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quinta-feira, agosto 13, 2026

Mercado reflete ceticismo do investidor sobre ajuste fiscal

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Ações e dólar começaram a se mover ao sabor das eleições, após meses em que as pesquisas não influenciaram na alta fulminante do índice Bovespa de 165,5 mil para mais de 190 mil pontos. A bolsa teve uma sequência de quedas nos últimos dias, que levou o índice para abaixo dos 170 mil pontos, após sinalizações importantes dos investidores externos de que querem guardar distância da volatilidade e das baixas chances de valorização típicas de períodos eleitorais no país.

Movimentos mais determinantes para os rumos da economia no curto prazo podem ocorrer, no entanto, nas cotações do dólar e nas taxas de juros futuras, que já sinalizam a desconfiança de que nenhum dos dois candidatos favoritos nas pesquisas até agora – o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro – vá atacar de frente a crise fiscal em gestação.

A perspectiva de continuidade ou ruptura marca a dança dos ativos nos períodos eleitorais. No caso das ações, além da disputa nas urnas, há outros motivos que favorecem uma trégua nas valorizações que ocorreram na maior parte do ano. Até julho, a B3 teve valorização em reais de 9%, enquanto o dólar se desvalorizou em relação ao real em 8%. Esse movimento duplo, que favorece o aplicador externo, foi mais intenso nos primeiros meses do ano, levando ao ingresso líquido de divisas de R$ 53,8 bilhões.

O cenário externo mudou com a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em que a alta do petróleo disseminou inflação globalmente e colocou de prontidão os bancos centrais de todo o mundo. Ações tendem a se beneficiar da redução dos juros, mas a tendência provável agora é de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tenha de elevá-los até o fim do ano e, domesticamente, que o Banco Central brasileiro interrompa por algum tempo os cortes homeopáticos de 0,25 ponto percentual.

Isso limita ou pode até mesmo anular a perspectiva de ganho dos investidores externos em ações – responsáveis por 60% do volume negociado nos pregões -, com a possibilidade de eventual valorização do dólar ampliar perdas. Por isso, em agosto, cerca de R$ 7 bilhões líquidos bateram em retirada da B3 até o dia 10, deixando ainda um saldo positivo perto de R$ 30 bilhões.

Avaliações de bancos estrangeiros, como JP Morgan, que rebaixou para neutra a perspectiva das ações brasileiras e uma pesquisa mostrando uma margem muito grande de favoritismo do presidente Lula que outros levantamentos não mostram, deram o sinal para a correção mais intensa das cotações na B3 e marcaram informalmente o início de influência direta das eleições no comportamento dos ativos. O aumento da volatilidade não significa necessariamente grandes baixas na B3, apenas que a relação entre risco e retorno se tornou desfavorável para o investidor externo se comparada à bonança do período anterior.

Já a variação do dólar tem efeitos imediatos e importantes na condução da política econômica. A valorização do real tem peso determinante no comportamento da inflação. Cálculos do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que desde o fim de 2024 até a metade de maio, o real se apreciou em 26% e isso contribuiu para uma redução de 1 ponto percentual no IPCA no período. Uma eventual reversão, com significativa desvalorização do real, traria mais problemas para o Banco Central além dos que ele já tem para reduzir uma inflação renitente, reforçada por estímulos do governo à demanda.

Por fatores domésticos não há forte probabilidade de grandes desvalorizações, como as que ocorreram no período que antecedeu a primeira vitória de Lula na disputa para presidente. Mesmo com o avanço recente do dólar, ontem em R$ 5,17, sua cotação ainda é inferior aos R$ 5,29 do dia 30 de novembro de 2022, após Lula ganhar o direito a seu terceiro mandato. E diferentemente de quando Lula assumiu pela primeira vez a Presidência, há reservas abundantes (US$ 370 bilhões) e uma dívida interna quase toda em moeda local. As expectativas dos analistas no boletim Focus apontam estabilidade, com o dólar fechando o ano em R$ 5,20.

Já os altos juros futuros, com taxas muito elevadas em toda a curva de vencimentos, contam uma história que vai além das eleições. O endividamento público sobe com rapidez, fruto da política do atual governo. Mesmo a proximidade do candidato da oposição, Flávio Bolsonaro, de Lula nas pesquisas eleitorais não criou um ambiente favorável que levasse à queda das taxas futuras. O governo que o filho de Bolsonaro emula, o de Jair Bolsonaro, deu escassa atenção às contas públicas.

Os juros altos precificam a desconfiança de que nem o presidente Lula nem seu rival se empenharão seriamente em mudar a rota do endividamento com um programa claro para enfrentar o problema fiscal. Se não houver a sinalização de que o necessário, amplo e urgente ajuste fiscal será feito, os ativos continuarão refletindo essa desconfiança.

[Fonte Original]

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