Após 85 anos de portas fechadas, o edifício do número 97 da Rua Roberto Simonsen, a poucos metros do marco zero de São Paulo, ganha um novo dono.
O Palacetes da Sé, projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo, passa agora para as mãos de Allan Ruiz, 48 anos, que pretende implantar um centro cultural no local.
“As pessoas me chamavam de louco, mas faz parte”, afirma o corretor de imóveis, que atua no setor desde 2009 e diz ter confiado na experiência e na intuição para aplacar as críticas e decidir pela revitalização do prédio, erguido em 1916 para sediar a Policlínica e a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo.
Formado em administração de empresas pela ESPM, Ruiz migrou do mercado de imóveis residenciais e comerciais para o ramo de desmobilização de ativos, encontrando liquidez para imóveis de grandes empresas. “Eu acordava falando de terreno para incorporação e, no final do dia, falava de imóvel locado para investidor.”
Há sete anos, contudo, passou a atuar no mercado de retrofit, a adaptação de imóveis existentes para novos usos.
“Passei sete anos mergulhado aqui no centro de São Paulo procurando imóveis para retrofit. Acabei mapeando praticamente tudo que está à venda.” Natural de Santo André, Ruiz mora hoje no centro de São Paulo, próximo às “ruínas de Ramos”, como gosta de dizer.
Entre os mais de 350 edifícios que mapeou, um deles acabaria ganhando protagonismo. Em outubro de 2025, Ruiz comprou o imóvel da Rua Roberto Simonsen, que havia sido adquirido em 2020 por outro empresário em um leilão. Durante os cinco anos anteriores, o prédio permanecera praticamente parado, recebendo apenas alguns eventos pontuais.
A compra marcou também uma mudança na trajetória de Ruiz, que encontrou no imóvel uma vocação cultural determinada tanto pela própria arquitetura quanto pelo entorno, que reúne outros equipamentos culturais. “Eu migrei do retrofit residencial para esse imóvel, que tem uma vocação mais cultural”, afirma. Ele deixou a empresa da qual era sócio e passou a tocar sozinho o projeto.
A escolha não representou, contudo, uma ruptura completa com o mercado imobiliário. Como pontua Ruiz, o projeto continua sendo, antes de tudo, uma operação imobiliária. O que muda é o perfil da ocupação. A localização, cercada por equipamentos culturais, e as diferentes camadas de história do edifício foram decisivas para que ele optasse por transformá-lo em um centro cultural.
A poucos metros do Palacetes da Sé, estão o Pátio do Colégio, o Solar da Marquesa, o Museu das Favelas e a Caixa Cultural. “A vocação da região foi muito importante na minha decisão, assim como as muitas camadas de história do imóvel. Quero que as pessoas tenham a oportunidade de entrar no prédio e conhecer todas as histórias que ele guarda.”
Para viabilizar a compra e o restauro do imóvel, Ruiz diz ter investido “todo o dinheiro que eu tinha e ainda ficou faltando”. Ele não revela o valor da operação, que envolveu outros imóveis e pessoas e foi realizada por meio de uma permuta. “Agora eu preciso buscar recursos em outras fontes.”
Entre elas, estão as leis de incentivo à cultura e editais específicos da prefeitura de São Paulo para o financiamento de parte dos custos de retrofit de imóveis do centro de São Paulo.
Atualmente dedicado à realização da exposição do artista Alex Flemming no imóvel, Ruiz se diz otimista não só com o momento que o centro de São Paulo atravessa, mas também com a adesão do público ao projeto do Palacetes da Sé. “Estou muito empolgado, e isso me motiva até a buscar outros projetos, porque a recepção tem sido muito boa. As pessoas saem de lá felizes. Às vezes entram de cara amarrada, mas saem leves e vêm comentar que gostaram do imóvel.”