A economia deve entrar em desaceleração com a inadimplência em seu auge, em um ciclo vicioso em que a estagnação ou a queda de salários e o aumento gradual do desemprego diminuirão a renda disponível, reduzindo o consumo e piorando o desempenho das atividades econômicas. O temor do cenário ruim que se esboça entrou nas previsões: há semanas o boletim Focus diminui suas projeções para o comportamento do PIB de 2027. No início de julho, elas estavam em 1,65%, e no início de agosto (ontem) caíram a 1,52%. A demanda por crédito continua boa, mas os executivos das principais instituições financeiras, ao anunciar seus balanços trimestrais, indicaram que a oferta deverá ser mais seletiva e em menor escala.
Os estímulos fiscais e parafiscais do governo mantiveram a economia crescendo acima de seu potencial, mas seus efeitos tendem a diminuir com o tempo. As atividades devem desacelerar no segundo semestre sob o peso da maior taxa de juros em duas décadas. As projeções de desempenho da economia para o segundo trimestre, depois da aceleração no primeiro trimestre, estão encolhendo. Serviços, varejo e indústria perderam dinamismo, inclusive, o que é revelador, o comércio de alimentos.
A procura por crédito não arrefeceu mesmo com taxas muito altas de juros, garantindo mais problemas à frente. O ciclo é o mesmo que levou à atual inadimplência elevada. As camadas de baixa renda têm notas menores nas avaliações de crédito, as que não lhes beneficiam com juros menores, e contratam as linhas mais caras. Segundo dados da Serasa Experian, a demanda por empréstimos subiu 14,8% em junho em relação ao mesmo mês de 2025. A demanda por quem ganha até dois salários mínimos, por outro lado, aumentou 50,8%.
Levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostrou um recorde de endividados na faixa de até três salários mínimos, de 84,9%, acima da média de 82% das demais rendas, outro recorde. O peso dos juros se mostra, entre outras coisas, no aumento dos inadimplentes que se declaram sem condições de quitar suas dívidas, grupo que subiu em um mês de 17,6% para 17,8% (Valor, ontem). Pelos dados da CNC, há um comprometimento médio de 30,6% da renda com dívidas.
Segundo as estatísticas do Banco Central, a inadimplência ficou estável (7,6%, alta) para pessoas físicas no crédito livre, com crescimento de 1,1 ponto percentual em 12 meses. O endividamento das famílias chegou ao recorde de 48,9%, com o comprometimento da renda subindo para 28,1%.
O comprometimento crescente da capacidade de consumo vai minando o desempenho das empresas comerciais. Esse movimento é nítido nas grandes varejistas de capital aberto que divulgaram balanços do segundo semestre, nos quais várias mostraram um recuo na receita líquida, outras, aumento do prejuízo, e quase todas, uma perspectiva de crescimento menor das vendas até o fim do ano.
Entre as companhias abertas como um todo, os indicadores financeiros já haviam apontado a tendência geral de avanço da carga dos juros nas medidas de desempenho operacional. A tendência geral é de que maior parcela do Ebitda (potencial de geração de caixa) está sendo destinada ao pagamento de encargos financeiros, fazendo recuar a parcela que poderia se converter em investimentos. As empresas mais alavancadas, que dependem mais de empréstimos, estão com dificuldades com a manutenção de juros altos por bastante tempo, especialmente as pequenas e médias empresas.
Por isso o número de recuperações judiciais continua subindo: atingiu 6.341 empresas no primeiro semestre, com alta de 6,2% ante igual período do ano passado. Em 12 meses, o salto é maior, 21,2%. Mas as recuperações extrajudiciais, usadas por grandes empresas, se avolumaram no período, envolvendo R$ 75 bilhões em débitos.
As empresas inadimplentes, consideradas as que deixaram de pagar um compromisso vencido, somavam em maio 9 milhões, um aumento de 17,4% anual, perfazendo uma montanha de débitos de R$ 230 bilhões, segundo a Serasa Experian. A grande maioria delas era de pequenas e microempresas, com 8,5 milhões de negativadas e dívidas de R$ 198,8 bilhões. Além das micro e pequenas, o número de empresas agropecuárias com dificuldades em saldar seus compromissos cresceu 66%.
A inadimplência cresceu mesmo com quatro anos de bom crescimento (3% ao ano) e aumento crescente da renda. Ela deve piorar na virada do ciclo, quando a economia esfriar, o desemprego aumentar, os salários deixarem de correr um pouco à frente da inflação e o crédito se tornar difícil. Era mais que previsível que nada de bom proviria de uma política fiscal e parafiscal expansionista convivendo e antagonizando com um extraordinário aperto dos juros. Os efeitos são os esperados: o crescimento vai diminuir, a inflação demorará mais a ceder, o consumo se retrairá, os investimentos, nunca sustentavelmente vigorosos, entrarão mais uma vez em compasso de espera, e a inadimplência se ampliará. É uma conta pesada trazida pela política econômica, plenamente evitável.