Após um longo período de juros elevados, os sinais de desaceleração da atividade finalmente ficaram evidentes também nos balanços de empresas cíclicas domésticas, e não apenas nos indicadores macroeconômicos. É isso o que apontam estrategistas do Santander e do Bradesco BBI, com base nos resultados e nas teleconferências recentes.
“Parece que a atividade está desacelerando e as empresas estão começando a sentir. As empresas estão reduzindo o ‘guidance’ [projeção]… No balanço da semana passada, o ‘management’ da Localiza veio com um discurso mais negativo; o Banco Inter também trouxe uma visão pior para inadimplência…”, avalia a chefe de pesquisa e estratégia de ações do Santander, Aline Cardoso.
A profissional também menciona o caso da Lojas Renner, que registrou queda mais intensa do que o esperado do fluxo nas lojas físicas durante a Copa. A redução fez a varejista revisar a projeção de crescimento de receita líquida para 2026, que passou de uma faixa entre 9% e 13% para 4% e 8%, mencionando um desempenho de vendas abaixo do esperado no primeiro semestre, além de um ambiente competitivo mais desafiador.
Durante teleconferência, o CEO da Itaúsa, Alfredo Setubal, também adotou um tom mais pessimista. Ele disse que a companhia está orientando as empresas em que tem participação a prever um orçamento mais moderado e cauteloso, e a fazer cenários de estresse, a fim de estar preparadas “caso ocorra um desaquecimento mais forte ou uma situação política interna ou internacional que dê algum tranco no crescimento” da economia brasileira.
A piora nas perspectivas macroeconômicas elevou também a dispersão entre os balanços, aponta Cardoso. “Setores domésticos estão bem mais fracos que os de commodities. O setor financeiro decepcionou, assim como o de saúde, tirando Hypera e Fleury… Todas as empresas cíclicas vieram um pouco abaixo do esperado. Nem foi o resultado em si [que pesou], mas a comunicação do ‘management’ [diretoria] de que estão vendo uma desaceleração.”
A diferenciação entre os resultados também chamou a atenção do estrategista do Bradesco BBI, Pedro Grimaldi. Ele afirma que companhias ligadas a commodities, especialmente de petróleo, foram favorecidas pelo aumento nos preços, que chegaram a passar US$ 100 devido ao conflito no Oriente Médio.
Por outro lado, empresas cíclicas domésticas finalmente mostraram o impacto da perda de tração da atividade. “Essa desaceleração era esperada, mas demorou para vir dado o nível de juros. Estávamos com temporadas de balanços muito boas antes disso. Agora, estamos vendo os efeitos dessa política monetária restritiva.”
Embora reconheça que o ciclo de cortes de juros deste ano será menor do que o previsto inicialmente pelo mercado, Grimaldi diz ver espaço para a continuação do afrouxamento monetário em 2027.
“Ainda temos um ciclo. Teve uma discussão grande em junho sobre se o BC iria parar de cortar [a Selic] em agosto, mas ele cortou e deve cortar em setembro. No ano que vem, também temos espaço para um ciclo de cortes. Já vimos que só o fato de o juro estar caindo ajuda a levar de volta investimentos para ações. Estou com visão positiva para a bolsa local.”