A nostalgia pode ser um vício caro quando alguém dispõe de dinheiro suficiente para mandar reconstruir o passado, contratar figurantes e exigir que as antigas felicidades retornem no horário marcado. Victor já não tem recursos nem disposição para tamanha extravagância, até que o filho lhe oferece uma sessão numa empresa comandada por Antoine, empresário que recria qualquer época mediante cenários, atores, figurinos e um batalhão escondido atrás das paredes. O sexagenário escolhe 1974, a semana em que conheceu Marianne num café de Lyon, e “La Belle Époque”, escrito e dirigido por Nicolas Bedos, começa a converter uma crise conjugal numa deliciosa confusão entre lembrança, teatro e desejo. Exibido fora de competição no Festival de Cannes de 2019, o filme entrega a Daniel Auteuil, Fanny Ardant, Doria Tillier e Guillaume Canet uma engrenagem sofisticada que se movimenta com a exatidão de um relógio antigo, embora seus ponteiros às vezes girem longe demais.
Victor era cartunista e passou a detestar o mundo das telas sensíveis ao toque, das assistentes virtuais e das conversas reduzidas a ícones. Marianne continua curiosa, sexualmente inquieta e francamente cansada do marido, a quem expulsa de casa depois de uma nova discussão. Daniel Auteuil dá ao personagem uma rabugice quase física, arrastando os ombros e o rosto como se cada novidade tecnológica lhe impusesse um peso adicional. A transformação começa no instante em que ele atravessa a porta do café reconstruído e encontra Margot, a atriz escalada para interpretar a Marianne de quarenta anos antes. Auteuil recupera aos poucos o olhar do rapaz que Victor fora, e Doria Tillier evita uma imitação servil de Fanny Ardant, compondo uma jovem que corresponde menos à mulher verdadeira que à lembrança amorosa cultivada por seu cliente.
Quando o passado vira cenário
Bedos nunca esconde os cabos que sustentam o truque. Garçons recebem instruções por pontos eletrônicos, paredes deslizam, chuvas artificiais caem no momento determinado e Antoine acompanha tudo por monitores, irritando-se quando um ator modifica uma fala ou Victor decide sair do roteiro. Guillaume Canet encarna esse diretor onipotente como um sujeito capaz de controlar a iluminação de uma noite de 1974 e incapaz de lidar com Margot, sua amante intermitente. A relação caótica dos dois invade a fantasia de Victor, que também começa a confundir a intérprete com a personagem e o que aconteceu com aquilo que gostaria de ter vivido. A montagem alterna o café, os bastidores e o presente de Marianne sem desmanchar a ilusão, apoiada pelos cenários de Stéphane Rozenbaum, premiados no César de 2020; Bedos também venceu pelo roteiro original, e Fanny Ardant recebeu o prêmio de atriz coadjuvante.
Há um sentimentalismo ostensivo na meia hora final, quando o roteiro procura conciliar casais, reparar ofensas e transformar o investimento financeiro naquela fantasia numa espécie de terapia matrimonial. A sobrecarga não apaga o vigor de um filme que sabe observar como os casamentos se degradam através de hábitos minúsculos, interrupções à mesa, aparelhos ligados e histórias repetidas sem que ninguém ainda queira ouvi-las. Ardant não permite que Marianne seja reduzida à esposa ingrata; sua personagem continua apaixonada pelo homem que Victor deixou de ser e exasperada diante do estranho que tomou seu lugar no sofá. “La Belle Époque” encontra sua beleza quando os cenários começam a perder a função e Victor percebe que nenhuma reprodução será tão precisa quanto o rosto envelhecido da mulher real. Ao desmontarem o café, sobram tábuas, refletores e um homem que voltou a enxergar quem estava diante dele.