Safra recorde sob riscos de crédito, custos e El Niño

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— Foto: Fernando Dias/Seapa

Começou agora em setembro o plantio da safra agrícola de 2026/27. A expectativa do governo, expressa nos números da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), é de ligeiro aumento de 1,3% em relação à safra anterior, que foi recorde. A produção agrícola pode crescer para 366,6 milhões de toneladas com a ampliação da área semeada, o deve compensar a ligeira queda esperada na produtividade média, que deve ser de 4.200 kg por hectare.

A produção do milho promete chegar a 148 milhões de toneladas, se as condições climáticas forem favoráveis, 2,8% a mais do que na safra 2025/26. Já no caso da soja, o resultado deve ser mais moderado, com aumento de 0,7% na produção, para 181,6 milhões de toneladas. A área cultivada é estimada pela Conab em 49,3 milhões de hectares, com expansão de 1,4%, o que seria o menor crescimento percentual em 20 anos.

A nova safra recorde não está garantida. A agricultura brasileira vem enfrentando dificuldades de suprimentos de alguns insumos, em consequência de conflitos em outras partes do mundo. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, adquirir fertilizantes potássicos ficou mais caro e complexo. A guerra no Oriente Médio, neste ano, acentuou o problema. As escaramuças no Estreito de Ormuz dificultaram a saída de uma grande parcela da produção mundial de ureia e amônia do Golfo Pérsico, além de afetar os preços de todos os combustíveis e dos fretes. O Brasil é especialmente dependente do fertilizante proveniente do exterior. O país importa quase 85% do produto que consume, dos quais 20% são fornecidos pela Rússia, grande produtor de nitrogênio, fósforo e potássio (NPK).

No caso do diesel, o cenário não é menos preocupante e a questão do preço sobressai. A Petrobras responde pela maior parte do abastecimento do mercado nacional. Mas entre 25% e 30% do consumo dependem de importações, cujas cotações vêm oscilado conforme as flutuações do petróleo, causadas pelo conflito com o Irã, influenciando os preços domésticos.

De tempos em tempos, a Petrobras ajusta seus preços às cotações do mercado internacional, e o governo brasileiro tem subsidiado o mercado com a justificativa de amenizar o impacto da guerra no custo de vida da população. Neste mês, já anunciou a desoneração de PIS/Cofins de R$ 0,63 por litro da gasolina e de R$ 0,19 por litro de etanol combustível. No caso do diesel, mais recentemente, após a Petrobras anunciar o aumento do litro do produto em R$ 1, o governo concedeu um subsídio exatamente no mesmo valor, neutralizando o reajuste aplicado pela companhia.

O produtor rural está inseguro com a continuidade da subvenção, concedida por um período determinado. Desta última vez, tem prazo de 30 dias. Além disso, são fortes as críticas à ação do governo, uma vez que a subvenção do diesel e os benefícios aos preços dos combustíveis custam R$ 7 bilhões aos cofres da União por mês.

Todos esses problemas têm sido contornados. Talvez o que mais preocupa o produtor rural no momento é o acesso ao crédito. A inadimplência dos produtores do campo foi a que mais cresceu. O setor financeiro impôs mais exigências e custos mais elevados na oferta de crédito, em um momento em que os insumos também pressionam as margens da agricultura.

Os dados mais recentes do Boletim do Crédito Rural e do Proagro do Banco Central (BC) mostram que a inadimplência no segmento chegou a R$ 45,8 bilhões em julho, ou 5,2%, da carteira de crédito rural de R$ 881,7 bilhões naquele mês — acima da média geral de 4,9% do total de empréstimos concedidos a pessoas físicas e empresas. Uma parcela de nada menos do que 23,5% da carteira de crédito rural, equivalente a R$ 207,4 bilhões, era considerada problemática.

Apenas um ano antes, o cenário era melhor. A inadimplência era só um terço da atual, somando R$ 15,5 bilhões, ou 1,9% do total de R$ 811,7 bilhões do crédito rural naquele momento. As operações classificadas como problemáticas somavam R$ 136,4 bilhões, ou 16,8%.

Além disso, há agora a perspectiva de um El Niño mais intenso, com chuvas atípicas nas regiões Sul e Sudeste e seca no Norte e Nordeste, podendo trazer efeitos negativos na produção agrícola, nos preços dos alimentos e na inflação.

Em reação em cadeia, outros negócios são afetados, como as vendas de máquinas e equipamentos agrícolas. Afinal, o agro é atualmente um importante motor da economia brasileira. A participação da atividade agropecuária no Produto Interno Bruto (PIB) do país ficou em 7,1% no ano passado, o maior percentual da série histórica iniciada em 2000 do IBGE. Se forem acrescentadas atividades industriais e de serviços relacionadas, a contribuição do setor para o PIB chega a 23,4%. O agro também tem repercussão relevante no comércio exterior. As exportações do agronegócio atingiram o recorde de US$ 169,2 bilhões em 2025, respondendo por 48,5% de todas as vendas brasileiras ao exterior, e geraram superávit comercial de US$ 149,07 bilhões. Esses números explicam a enorme expectativa depositada na nova safra.

[Fonte Original]

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