Um curioso paradoxo parece rondar a literatura russa. Embora talvez seja a mais recente dentre as grandes literaturas europeias – seu “pai fundador”, Aleksandr Púchkin (1799-1837), surgiu muito depois de figuras análogas como Shakespeare, Cervantes ou Camões –, ela, no imaginário dos leitores, parece ter ficado congelada no século de sua sensacional aparição internacional, o 19; e não se trata de mero estereótipo de forasteiros.
Em suas Lições de literatura russa, redigidas em 1940-41 para os cursos universitários que daria nos Estados Unidos, o escritor Vladimir Nabokov constata que “a ‘literatura russa’ como noção, como ideia imediata, limita-se geralmente, para os que não são russos, à consciência de que surgiram naquele país meia dúzia de grandes mestres da prosa entre meados do século 19 e a primeira década do século 20. Tal noção é mais ampla na mente dos leitores russos, pois incluiu, além dos romancistas, certo número de poetas intraduzíveis; de todo modo, a mente dos nativos permanece focada no firmamento resplandecente do século 19”.
Assim, para o autor de Lolita, “se excluirmos uma única obra-prima medieval, a característica muitíssimo cômoda da prosa russa é de que ela cabe por inteiro na ânfora de um único século – com um jarrinho de creme adicional fornecido para guardar a sobra que tenha vindo depois”. Nabokov diagnostica: “Isso se deve em especial à pobreza da literatura tipicamente regional gerada durante as últimas quatro décadas sob o regime soviético”. Algo que parece e
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