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quarta-feira, agosto 5, 2026

Marilyn Monroe faria 100 anos. Morreu aos 36 e nunca mais envelheceu

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Marilyn Monroe faria cem anos em 2026, frase rigorosamente correta no calendário e quase absurda para a imaginação. Há pessoas que envelhecem, há mortos que continuam envelhecendo e há Marilyn, condenada à juventude como certos personagens de conto fantástico, só que por um feitiço mais vulgar e poderoso; fotografia, cinema. Morreu há 64 anos, aos 36, e não avançou um dia desde então. O vestido branco continua subindo, os diamantes continuam sendo os melhores amigos de uma garota, a voz ainda canta parabéns ao presidente.

A morte ocorreu provavelmente na noite de 4 de agosto de 1962, entre 20h30 e 22h30. O corpo foi encontrado na madrugada do dia 5, no quarto de sua casa em Brentwood, Los Angeles. A autópsia detectou doses letais de pentobarbital e hidrato de cloral. A conclusão oficial foi intoxicação aguda por barbitúricos, classificada como provável suicídio. Não havia bilhete. Havia frascos de remédio, versões desencontradas sobre horários e uma demora pouco esclarecida até que a polícia fosse chamada.

Foi o bastante. Desde então, uma indústria paralela funciona ao redor daquele quarto, uma Hollywood subterrânea em que Marilyn teria sido assassinada pelos Kennedy, pela máfia ou por todos eles numa espécie de reunião de condomínio do poder americano. Faltou apenas culpar os marcianos. Em 1982, o Ministério Público de Los Angeles reexaminou o caso e não encontrou evidência confiável de homicídio. As falhas da investigação original são reais; o salto dessas falhas para a certeza de assassinato, não.

A morte de Marilyn não precisa ser inventada para ser estranha. Tampouco precisa ser tratada como solução perfeita de sua vida, aquele final literariamente arrumado em que cada tristeza anterior se revela pista do desfecho. Pessoas deprimidas fazem planos. Suicidas podem comprar móveis. Gente à beira do colapso atende telefonemas, discute contratos, marca encontros, reclama dos vizinhos.

Nos primeiros meses de 1962, Marilyn estava tentando voltar ao cinema. Filmava “Something’s Got to Give”, com Dean Martin, para a 20th Century-Fox, estúdio com o qual mantinha uma relação de dependência, ressentimento e guerra aberta. Tinha problemas de saúde, insônia, faltava ao trabalho, chegava atrasada, esquecia falas. Tudo isso aconteceu e não adianta embrulhar o fato em papel de seda feminista; seus atrasos custavam dinheiro e enlouqueciam equipes. A questão é que também acontecia outra coisa. Quando conseguia atuar, a câmera continuava apaixonada.

As cenas que sobreviveram do filme mostram uma mulher mais madura, ainda belíssima, capaz de conduzir uma comédia adulta. A famosa sequência em que nada numa piscina nua foi explorada como publicidade e arma na disputa com o estúdio. Marilyn sabia que seu corpo era uma notícia. Sabia também que, para os executivos, quase sempre era a única notícia.

Em maio, viajou a Nova York para cantar no aniversário de John F. Kennedy. Entrou no palco do Madison Square Garden costurada num vestido coberto de cristais e cantou “Happy Birthday” numa voz tão íntima que parecia dirigir-se a um homem sozinho, embora houvesse milhares de pessoas diante dela e milhões viessem a assistir à cena. Foi uma aparição de poucos minutos, uma aula de domínio do público e uma catástrofe profissional. A Fox alegou que ela abandonara as filmagens. Pouco depois, demitiu-a e anunciou um processo.

A história seria mais simples se terminasse aí, com uma estrela destruída pela própria indisciplina. Não terminou. Dean Martin recusou-se a continuar o filme com outra atriz. Fotografias novas de Marilyn circularam. Entrevistas foram concedidas. Advogados negociaram. Sua volta ao projeto estava em discussão. O salário seria maior. O contrato, revisto. Em agosto, a mulher que os obituários logo apresentariam como um destroço tinha uma carreira em crise, não uma carreira morta. Também havia comprado uma casa.

Uma casa, enfim

O detalhe parece pequeno, mas na vida de Norma Jeane Mortenson poucas coisas eram pequenas quando diziam respeito a uma casa. Filha de Gladys Baker, funcionária da indústria cinematográfica que sofria graves transtornos psiquiátricos, a menina passara por famílias responsáveis, lares provisórios e uma instituição para crianças. Aos 16 anos, casou-se com James Dougherty numa solução que a impedia de voltar ao sistema de acolhimento. Antes de ser uma história de amor, o casamento foi um endereço.

Durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto Dougherty servia longe, Norma Jeane trabalhava numa fábrica ligada à produção aeronáutica. Um fotógrafo apareceu para registrar mulheres no esforço de guerra. A câmera gostou dela. Ela gostou da câmera. O encontro foi menos um milagre do que o início de uma aprendizagem; poses, luz, movimento, o conhecimento muito específico de como parecer espontânea depois de horas de preparação.

Em 1946, o casamento acabou e Norma Jeane ganhou um nome novo. Marilyn teria vindo de Marilyn Miller, estrela do teatro musical; Monroe era sobrenome da família materna. O estúdio participou da escolha, como participou do clareamento dos cabelos, da maquiagem, das roupas, da biografia promocional e do desenho da mulher que o público passaria a desejar. Hollywood inventou Marilyn Monroe com a colaboração ativa de Norma Jeane.

Levou anos para que a invenção pegasse. Houve contratos encerrados, pontas quase invisíveis, humilhações e espera. Em 1950, pequenos papéis em “O Segredo das Joias” e “A Malvada” foram suficientes para que aquela atriz ainda lateral deixasse uma impressão desproporcional ao tempo em cena. Em 1953 vieram “Torrentes de Paixão”, “Os Homens Preferem as Loiras” e “Como Agarrar um Milionário”. Marilyn deixou de entrar nos filmes e passou a ser o motivo de eles existirem.

O tipo estava pronto. A loira parecia não compreender inteiramente o que se passava, embora controlasse o ritmo da cena, o olhar dos homens, a câmera e o riso do espectador. Era uma comediante de precisão rara condenada a ser elogiada pela naturalidade, palavra que costuma esconder o trabalho quando o trabalho é bem feito. Em “Quanto Mais Quente Melhor”, seu melhor filme, Sugar Kane acredita em mentiras absurdas porque deseja acreditar nelas, e Marilyn sustenta cada absurdo com uma seriedade que torna a personagem engraçada, vulnerável e humana. Ganhou o Globo de Ouro. Nunca foi indicada ao Oscar.

A fama trouxe três casamentos e nenhuma casa duradoura. James Dougherty pertencia ao período anterior a Marilyn. Joe DiMaggio, herói do beisebol, queria uma esposa que não fosse vista por todos os homens do mundo — exigência complicada quando se casa justamente com a mulher mais vista do mundo. Arthur Miller parecia oferecer outro tipo de abrigo, feito de livros e respeitabilidade. A imprensa resumiu a união como o encontro entre corpo e cérebro, velha piada de salão cuja estupidez Marilyn teve de suportar sorrindo.

Ela queria filhos. Sofreu perdas gestacionais, enfrentou endometriose e dores. Queria também ser atriz, o que às vezes desaparece na imagem sentimental da mulher que buscava apenas amor e maternidade. Saiu de Hollywood, mudou-se para Nova York, estudou no Actors Studio, criou a Marilyn Monroe Productions e obrigou a Fox a renegociar seu contrato. Conseguiu escolher diretores e recusar papéis. A “loira burra” abriu uma empresa para enfrentar um dos maiores estúdios do mundo.

O controle conquistado nunca foi completo. Sua dependência de medicamentos cresceu. A relação com os Strasberg, sobretudo com Paula, misturou formação artística e dependência emocional. Os atrasos pioraram. A saúde se deteriorou. O casamento com Miller desabou durante “Os Desajustados”, escrito por ele e dirigido por John Huston. Roslyn, a mulher recém-divorciada que não suporta assistir à captura de cavalos destinados ao abate, foi tratada depois como se fosse a própria Marilyn pedindo socorro pela tela. É uma leitura tentadora. Também é uma forma preguiçosa de transformar atriz em personagem de si mesma.

Em 1961, depois de cirurgias e uma internação psiquiátrica traumática, Marilyn voltou à Califórnia. A casa de Brentwood foi comprada no ano seguinte. Era a primeira que lhe pertencia. Estava decorando os cômodos, comprando móveis, tentando instalar-se. Na porta havia uma inscrição em latim que significava, aproximadamente, “aqui termina minha viagem”. A frase ganhou depois da morte uma solenidade irresistível, como se a casa soubesse. Casas não sabem de nada.

Poucas semanas antes de morrer, ela conversou longamente com o jornalista Richard Meryman, da revista “Life”. Falou da infância, da fama, dos estúdios e da humilhação de ser tratada como coisa. Pediu, de modo mais direto, que não a transformassem em piada. A edição chegou ao público imediatamente antes de sua morte, o que fez da entrevista um documento fúnebre por contaminação. Lida sem o necrológio na cabeça, porém, é a fala de uma mulher cansada, ferida e ainda brigando.

Na noite de 4 de agosto, essa briga terminou. Não sabemos exatamente como. A conclusão oficial de provável suicídio continua sendo a mais sustentada pelos documentos. A hipótese de overdose acidental, agravada pela prescrição descoordenada de medicamentos perigosos, não é absurda. O que não apareceu em 64 anos foi prova sólida de assassinato. Talvez seja pouco excitante admitir que uma das mulheres mais famosas do século morreu cercada não por espiões, mas por médicos, comprimidos e solidão.

Joe DiMaggio organizou o funeral e manteve Hollywood afastada. Marilyn foi enterrada em 8 de agosto de 1962. Não tinha completado 37 anos. O estúdio seguiu em frente, os filmes continuaram circulando e o rosto entrou naquela região da cultura em que uma pessoa deixa de pertencer à própria biografia.

A mulher virou estampa

Warhol o repetiu em cores. Madonna refez “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Publicitários, atrizes e fabricantes de toda sorte de quinquilharia se apropriaram da boca entreaberta, dos cabelos claros, da pinta, do vestido. Marilyn sobreviveu com tamanha eficácia que quase matou Norma Jeane pela segunda vez.

O centenário pode servir para alguma coisa melhor do que celebrar o ícone. Pode devolver idade, trabalho e contradição à mulher. Marilyn conhecia o valor comercial da própria imagem, enfrentou um dos maiores estúdios do mundo e nem por isso deixou de sofrer nas mãos de homens que administravam seu corpo, seu dinheiro e sua carreira. Ambiciosa, insegura, profissionalmente combativa, às vezes feriu pessoas ao redor e produziu comédia de extraordinário domínio. Queria ser levada a sério; sabia, porém, que grande parte de seu poder vinha da fantasia que os outros faziam dela.

Aos cem anos, teria talvez décadas de vida comum para desorganizar o final perfeito. Morreu antes que pudesse envelhecer, abandonar papéis, fracassar em outros, acertar alguns e deixar que a própria biografia perdesse o brilho arrumado das tragédias precoces.

[Fonte Original]

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