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sexta-feira, agosto 21, 2026

Inflação de alimentos deve subir com choques de oferta

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As condições de fornecimento global de alimentos estão se deteriorando, e a redução da oferta se tornará bem mais evidente nos preços até o fim do ano. O El Niño, que deverá ser um dos mais fortes desde 1950, piora uma situação já adversa criada por duas guerras que reduziram muito o suprimento de insumos básicos – petróleo, gás natural, ureia e enxofre, no caso do bloqueio do Estreito de Ormuz – e a produção de trigo e fertilizantes, no caso da guerra entre Rússia e Ucrânia. Há vários choques simultâneos de oferta, e o índice de preços dos alimentos da FAO, órgão da ONU para alimentação e agricultura, atingiu no mês passado o seu maior nível desde janeiro de 2023.

A guerra entre Estados Unidos e Irã completa na próxima semana seis meses, uma duração inesperada quando os conflitos começaram. O fornecimento de insumos para fertilizantes, já afetados pelos combates entre Rússia e Ucrânia, dois dos maiores produtores, continua precário, e o plantio nos EUA, o segundo maior exportador mundial de alimentos, foi afetado pelos preços em alta e menor disponibilidade. Os transportes de todas as safras vão encarecer de novo, depois da brevíssima trégua entre o presidente Donald Trump e o regime dos aiatolás que reduziu os preços dos combustíveis. Não há acordo à vista. O resultado é que os preços do petróleo começaram a subir aos poucos e ontem tinham ultrapassado os US$ 93 o barril do tipo Brent.

Outra guerra prolongada, de mais de quatro anos, provocada pela invasão russa na Ucrânia, acrescentou agora novos problemas ao abastecimento de alimentos. Os conflitos recrudesceram nas últimas semanas, e ambos os países resolveram alvejar os portos no Mar Negro que escoam o grosso da produção de trigo – a Rússia é o maior produtor mundial e a Ucrânia, o quinto maior. A produção dos dois países corresponde a 30% da oferta mundial. Há cálculos que indicam que 17% das exportações globais do produto serão afetadas (FT, 19-8). As cotações do trigo são as mais altas em três anos.

A Ucrânia tentou desviar parte do escoamento da produção para o rio Danúbio, mas não está tendo sucesso devido a outro fator que derruba o suprimento: o aquecimento global. Uma violenta seca reduziu muito o nível dos rios europeus, diminuindo a capacidade de transporte e elevando preços dos fretes. Em paralelo, a estiagem, que facilitou a disseminação de incêndios de grandes proporções na França, na Espanha e na Grécia, deve ter eliminado 9 milhões de toneladas de trigo, cevada, milho e outros grãos, com prejuízos estimados em € 2 bilhões.

O clima adverso deve piorar com a eclosão do El Niño. Estudo do Banco Central Europeu (BCE) avalia que um cenário extremo de secas e calor pode subtrair até 4,5 pontos percentuais do crescimento do valor agregado per capita na agricultura, com maior impacto no leste da Europa. E fenômenos climáticos adversos estão se espalhando por vários pontos do planeta. O aquecimento das águas do Pacífico levou o Peru a suspender a pesca de anchovas desde maio. O forte calor, coadjuvado pelo menor uso de fertilizantes pela redução da disponibilidade, prejudicou a safra de trigo da Austrália e afetou as de arroz da Índia, que já havia interrompido suas exportações de açúcar.

Tudo somado, as cotações das commodities estão com tendência de alta. Ontem, os preços de açúcar, algodão, soja e trigo estavam perto das máximas atingidas em um ano. Segundo os cálculos da consultoria Oxfam, os preços dos alimentos subirão 11,8% neste ano e 4,8% no próximo, mas o El Niño, que se estende até meados do primeiro semestre do próximo ano, pode tornar modestas essas previsões. Ainda assim, altas de cotações e menor disponibilidade de produtos colocarão mais 49 milhões de pessoas em um ambiente de insegurança alimentar, segundo a FAO.

O encarecimento dos insumos vai afetar a rentabilidade dos produtores brasileiros e possivelmente a produtividade, refletindo-se nos preços. Os fertilizantes, dos quais o Brasil é um dos cinco maiores consumidores mundiais, subiram cerca de 25% em um ano, e as importações caíram, um sinal de que o insumo será racionado no plantio. Isso ocorrerá justamente quando as plantações poderão estar sob estresse hídrico com a chegada do El Niño.

É justamente o bom comportamento dos preços de alimentos que tem permitido que a inflação recue nos últimos meses. Com grande peso no IPCA, tiveram deflação em julho e, em 12 meses, avançaram 3,4%, ante o índice de 4,46% no mesmo período. Em reais, no ano até agora, houve queda de 1,43%, segundo o IC-Br, do Banco Central. Mas como boa parte dessas commodities é cotada nos mercados mundiais, a posição do câmbio afeta diretamente os preços domésticos. O dólar tem se valorizado um pouco recentemente, com a aproximação das eleições e a retirada massiva de recursos por parte dos investidores externos em ações.

Com pressões de preços em várias frentes, e um El Niño a caminho, os alimentos deixarão o papel de freio para se tornar um acelerador da inflação. Ao lado da gastança do governo federal, poderão interromper a queda de juros ou forçar a interrupção temporária da distensão monetária.

[Fonte Original]

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