Meias-palavras não foram convidadas neste ano para o Diálogo de Shangri-lá, conferência anual de defesa da região Ásia-Pacífico, que se desenrolou no fim de maio em Singapura. Talvez a melhor ilustração do clima belicoso que tomou conta do mundo tenha sido proferida pela vice-primeira-ministra e ministra da Defesa dos Países Baixos, Dilan Yesilgoz-Zegerius. “Ou você está no cardápio ou sentado à mesa. Se não aumentar seus gastos em defesa, você vai estar no cardápio”, disse a ministra.
Sua audiência era formada por lideranças políticas e militares de todo o mundo, reunidas pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), organização de pesquisa e consultoria em defesa sediada em Londres. Entre os peixes graúdos estavam o secretário da Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, e Shinjiro Koizumi, ministro da Defesa do Japão. Pela China, compareceram um ex-ministro de Relações Internacionais, Cui Tiankai, e o major-general Meng Xiangqing, da Universidade das Forças Armadas do país. A ausência de nomes do primeiro escalão atual, pelo segundo ano consecutivo, foi interpretada como uma manifestação de desprestígio do país que mais rapidamente se arma no mundo de hoje.
Hegseth, enquanto isso, aproveitou a ocasião para resumir com palavras duras a posição americana. O recado aos aliados contém não só o incentivo ao investimento bélico do resto do mundo, mas também o cerne das ameaças econômicas e comerciais que têm sido a marca distintiva do governo de Donald Trump. “Aliados nossos que se recusarem a colaborar e carregar seu próprio peso na nossa defesa coletiva serão confrontados com uma mudança clara no nosso jeito de fazer negócios”, declarou o secretário.
Talvez respondendo às admoestações americanas ou por algum outro motivo, promessas de canalizar dinheiro para as armas têm se acumulado ao redor do planeta. O maior exemplo vem da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que se comprometeu com o “novo padrão”, ou seja, o aumento do piso de despesas militares em seus países-membros de 2% para 5% até 2035.
Na Europa, especificamente, destaca-se o chanceler alemão Friedrich Merz, que assumiu o cargo no ano passado com a promessa de excluir as despesas militares e de infraestrutura (sobretudo militar) do rigoroso cálculo de equilíbrio fiscal alemão, conhecido como “zero negro” (schwarze Null); foram retirados, também, os limites a empréstimos com finalidade de defesa.
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O Japão, por sua vez, tem sido acusado pelos vizinhos chineses de abandonar sua tradição pacifista do pós-guerra, devido à expansão do orçamento militar, que já atingiu 2% do PIB e pode chegar a 3,5%, em linha com a Otan. O país asiático também comprou novos mísseis de longo alcance, retirou a limitação a exportações de armas letais e anunciou um foco estratégico no investimento na indústria de defesa.
Na contramão do que costuma se passar no mundo da alta política, desta vez os atos vêm precedendo as palavras: somados, os gastos militares crescem no mundo há 11 anos consecutivos, segundo dados do Instituto de Pesquisa Internacional sobre a Paz de Estocolmo (Sipri). Em 2025 foram US$ 2,89 trilhões, contra US$ 2,72 trilhões em 2024. O aumento de 2,9% é, contudo, inferior ao do ano interior, de 9,2%. Ainda assim, esse valor representa um acréscimo de mais de US$ 1 trilhão em relação a 2014. No último decênio, a expansão foi de 41%. Hoje, o mundo dedica 2,5% de seu PIB ao setor de defesa.
Em boa medida, esse crescimento acompanha o desempenho do PIB mundial, mas um fator que vem desequilibrando as contas é a expansão chinesa, ininterrupta há 31 anos. A segunda maior potência econômica do mundo detém, também, o segundo maior orçamento militar. Pequim tem o objetivo declarado de possuir forças armadas “de classe mundial” até 2049. Mais recentemente, a invasão da Ucrânia e também a chegada de Trump, com sua exigência de maior gasto dos parceiros, acelerou a tendência.
“A aceleração do aumento que vemos desde 2022 tende a se manter nos próximos anos, mesmo que as guerras cessem. O investimento militar é um corpo pesado que se coloca em movimento”, diz Diego Lopes da Silva, pesquisador do Sipri. “Tem uma inércia muito grande, porque envolve estratégia de longo prazo, compras públicas, conversão ou construção de fábricas, treinamento de pessoal e assim por diante.”
Sempre repetem que a indústria bélica gera empregos e traz tecnologia, mas isso depende de onde o dinheiro é gasto”
— Diego Lopes da Silva
Em que pesem os alertas sobre ameaças externas e a necessidade de virar suas economias na direção dos armamentos, não se pode dizer que a Otan, ou mesmo a Europa, dediquem poucos recursos a essa área. Em 2025, os países-membros da organização aliada dos EUA foram responsáveis por US$ 1,58 trilhão dos gastos e o Velho Continente, em particular, por US$ 864 bilhões. Enquanto isso, a Ásia e a Oceania, somadas, respondem por US$ 681 bilhões. A China, em seu esforço de competição de superpotências, entregou US$ 336 bilhões a seus militares.
Entre os países que tiveram expansão no ano passado está o Brasil, onde a despesa subiu 13%, chegando a US$ 23,9 bilhões, de acordo com os dados do Sipri. Segundo Silva, os principais motores desse crescimento foram os gastos com pessoal e investimentos relacionados ao programa de construção de submarinos em parceria com a França (Prosub), bem como a compra dos caças Gripen da Suécia.
O único dos grandes países a reduzir seu gasto militar no ano passado foi justamente o maior deles e o que mais gasta: os Estados Unidos, que passaram de US$ 997 bilhões a US$ 954 bilhões. A maior parte dessa redução, no entanto, se deve ao corte das transferências à Ucrânia, que somaram cerca de US$ 66,5 bilhões entre 2022 e 2024, de um total empenhado de US$ 127 bilhões. Ainda assim, entre 2016 e 2025, a expansão da despesa militar americana foi de 5,4%, passando de 3,1% para 3,5% do PIB.
Também merecem destaque os beligerantes do Leste Europeu: na Rússia, o peso da guerra corresponde a cerca de 7,5% do PIB, ou US$ 190 bilhões. A Ucrânia, país bem menor, vive um cenário quase de guerra total, com 40% de seu produto comprometido com a tentativa de manter as tropas de Putin longe de Kiev. São US$ 84,1 bilhões.
Uma corrida armamentista, como parece ser o que o mundo está encetando, costuma ser um sinal de que a conjuntura, em geral, está mais hostil. É o que parecem acreditar outros participantes do Diálogo de Shangri-lá, como o general Carsten Breuer, inspetor-geral do exército alemão, que afirmou: “Em meus 42 anos de carreira militar, nunca testemunhei tempos tão perigosos quanto os que o mundo atravessa hoje”.
Ou, em mais detalhes, nas palavras de Mohamed Khaled bin Nordin, ministro da Defesa da Malásia: “Sempre ouvimos que regras e compromissos contam, que normas internacionais valem igualmente para todas as nações, de qualquer tamanho e poder. Mas hoje os tratados, princípios humanitários e compromissos internacionais são ignorados e interpretados seletivamente, sempre que não se alinham com interesses geopolíticos”.
Outros elementos levam a crer que o planeta está entrando em uma era com mais conflitos armados. Um deles é a invasão russa da Ucrânia, em 2022 – e pode-se incluir o período desde 2014, com a tomada da Criméia e a guerra na região do Donbass. Outro é a escalada no Oriente Médio, que já não consiste mais em trocas de mísseis entre Israel e Irã, tendo se convertido na guerra que interrompeu o fluxo de navios no estreito de Ormuz, levou a oscilações selvagens do preço do petróleo e talvez tenha enfim se encerrado, ao menos provisoriamente, com um acordo entre Teerã e Washington.
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Expectativas de atritos na região do Ártico, à medida que o aquecimento global vai tornando as águas do extremo Norte navegáveis, se somam ao quadro. A região descongelante é cercada por Estados Unidos, Canadá e Rússia, além dos países escandinavos. Há também a projeção de outras crises ligadas ao clima, como o deslocamento de populações devido à perda de terra agricultável. A guerra civil na Síria, que durou de 2011 a 2024, tem um episódio desses entre suas causas.
Um foco de tensões que já dura décadas é a ilha de Taiwan, que Pequim aspira a reintegrar à China continental, por enquanto por meios principalmente diplomáticos. Estimar a probabilidade de uma invasão ao estilo clássico se tornou um exercício de predileção para analistas militares e geopolíticos.
Em 2023, William Burns, diretor da CIA, agência de inteligência dos EUA, declarou que a ordem do presidente Xi Jinping era preparar suas forças armadas para um ataque em 2027. Em março, a inteligência americana divulgou que não será esse o ano, e provavelmente nem o seguinte. Em maio, o Instituto de Pesquisa em Defesa e Segurança Nacional de Taiwan publicou uma pesquisa de opinião, segundo a qual 65% dos moradores da ilha duvidam que a invasão acontecerá nos próximos cinco anos.
A ascensão chinesa é vista como ameaça nos Estados Unidos, no Japão e em outros países atuantes no Pacífico não só por causa de Taiwan, mas por si própria, já que se trata de uma potência econômica e demográfica considerável, prestes a se traduzir em termos bélicos. A China já possui, por exemplo, ogivas nucleares desde 1964. Seus mísseis balísticos são capazes de atingir qualquer cidade nos EUA.
“O ritmo da modernização militar da China é notável. Pelos dados que temos, tudo indica que o prazo de 2049 será respeitado e até superado”, diz Rintaro Inoue, analista do Instituto de Geoeconomia, em Tóquio. E Inoue elenca os números: “O país já produz 120 aviões de caça de última geração, o que é mais do que os Estados Unidos e seus aliados da região, combinados. A construção de sua frota de submarinos nucleares é mais veloz do que a americana. Pequim também está desenvolvendo um porta-aviões nuclear e a força de mísseis balísticos convencionais mais formidável do mundo”.
Ao lado do aumento de tensões locais, e até mais frequentemente, a percepção de que o mundo do futuro próximo é mais instável e imprevisível aparece como explicação para a virada armamentista dos governos ao redor do planeta.
Não se trata só da paulatina corrosão de um sistema geopolítico unipolar, em que os Estados Unidos garantem a estabilidade das vias de comércio e abastecimento, substituída por uma nova bipolaridade envolvendo a China ou ainda uma multipolaridade que contaria com a Europa, a Rússia e o Sul Global. Há também a novidade da atuação individual do presidente Donald Trump, que explicitamente rejeita esse papel para seu país, exigindo que os aliados, particularmente europeus, se tornem responsáveis por sua própria defesa.
A interpretação mais imediata consiste em dizer que está acabado o “dividendo da paz”, expressão consagrada na década de 1990 para se referir ao benefício econômico advindo dos custos reduzidos com segurança, sobretudo após o fim da Guerra Fria. E esse dividendo se perdeu porque está nascendo um mundo multipolar, pondo fim àquilo que se costumava chamar de “pax americana” – noção segundo a qual a dominância dos Estados Unidos no mundo impedia a deflagração de guerras de maiores proporções.
“O argumento de que o mundo multipolar tem mais espaço para incerteza é forte, na medida em que cada país precisa inferir o comportamento de vários outros. Essa incerteza, que gera um medo aumentado, sustenta o rearmamento, que também aumenta o risco de percepções equivocadas: por que meu vizinho comprou uma arma nova?”, resume Silva.
Sobre o Brasil, o pesquisador chama atenção para a proposta de emenda constitucional 35, que institui um piso de 2% do PIB para gastos com defesa, em tramitação no Senado. O número é extraído do antigo piso da Otan, agora aumentado para 5%. “O argumento que sustenta a proposta trata justamente desse mundo mais incerto e menos seguro”, afirma Silva. Por outro lado, o pesquisador afirma ter dúvidas sobre a pertinência da proposta, que não considera as especificidades do Brasil, país em desenvolvimento distante das grandes zonas de conflito.
Mas também existem suspeitas de que o principal incentivo ao rearmamento está longe dos campos de batalha e mais próximo das estatísticas de desemprego e produção industrial. A suspeita está expressa com clareza no título de um artigo publicado em fevereiro pela revista britânica The Economist: “pode a Europa usar as armas para voltar ao crescimento?”.
No caso alemão, é mais do que uma suspeita. Em agosto do ano passado, a ministra da Economia do país, Katherina Reiche, afirmou em duas ocasiões o vínculo entre o rearmamento e as ambições econômicas. No início de agosto, em visita à fábrica de tanques KNDS, na cidade de Kassel, a ministra se referiu à indústria de defesa como “fator essencial” da recuperação do país. No mês seguinte, em Düsseldorf, onde participou de uma conferência organizada pelo jornal financeiro Handelsblatt, Reiche acrescentou que “o rearmamento é uma exigência da política de segurança, mas também é uma oportunidade econômica e tecnológica para a Alemanha”.
Esse é o cenário em que se deu a decisão do Parlamento alemão, em março, de permitir ao governo Merz abandonar o “freio da dívida” (Schuldenbremse) para incorrer em déficits em duas áreas: o investimento em infraestrutura e o militar. A Alemanha poderá investir € 500 bilhões em defesa nos próximos 12 anos, ao mesmo tempo que promoverá cortes em despesas sociais e com saúde em €38 bilhões até 2030.
Por esse prisma, a despesa militar seria uma espécie de subterfúgio para que Estados impedidos de realizar políticas fiscais propriamente ditas ou ampliar os gastos sociais aumentem os dispêndios, no esforço de estimular economias estagnadas e reverter processos de desindustrialização. Essa estratégia recebe o nome, usado em geral com tom de crítica, de “keynesianismo militar”.
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No entanto, as evidências de que gastos militares tragam embutido um multiplicador econômico significativo são parcas, alerta o economista J. Paul Dunne, da Universidade da Cidade do Cabo. Em 2011, Dunne realizou um amplo estudo sobre os dados disponíveis a respeito do vínculo entre despesas com defesa e desempenho econômico. O resultado foi nulo. No ano passado, o Fundo Monetário Internacional publicou um estudo que apresentou resultados semelhantes: no agregado, a variação do crescimento em momentos de gasto militar é irrelevante.
“Um problema da ideia de keynesianismo militar é que os gastos com defesa devem ser pensados e justificados pelo seu efeito na defesa, não na economia como um todo”, argumenta Dunne. “Só que se isso for feito com seriedade, é muito provável que os governos acabem concluindo que não é preciso gastar mais. Bastaria realocar os recursos. Por exemplo, os arsenais de tanques e blindados em que a Alemanha começou a investir são obsoletos na era dos drones.”
Alguns governos têm tentado vender à população a ideia das vantagens do gasto militar usando a expressão “dividendo de defesa”, que se refere ao “dividendo da paz”, mas com sinal trocado. Segundo Silva, desde o ano passado essa era uma estratégia do governo britânico de Keir Starmer, que anunciou sua renúncia no dia 22 de junho. “Eles sempre repetem que a indústria bélica gera empregos e traz tecnologia, mas isso depende de onde o dinheiro é gasto.”
No Japão, segundo Inoue, a ideia do gasto militar como estímulo econômico está ausente. Ainda assim, há uma ênfase em direcionar os investimentos para empresas do país, como a Mitsubishi, que atua em aviões, mísseis, navios e submarinos. “Mas essa política está motivada apenas pela necessidade de compensar parte dos enormes custos com defesa pelo incentivo a tecnologias de uso dual, que fortalecem tanto a segurança nacional quanto a competitividade econômica”, argumenta.
Também vem da Alemanha a principal evidência usada como prova de que os europeus enveredaram por esse tipo peculiar de keynesianismo. A Volkswagen, que vem enfrentando uma crise e o fechamento de unidades produtivas, estuda transformar sua fábrica parada na cidade de Osnabrück em um centro de abastecimento para as forças armadas. A direção da empresa espera poder reduzir sua previsão sombria de cortar 50 mil postos de trabalho no país até 2030.
“É como no caso exclusivo em que de fato o armamento como estímulo funciona: os Estados Unidos, onde destinar recursos às forças armadas é o único jeito de conseguir passar despesas no Congresso”, comenta Dunne, advertindo que se trata de um aparte sarcástico.
A referência à chegada dos drones no cenário bélico explicita reversão histórica no custo de fazer guerra no século XXI. Dunne não é o único analista que chama atenção para o abismo de preço entre, de um lado, os mísseis, aviões supersônicos e outros armamentos usados pelos exércitos mais poderosos do mundo e, de outro, as máquinas autônomas com as quais forças consideradas menores têm procurado responder.
Esse descompasso foi evidenciado pela primeira vez na frente de batalha da Ucrânia, onde o avanço das tropas russas foi interrompido por operadores de máquinas voadoras escondidos bem atrás das linhas de defesa. Depois vieram os drones aquáticos, que desabilitaram portos no Mar Negro e afundaram alguns navios, e terrestres, muito usados para minar estradas e recolher feridos. Com o passar dos anos, o alcance dos drones foi aumentando, o que conferiu aos ucranianos a capacidade de atingir não só aeronaves estacionadas na Sibéria, como também a crucial infraestrutura de exportação e refino de petróleo em solo russo – agora, até mesmo na capital Moscou.
No ataque ao Irã, a mesma experiência se repetiu, mas em escala ampliada. A destruição de infraestrutura militar do regime dos aiatolás e o assassinato preciso de algumas de suas principais lideranças – a começar pelo próprio aiatolá Ali Khamenei – não foi capaz de garantir a vitória aos americanos e israelenses. Em vez disso, o Irã pôde usar seus célebres drones Shahed para comprometer a economia do petróleo no Golfo Pérsico, ameaçar bases americanas na região e, principalmente, interromper a circulação naval no estreito de Ormuz, obrigando Donald Trump a encetar negociações, algo humilhante após as declarações sobre a destruição completa de uma civilização.
Em maio, uma vitória devastadora da Ucrânia lançou um alerta pela Europa. As tropas derrotadas não eram russas, mas pertenciam à Otan. Elas tinham ordens para defender o arquipélago sueco de Gotland, localizado no meio do mar Báltico, no exercício militar “Aurora 26”. O inimigo simulado era um país sem nome, disposto a atacar os suecos a partir do leste, e quem representou o papel foram os ucranianos. Rapidamente, os agressores foram capazes de anular o equipamento bélico dos defensores com o uso dos mesmos drones que hoje estão atazanando a máquina de guerra russa.
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Por todos esses motivos, outro incentivo ao “keynesianismo militar”, particularmente na Europa, envolve também uma tentativa de correr atrás do prejuízo em termos de desenvolvimento tecnológico, principalmente na área de inteligência artificial. Essa foi a mensagem que Reiche, a ministra alemã, deixou clara quando se referiu à oportunidade tecnológica para seu país.
Para Dunne, essa expectativa representa uma compreensão enviesada dos caminhos disponíveis para os europeus alcançarem seus competidores. “Em geral, é tolice atribuir o avanço tecnológico à guerra, como se faz no caso do avião a jato e da internet”, alerta. “O que aconteceu historicamente foi que o investimento pesado nessas tecnologias pelas forças armadas acelerou seu desenvolvimento. Isso não significa que elas não existiriam de outro modo, mas sim que seu desenvolvimento, que poderia acontecer de outro jeito, com outras ênfases, se canalizou para isso.”
O caso europeu ainda tem como pano de fundo a particularidade que é o processo de unificação do continente, sempre oscilante e incerto. A Agência de Defesa da própria União Europeia atribui sua fraqueza militar, em boa parte, à falta de coordenação e, mais especificamente, de forças armadas unidas. O caráter fragmentário do grupo de 27 países provoca ineficiências de abastecimento, em licitações e na coordenação em exercícios militares. Por esse prisma, haveria no imperativo do rearmamento um princípio de maior unificação, senão pela via constitucional ou financeira, pelo menos pela militar.
Seja qual for a motivação, a expansão dos gastos militares, sobretudo na Europa e no Japão, é encarada como uma transição de época porque sugere o fim de um período de ênfase na paz. Ainda que seja verdade que a pacificação dessas regiões foi apenas uma ilusão sustentada pela predominância dos EUA, Silva observa que o mundo unipolar, posterior ao fim da Guerra Fria, pode não ter sido tão estável quanto se acredita. “Era uma ordem muito fechada e pouco participativa”, resume. Sobretudo nas regiões periféricas do mundo, houve muitos conflitos e muitas intervenções armadas, incluindo as guerras no Iraque e no Afeganistão.
O momento atual, no entanto, não pode ser classificado nem pela multipolaridade, nem pela dominância de um único ator ou dois, como na Guerra Fria. “Nosso desafio atual é pensar o período intermediário, o interregno. Se queremos manter a paz, é para esse período que precisamos encontrar algum arcabouço de transição, sem necessariamente imaginar como vai ser a próxima ordem”, afirma o pesquisador do Sipri.