¿Pero qué es la historia de América toda sino una crónica de lo real maravilloso?” Com essa pergunta, o escritor cubano Alejo Carpentier conclui o famoso ensaio de 1948 no qual pinta a realidade americana (sobretudo a latino-americana e caribenha) como notavelmente estranha e surpreendente. Um exame do que, na obra de Carpentier, poderia ser apontado como uma “realidade maravilhosa” revelará um forte fascínio com a imagem de uma flora profusa e imponente, entre ameaçadora e edênica, herdeira de uma imaginação de longa história sobre a região, que vai das crônicas coloniais aos relatos de escritores e naturalistas do período romântico.
Quase 70 anos depois, a escritora argentina Samanta Schweblin, no romance curto Distância de resgate (de 2014, publicado no Brasil pela Fósforo em 2024), redirecionaria a atenção do leitor aos efeitos da contaminação pelo herbicida glifosato nas amplas plantações de soja da pampa argentina, que tem sido apontada como responsável pelo crescimento de casos de câncer, malformação em fetos e outros efeitos sérios sobre a saúde local, tanto de humanos quanto de não humanos. Jamais mencionado no romance, o glifosato, na presença fantasmal que marca esse clássico recente do eco-horror, sugere que o sobrenatural é supérfluo numa realidade que, contaminada, já é ela mesma monstruosa.
O arco que conecta o maravilhoso de Carpentier ao monstruoso de Schweblin, e que ressoa uma ampla gama de perspectivas e vozes em espanhol, bem como em quéchua, ayamara, nahuatl e tantas outras línguas, contém e põe em questão a tensa coexistência dessas distintas miradas sobre os biomas latino-americanos. De um lado, temos o fascínio, o maravilhamento com uma natureza vista como sublime e incomensurável. De outro, a transformação desses biomas em recursos, em objetos de extração e exploração, no que Jason Moore chamou de “presentes gratuitos da natureza”. Fora dessas perspectivas, que muitas vezes são duas faces da mesma moeda, temos aqueles que chamam as distintas regiões do subcontinente simplesmente de casa – e participam delas como a në ropë de Davi Kopenawa. Mediando essas e outras miradas, a literatura latino-americana vem, ao longo das décadas, articulando as próprias possibilidades de entender, imaginar e produzir sentidos sobre as realidades do subcontinente.
Ao mesmo tempo, a atual crise ecológica, que tem posto em xeque tantas facetas da vida contemporânea, também reconfigura algumas premissas influentes nas imaginações ambientais latino-americanas. Lado a lado com a expansão de atividades extrativas como a mineração e a extração de petróleo, tal qual com o avanço de monoculturas intensivas como a soja e o milho, ou as grandes propriedades pecuárias, lado a lado com as dificuldades cada vez mais insustentáveis de se lidar com rejeitos tóxicos da atividade industrial – com todos esses fatores, caminha também a transformação das maneiras pelas quais a própria ideia de natureza na região vem passando.
Se, conforme o argumento do escritor indiano Amitav Ghosh, de que a crise ambiental traz consigo uma crise de imaginação para a qual a literatura realista ocidental não está preparada, podemos nos perguntar o que essa crise significa de fato nas conjunturas específicas do subcontinente. Pensemos, por exemplo, na ideia de origem romântica de que teria havido uma “natureza pura”, “virgem”, “intocada”, que aparece nos escritos seminais de Alexander von Humboldt (e que continua influente até hoje). Tal ideia, em muitos casos, simplesmente não se sustenta – na medida em que diversas áreas percebidas como “florestas virgens” já viviam uma história de habitação humana e transformação ambiental bastante anterior à chegada dos europeus do século 16. Ainda assim, a crise ambiental contemporânea põe em questão o que tenha restado dessa ideia. Em outras palavras, cada vez mais a crise planetária é entendida e sentida como uma crise densa, que torna ainda menos crível a ideia de uma natureza fundamentalmente separada da vida e das ações humanas.
Nesse contexto, vem ganhando popularidade o conceito de Antropoceno, como a possível época geológica em que os humanos teriam se transformado em uma força geológica. Do ponto de vista da geologia, o Antropoceno permanece em um limbo científico, dado que sua adoção oficial não foi aprovada pelo Comitê Internacional de Estratigrafia em 2024. A despeito dessa incerteza no que diz respeito ao seu lugar na nomenclatura geológica, o Antropoceno vem se popularizando nas ciências humanas e sociais, bem como para além do âmbito acadêmico. Como explicar que um conceito emprestado da estratigrafia tenha se difundido tanto? Uma hipótese possível é a de que o Antropoceno expressa a condição existencial do nosso presente, no qual o impacto humano sobre o planeta está crescentemente cristalizado na imaginação coletiva. Junto a conceitos relacionados – como o Capitaloceno, que põe ênfase no lugar do capitalismo transnacional e extrativo na crise, ou o Plantacionoceno, que enfatiza a importância da plantação colonial escravista na nossa moderna relação com a terra, até o Lixoceno, que lança luz sobre o intenso processo de produção de lixo e desperdício (em sentidos ambiental e humano) nas sociedades contemporâneas –, os muitos “cenos” que povoam o nosso presente trazem à tona o caráter totalizante, ainda que profundamente desigual, das causas e dos efeitos do nosso impacto sobre o planeta.
Para entenderem esse processo no âmbito cultural, as humanidades ambientais e a ecocrítica vêm produzindo uma ampla gama de estudos acerca de como a crise ambiental e suas raízes históricas têm aparecido na literatura, nas artes, no cinema e em outras manifestações culturais. Tal desafio vai desde o enfoque mais literário proporcionado pela ecocrítica até as abordagens interdisciplinares que são chave para entender as humanidades ambientais como campo, passando por uma série de campos relacionados, tais como o ecofeminismo, as humanidades energéticas (que tratam de estudos de energia), as humanidades azuis (que tratam de estudos relacionados à água), os estudos de justiça ambiental e sobre o racismo ambiental, e muitos outros.
Esses campos e subcampos adotam metodologias e paradigmas teóricos variados, e podem se concentrar em determinados aspectos, períodos ou recortes geográficos. Enquanto boa parte da ecocrítica dos anos 1990 e do início do século 21 estava interessada em noções como o “sentido de lugar”, o pertencimento e a habitação, em décadas recentes tem havido um interesse particular por movimentos migratórios de humanos, assim como de mais que humanos, pelos efeitos inter-relacionados da exploração da natureza e do trabalho humano, bem como pela própria dificuldade de definir uma ideia de pertencimento em um mundo em transformação. No entanto, alguns fatores os unem. Em especial, podemos constatar uma abertura para as realidades ambientais que inspiram e que se fazem visíveis nas realidades artísticas. Conceitos tais como a referencialidade e a indexicalidade, que põem em relevo as maneiras pelas quais objetos culturais interagem com realidades concretas, são uma parte determinante da própria maneira pela qual esses objetos podem ser entendidos. Em segundo lugar, esses campos vêm desmontando as ideias mencionadas acima de uma realidade natural separada. Em terceiro, uma atenção para os desdobramentos interdisciplinares e intermediáticos das imaginações ambientais. Em outras palavras, estamos falando de uma produção cultural frequentemente lida com uma variedade de ferramentas conceituais emprestadas de outros campos.
Uma das implicações mais fortes dessa abertura interdisciplinar na América Latina é a importância dos conceitos trazidos por vozes que tradicionalmente foram mantidas às margens da chamada cultura letrada. No âmbito hispano-americano, conceitos como de seres-terra das sociedades andinas estudados pela antropóloga Marisol de la Cadena, ou de corpo-território tal como explicado pela pensadora e ativista Lorena Cabnal, são cada vez mais influentes. Eles, por certo, incluem o pensamento brasileiro, desde o perspectivismo ameríndio popularizado por Eduardo Viveiros de Castro até a ideia de confluência exposta por Antônio Bispo dos Santos (também conhecido como Nêgo Bispo). Essas e outras contribuições nos conduzem a uma ideia aberta de literatura, traspassada por distintos discursos, vozes e concepções. Esse entendimento, que não é de modo algum novo e remonta aos conceitos de heteroglossia e refração propostos por Mikhail Bakhtin, entre outros, ganha novas implicações nas humanidades ambientais. Isso se dá tanto em função das vozes que ressoam na contemporaneidade quanto do fato de que muitas dessas vozes vão além dos próprios contornos do humano. Entender a polifonia em termos amplos, com as várias formas de agência e perspectiva que ela põe em evidência, é uma das tarefas mais relevantes do campo no contexto latino-americano atual.
Todos esses caminhos, tendências, perguntas e anseios perpassam as páginas do presente dossiê. “Humanidades ambientais latino-americanas” propõe apresentar ao leitor brasileiro algumas das contribuições críticas e linhas de pesquisa atuais mais promissoras no campo. Charlotte Rogers se detém no que provavelmente é o gênero mais conhecido na literatura latino-americana, o realismo mágico, para entender como a ficção pode dar sentido a eventos climáticos (como os furacões que regularmente assolam partes do Caribe). Ashley Brock examina a figura do deserto, entendido tanto como um bioma árido ou semiárido quanto como o “espaço vazio” das imaginações coloniais, na produção cultural contemporânea. Santiago Acosta analisa as políticas do petróleo, sobretudo no petroestado venezuelano, para apontar limites e contradições das petromodernidades que dominaram o século 20 e continuam vigentes hoje. Por fim, Amanda Smith mostra de que maneira modos comunitários de narrar podem contribuir no trabalho de processamento do conflito armado que, por décadas, marcou a política e a vida colombianas, com enfoque no papel dos rios como locais, vítimas e forças curadoras dos traumas associados à violência.
Somos cinco autores que, baseados nos Estados Unidos, procuramos abordar, desde uma perspectiva transnacional, as tantas faces do pensamento ambiental no âmbito cultural latino-americano. Para este dossiê, propomos nos concentrar nas culturas hispano-americanas, incluindo o Caribe hispânico, de modo a trazer contribuições renovadas menos presentes na mídia brasileira. O Brasil, no entanto, segue vivo e ressoa como parte dessas projeções continentais que, como os ensaios aqui incluídos mostram, nos fornecem algumas das vias pelas quais as transformações do planeta se tornam visíveis e palpáveis – através das palavras e imagens que povoam nossas imaginações ambientais.
VICTORIA SARAMAGO (organizadora do dossiê desta edição) é professora associada de estudos hispânicos e luso-brasileiros na University of Chicago. É autora de Fictional Environments: Mimesis, Deforestation, and Development in Latin America (Northwestern University Press, 2021)
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