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terça-feira, julho 21, 2026

Guerra no Irã marca ponto de inflexão no setor de energia

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A retomada da guerra entre EUA e Irã voltou a bloquear o estreito de Ormuz, num momento em que o mundo esperava uma normalização do tráfego marítimo na região. Com isso, as cotações do petróleo e de outras commodities subiram novamente. A chance exígua de uma paz duradoura apenas reforça que depender de combustíveis fósseis exportados por um punhado de fornecedores de uma região conturbada constitui uma vulnerabilidade estratégica. Para reduzi-la, vários países estão revendo suas políticas energéticas. Os sinais nesse sentido já são evidentes. A guerra marca um ponto de inflexão no mercado de energia, que não voltará a ser o mesmo.

Essa insegurança energética não deverá se dissipar tão cedo. Desta vez, o presidente Donald Trump avisou formalmente ao Congresso americano sobre a retomada da guerra. O conflito se intensificou no fim de semana com ataques retaliatórios mútuos, que resultaram na morte de três soldados americanos em bases na Jordânia e no norte do Iraque e com Teerã voltando a atacar os países vizinhos. Essa nova escalada militar entre EUA e Irã acontece antes mesmo de as negociações abordarem a causa do conflito, isto é, o programa nuclear iraniano, sobre o qual as divergências entre os dois lados parecem difíceis, senão impossíveis, de serem conciliadas.

Um evidente efeito duradouro do conflito é que o livre trânsito em Ormuz ficou no passado. O Irã já sinalizou sua intenção de cobrar um pedágio dos navios que atravessam o estreito. Até mesmo Trump chegou a afirmar que os EUA cobrariam um pedágio de 20% do valor da carga transportada pelo serviço de manter Ormuz aberto. Ele recuou, mas a ameaça de cobrança está no ar e poderia encarecer o transporte em bilhões de dólares por ano.

A guerra mostrou como a economia global é vulnerável à disrupção de pontos de estrangulamento na cadeia energética. Mesmo uma potência média, como o Irã, pode interromper o fluxo, usando ataques de baixa intensidade e armamentos relativamente baratos.

Para piorar o cenário, os houthis do Iêmen, aliados do Irã, anunciaram um bloqueio naval contra a Arábia Saudita no estreito de Bab-el-Mandeb, porta de entrada para o Mar Vermelho, o que pode reduzir a oferta global de petróleo em 7% ao impedir a saída da maior parte das exportações sauditas. Isso se somaria ao impacto de cerca de 10% da oferta mundial provocado pelo fechamento de Ormuz.

O golpe energético causado pelo conflito está compelindo governos, empresas e consumidores pelo mundo a adotar ou acelerar medidas para garantir o fornecimento adequado de combustíveis e energia. Isso implica atuar em três frentes: diversificar os fornecedores, aumentar a resiliência a choques externos e avançar na transição energética.

A dependência é hoje um risco muito grande e reforça a necessidade dos países importadores de diversificar os fornecedores de energia. Esse movimento tende a favorecer exportadores não tradicionais, como o Brasil e os EUA.

Aumentar a resiliência implica, principalmente, investir mais em produção local de energia e melhorar a infraestrutura de geração, armazenamento e distribuição. Isso, no curto prazo, deve elevar o uso do carvão, o combustível fóssil mais abundante, mas também o mais poluente, o que limita um aumento significativo da sua utilização.

Por fim, há o pilar da transição da matriz para energias renováveis ou nuclear, que são produzidas localmente e independem de fornecimento externo não confiável. As exportações chinesas de painéis solares para o Sudeste Asiático aumentaram 75% em abril.

Segundo o Morgan Stanley Research, somente a Ásia deverá investir US$ 5,5 trilhões em energia nos próximos cinco anos. Os investimentos em renováveis antes eram uma resposta às mudanças climáticas. Agora, trata-se de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. A guerra no Irã fez da transição energética uma necessidade. “Independência energética não é mais apenas uma aspiração. É o caminho mais barato para a estabilidade econômica”, afirmou a Fundação Rockefeller num relatório de abril.

A demanda global por petróleo deve diminuir neste ano, pela primeira vez desde o auge da epidemia de covid-19, em 2020. Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo mundial caiu 5,3 milhões de barris/dia em maio, para 97,9 milhões de b/d. Para o ano, a AIE prevê uma queda média de 1 milhão de b/d. A maior parte dessa redução se deve ao fechamento de Ormuz, mas a agência diz que a eletrificação do transporte, especialmente na China, também contribui. A guerra vai acelerar esse processo.

Trump, um entusiasta do petróleo, está, sem querer, dando a maior contribuição de um presidente americano à transição para as energias renováveis. Esse processo favorece a China, já que Pequim produz mais de 80% dos painéis solares, das turbinas eólicas e das baterias vendidas globalmente e lidera em veículos elétricos. Essa certamente não era a intenção do presidente americano quando ele decidiu atacar o Irã. Mas, como se costuma dizer, as consequências sempre vêm depois.

[Fonte Original]

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