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terça-feira, agosto 18, 2026

‘O Brasil grita compra’ para o mercado acionário, diz gestor

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O Brasil virou um caso de valor no bloco de emergentes na América Latina, segundo gestores de recursos que participaram de conferência anual do Santander, nesta terça-feira (18). Embora o tema da inteligência artificial (IA) venha dominando a atração de capital do investidor global, o país tem boas histórias para diversificação, quando se pensa justamente na construção da infraestrutura para suportar os projetos ligados à inovação. Não se trata de comprar o Ibovespa, mas de selecionar os melhores ativos para um ciclo de investimentos que será fundamental.

“Não acho que a América Latina seja um ‘trade’ anti-IA. Se há o ‘boom’ de investimentos que se prevê, o Brasil é um país de beta alto, para mim é uma história de diversificação”, disse Ivan Kleimann, gestor de portfólios para América Latina e emergentes da Aberdeen.

Na região, normalmente se ganha mais dinheiro quando a percepção está muito negativa e a avaliação das empresas está barata, não por causa de uma transformação secular. É quando a sensação é de que as “coisas estão terríveis” e o investidor compra as ações e vende no cenário oposto, quando há consenso sobre a melhora, segundo Scott Piper, chefe de ações e executivo-chefe de investimentos (CIO) para América Latina da Itaú Securities.

“A melhor oportunidade no momento, a maior assimetria de risco/retorno é no Brasil.”

É onde o gestor diz ver boas equipes de gestão à frente das companhias e retornos totais implícitos interessantes, com dividendos altos. Se houver uma melhora no humor do mercado nos próximos seis meses tem muito potencial de valorização, afirmou.

Um ponto a favor, continuou Piper, é que os fundos locais estão com baixa participação em bolsa. “Nós temos fundos mais de longo prazo, e conseguimos olhar as empresas com essa perspectiva. Os juros estão tão altos e as ações numa dinâmica tão negativa de curto prazo que podemos nos beneficiar dessa arbitragem”, disse. “O Brasil grita ‘compra’.”

As vantagens da infraestrutura

Sarah Shaw, principal executiva (CEO) e chefe de investimentos (CIO) da 4D Infrastructure, diz que algumas decisões têm sido guiadas por valor e que o mercado brasileiro está no momento claramente descontado. “E há temas de investimentos que são urgentes, como a regulação de contratos e tudo que é necessário em infraestrutura a ponto de suportar as incertezas políticas e manobras na economia”, afirmou. “A infraestrutura é uma vantagem nesse superciclo de investimentos em que a IA é um deles. A América Latina não é o melhor lugar para se ganhar com a IA, mas tem outros temas e nunca houve investimento crônico em infraestrutura em escala global.”

A gestora citou que a população mundial vai chegar ao pico de 10 bilhões de pessoas, com uma adição de 2 bilhões que precisarão de água limpa, energia e saneamento. Em economias em desenvolvimento haverá a ascensão à classe média e 80% da população do globo vive em emergentes. “É uma oportunidade astronômica.” Outro motor vai ser a transição energética, com a América Latina bem posicionada para se aproveitar disso.

“A posição energética do Brasil, hoje, é onde o mundo quer estar daqui 30 anos”, afirmou Shaw.

O Brasil tem 25% das terras raras do globo e explora só 2% disso, “e não sabíamos disso”, disse Piper. “Há um enorme potencial para usar o Brasil como fonte de minerais críticos para a Europa e os Estados Unidos, essa é a verdadeira vantagem geopolítica do país.”

Shaw acrescentou que a recente crise de escoamento de petróleo e as guerras pelo mundo ressaltaram a necessidade da segurança energética, havendo grande demanda de investimentos em nível doméstico porque os países querem depender menos das fontes externas para atender suas comunidades.

O Brasil pode não se qualificar para efeitos de primeira ordem dos investimentos direcionados à IA, mas, sim, nos de segunda ordem, porque o mundo vai precisar de preços de energia mais baixos e de commodities para fazer a tecnologia acontecer e ser monetizada, apontou Kleimann, da Aberdeen.

“À medida que o ciclo evolua e a história de dólar mais fraco se concretize, após dez anos de excepcionalismo americano e capital para poucos casos de IA, a América Latina e outras frentes tendem a captar a maior parte do fluxo.”

Piper disse ver algumas evoluções bem positivas fora do tema da IA, a exemplo de o país estar em vias de se tornar um exportador líquido de petróleo, além dos grãos, áreas que do ponto de vista geopolítico tornam as coisas mais interessantes.

“O que realmente precisa acontecer é o Brasil se ajudar com responsabilidade fiscal, política macro mais racional e ortodoxa e parecia que estávamos nessa direção”, comentou Piper. Ele mencionou que em 2023 o mapa inteiro da América Latina estava pintado de vermelho, fazendo referência a políticos de esquerda no comando e isso virou na maior parte dos países para a centro-direita.

“O grande prêmio é o Brasil e continua sendo para atrair fluxo de investimentos em portfólio.”

“Fecho os olhos e compro essas ações”

Kleimann afirmou ainda que os investidores locais ficam muito focados em eventos de curto prazo como a eleição e se esquecem de olhar para fatores estruturais, a exemplo do déficit habitacional que não vai desaparecer tão cedo, independentemente do resultado das eleições. Há produtoras de commodities, de energia, de cobre e de lítio, e nomes que negociam com múltiplos que não se vê em outros mercados.

Ele disse que o Brasil, hoje, não é uma história de P/L (preço/lucro, que dá uma ideia do prazo de retorno do capital], mas de lucro.

“Se olharmos historicamente, o que explicou o desempenho da região e do Brasil foi a revisão de lucros. Se tiver mais certeza em relação aos lucros das companhias é mais fácil de se chegar a um catalisador que faça o efeito dos rendimentos compostos acontecer”, afirmou. “A forma de fazer isso é mergulhar em histórias idiossincráticas com elementos que fortaleçam o caso de investimento independentemente da política.” Ele citou como exemplo concessionárias de rodovias e a habitação voltada à baixa renda.

Só as melhores empresas sobreviveram, disse Piper, e há taxas de retorno real na faixa dos 14%, 5,5 pontos acima das NTN-Bs que estão nas suas máximas históricas, e com “dividend yields” na casa dos dois dígitos. Ele lembra que a governança das empresas desse padrão também melhorou e que elas geram um fluxo de caixa enorme que devolvem para os acionistas. “Fecho os olhos e compro essas ações.”

[Fonte Original]

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