje o cliente chega pedindo quartzito pelo nome. Cinco anos atrás, isso não acontecia”, conta. A trajetória do material condensa uma história maior: a de como um setor formado por milhares de micro e pequenas empresas virou potência exportadora, e o dilema que essa potência ainda não resolveu.

A pedra que o mercado de luxo elegeu

O que é o quartzito e por que ele vale tanto? Trata-se de uma rocha natural de altíssima dureza, mais resistente que o mármore e com padrões estéticos que o mercado de arquitetura associa ao topo do luxo. A combinação de beleza e desempenho fez do material a escolha preferida de projetos de alto padrão nos Estados Unidos, e a demanda se espalhou. No Oriente Médio, o uso de quartzitos brasileiros em empreendimentos de luxo cresceu quase 200%, segundo entidades do setor, que assinaram em 2025 um memorando para criar um polo de distribuição nos Emirados Árabes.

A geologia deu ao Brasil uma vantagem que a economia raramente oferece: quase exclusividade global de um produto desejado. As jazidas de quartzito maciço se concentram no território brasileiro, e a extração e o beneficiamento exigem técnica e equipamento que o país dominou. Foi essa posição que sustentou a isenção do material no tarifaço americano, articulada por entidades brasileiras junto a parceiros nos Estados Unidos. Com mármores e granitos taxados, parte do fluxo de negócios migrou para o quartzito, o que elevou o tíquete médio das exportações mesmo sem grande aumento de volume.

O recorde, porém, carrega um alerta que a própria Abirochas vem fazendo. O volume exportado de blocos brutos de quartzito cresce mais rápido que o de produtos processados, e o preço médio dos blocos caiu quase 10% no período recente. É o padrão clássico da comoditização: quando o país vende matéria bruta em escala, o preço cai e o valor da transformação é capturado fora. A entidade avisa que apenas os produtos acabados escapam dessa armadilha e preservam a diversidade da carteira brasileira no exterior.

O raciocínio é familiar para quem vive da transformação da pedra. “O bloco sai da pedreira valendo um preço. Serrado em chapa, vale outro. Instalado como bancada, vale outro completamente diferente. O valor está na transformação, e é essa parte que o Brasil ainda exporta pouco”, avalia Diohn do Prado. A comparação com outras cadeias exportadoras é inevitável. Assim como o café e o couro, a rocha brasileira corre o risco de enriquecer mais quem a processa lá fora do que quem a extrai aqui. O Espírito Santo, responsável por 78,5% das exportações do setor, já percorreu parte dessa travessia ao migrar dos blocos para as chapas polidas. O passo seguinte, o produto final, ainda é minoritário na pauta.

Uma cadeia de pequenos negócios com alcance global

A estrutura do setor ajuda a explicar o tamanho do desafio. A cadeia produtiva das rochas ornamentais é formada por milhares de empresas, na esmagadora maioria micro e pequenas, e as marmorarias representam mais da metade delas. São negócios locais, espalhados pelo país inteiro, que fazem a etapa final de transformação: o corte, o acabamento e a instalação da pedra na casa do consumidor. A força exportadora do setor convive, portanto, com uma base empresarial pulverizada, com pouco capital para dar o salto industrial que a agregação de valor exige.

Ao mesmo tempo, é essa capilaridade que sustenta o mercado interno, um dos maiores consumidores de rochas do mundo. A moda do quartzito no exterior repercute no balcão doméstico, onde o material disputa espaço com o mármore, o granito e as pedras industrializadas. Para as marmorarias, o desafio é duplo: acompanhar a valorização de uma matéria-prima cada vez mais disputada pelo mercado externo e explicar ao consumidor local um leque de pedras que ficou mais sofisticado. É o movimento que Diohn Prado observa no showroom: a pedra que vira tendência em Miami chega, meses depois, ao interior do Brasil.

O teste da próxima década

O setor de rochas ornamentais chega ao seu recorde com os dois caminhos abertos. Pode consolidar-se como fornecedor de commodity mineral de luxo, vendendo blocos de uma pedra exclusiva enquanto a exclusividade durar. Ou pode usar a janela atual de preços e demanda para subir na cadeia de valor, exportando produto processado e capturando internamente uma fatia maior de cada tonelada extraída. A escolha não é retórica: jazida é recurso finito, e a vantagem geológica de hoje não garante a de amanhã.

A experiência de outros setores sugere que a segunda rota exige coordenação entre governo, entidades e uma base empresarial que precisa de crédito e tecnologia para industrializar. O que o quartzito já provou é que o Brasil consegue criar, do zero, um mercado global bilionário a partir de um recurso natural bem trabalhado. A pergunta que o recorde deixa é se o país vai repetir com a pedra o roteiro das commodities que exporta brutas, ou se desta vez a transformação e o valor que ela carrega ficarão por aqui.

[Fonte Original]

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