A cobrança por sinalizações de futuro sobre a campanha do PT deverá vir por meio de comparações entre as entregas do atual governo e aquele que o antecedeu. Foi isso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou, ao lançar sua campanha no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), neste domingo, num tom de quem se cansa com a cobrança: “Eu vou dizer pra vocês o que é pensar no futuro”.
Saiu, então, enumerando indicadores na redução da evasão escolar no ensino médio, na inflação, no desemprego, na geração de postos de trabalho, nos investimentos públicos, no crédito para a indústria e no crescimento da economia
É por aí que a demanda da militância por desconstrução da candidatura de seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deve vir. Quando dirigentes petistas falam em “tocar o terror” na campanha do PL, é o apelo, junto ao eleitor, contra a volta ao passado, que enfatizam. A ausência de menções a escândalos como o Master sugere que a desconstrução virá mais da comparação do que pela exploração da corrupção.
A deputada e ex-presidente do PT Gleisi Hoffman (PR), que é candidata ao Senado no seu Estado, mas estava no estádio da Vila Euclides, ensaiou uma explicação: “Na corrupção, batemos de cá e eles devolvem de lá. Na comparação de governo não há como eles fazerem contraponto”.
Lula disse ainda que, “em 10 ou 15 dias”, ele e o vice, Geraldo Alckmin, candidato a permanecer na chapa, vão lançar outro programa de governo com a numeralha comparativa. O primeiro, divulgado há dez dias, foi uma prestação de contas de mais de 80 páginas. O discurso do presidente sugere que o próximo cotejará esta prestação de contas com aquela do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A prestação de contas não deixa de ser um olhar pelo retrovisor, mas o deputado e candidato à reeleição Carlos Zarattini (PT-SP), também presente, contesta: “É a única maneira de tirar o eleitor da guerra ideológica das redes sociais e chamar o cidadão à responsabilidade para que o país não volte a piorar”.
Lula cortou seu discurso exatamente pela metade em relação àquele da convenção do partido de duas semanas atrás. Falou por 36 minutos. Sua fala, porém, foi antecedida por vídeos em que seus companheiros de sindicato — que teve aquele estádio como sede das greves históricas da virada dos anos 1980 — falaram sobre Lula, além de breves discursos de ministros presentes, de Alckmin e do ex-ministro e candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad.
Numa reparação ao ato da convenção, quando a primeira-dama, Janja da Silva, foi a única mulher a discursar, empurrada pelo marido, desta vez, a ex-governadora do Rio e candidata do PT ao Senado, Benedita da Silva, ficou encarregada de repor a lacuna com uma fala de apelo religioso.
Janja voltou a falar, desta vez, num discurso lido. Foi o discurso mais surpreendente do evento. Pela primeira vez desde que Lula assumiu o relacionamento, ao deixar a prisão, em Curitiba, em 2019, Janja falou de dona Marisa em público.
Maria Letícia Lula da Silva foi companheira de Lula entre 1973 e 2017, quando morreu, vítima de um acidente vascular cerebral, no auge da Lava-Jato. Casou com Lula já com um filho quando ambos haviam acabado de enviuvar, e dele teve outros três filhos.
Janja citou-a como alicerce, junto à geração de mulheres de metalúrgicos do ABC dos anos 1980, sem o qual “essa história toda tivesse sido diferente”. Lembrou ainda a primeira bandeira do PT, costurada por dona Marisa e lhe dedicou “toda a minha admiração”.
A falta de reconhecimento ao papel da mãe na história do PT e na do pai sempre foi um motivo de queixa dos filhos do presidente. A largueza do gesto foi interpretada por petistas presentes como um aceno à rejeição de Lula e da própria primeira-dama como também aos próprios filhos do presidente, o mais velho dos quais, Fábio Luis, voltou a trazer dissabores à campanha petista pelas relações com a lobista Roberta Luchsinger, investigada por tráfico de influência no governo.