A falta de dinheiro e o medo da violência são os principais obstáculos que afastam os brasileiros de shows, cinemas, teatros, museus e outras atividades culturais. Segundo a sétima edição da pesquisa Hábitos Culturais, da Fundação Itaú, 35% da população apontam questões financeiras como um dos fatores que desestimulam a participação em eventos culturais presenciais, enquanto 30% mencionam a insegurança. Apesar dessas dificuldades, o consumo de cultura cresceu no país: 88% dos brasileiros realizaram pelo menos uma atividade cultural presencial nos 12 meses anteriores à pesquisa. Eram 84% em 2025.
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Entre os que apontaram a insegurança como obstáculo, 47% temem roubos ou furtos perto dos eventos, 43% citam a falta de policiamento e 29% receiam assaltos no trajeto. A violência contra a mulher e o assédio nos espaços culturais foram mencionados por 27% dos entrevistados (seis pontos percentuais acima do levantamento anterior). Entre as mulheres, a preocupação chega a 38%, contra 14% dos homens. Outros obstáculos são a falta de tempo (23%), o cansaço (21%), a distância e a lotação dos eventos (19% cada) e a falta de transporte (16%).
Divulgada nesta quarta-feira (14), a pesquisa do Observatório Fundação Itaú, com apoio do Datafolha, ouviu 2.448 pessoas de 16 a 65 anos em 137 municípios, entre 7 e 20 de julho.
Segundo o levantamento, a frequência a shows cresceu de 45% para 51%, a centros culturais, de 26% para 32%, a museus, de 16% para 21%, e a exposições de arte, de 27% para 31%. Eventos ao ar livre atraíram 63% dos entrevistados; festas populares, 45%; cinemas, 39%; e atividades infantis, 37%. Pela primeira vez, a pesquisa investigou a frequência a rodas de samba, pagode e choro (30%), bailes funk (9%), espaços de patrimônio histórico (39%) e pontos de cultura ou espaços comunitários (38%).
A maioria (59%) realiza alguma atividade cultural presencial por mês — eram 61% em 2025. As principais motivações são conhecer novos lugares (48%), relaxar (44%), viver novas experiências (38%) e adquirir conhecimento (37%).
No consumo doméstico, lideram a música on-line (85%), os filmes (76%) e as séries (73%) em streaming. Livros impressos e podcasts empatam (54%), à frente dos jogos eletrônicos (43%) e e-books (38%).
A pesquisa mostra ainda que a desigualdade no acesso à cultura persiste: 97% das classes A e B realizaram alguma atividade presencial no último ano, contra 82% das classes D e E. A distância é maior no cinema (63% contra 18%), seguido pelo teatro (41% contra 17%) e pelos museus (35% contra 14%).
A frequência a shows de música também varia de acordo com a renda: 64% entre os mais ricos e 42% entre os mais pobres. As diferenças aparecem até mesmo no uso de espaços públicos. Enquanto 73% dos entrevistados das classes A e B mencionaram parques como locais de atividades culturais, apenas 37% das classes D e E fizeram o mesmo.
Ruas e praças são os espaços culturais mais utilizados (68%), seguidos por igrejas (61%), parques (54%) e shoppings (44%). Um terço dos entrevistados diz não haver equipamentos culturais perto de casa, e 72% frequentariam mais atividades se fossem oferecidas nas escolas do bairro.
Entre os que realizaram atividades presenciais, 61% têm gastos mensais com cultura. Desses, 46% desembolsam até R$ 100. Eram 52% em 2024 e 49% em 2025. Outros 14% gastam de R$ 101 a R$ 150; 15%, de R$ 151 a R$ 200; e 8%, mais de R$ 400.
Três em cada quatro entrevistados (75%) pagariam por atividades que frequentaram gratuitamente. Entre os visitantes de museus, a disposição chega a 88%; nos shows, a 84%; no teatro ou stand-up, a 82%; e nas exposições e festas juninas, a 70%.
A ampliação do acesso gratuito à cultura é uma reivindicação dos brasileiros aos próximos governantes. Para 42% dos entrevistados, criar ou ampliar programas gratuitos de acesso a cinemas, teatros, shows e museus deveria estar entre as prioridades dos candidatos à Presidência da República e dos governos estaduais.
A criação de equipamentos públicos de cultura foi mencionada por 32%; a modernização dos existentes, por 28%; o financiamento da produção independente, por 26%; e o apoio à cultura nas periferias e comunidades tradicionais, por 22%.
Pela primeira vez, a pesquisa investigou o conhecimento dos direitos culturais. A maioria (68%) sabe que o acesso à cultura é garantido pela Constituição, mas a proporção varia conforme a escolaridade: 85% entre pessoas com ensino superior, 66% com ensino médio e 56% com ensino fundamental. Nas classes A e B, são 78%, contra 61% nas D e E.
Quando convidados a explicar espontaneamente o que significa ter direito à cultura, 27% dos entrevistados não souberam responder. Outros 11% relacionaram o conceito ao incentivo à cultura, 11% à facilidade de acesso, 9% ao conhecimento e 7% à gratuidade. Entre os brasileiros com ensino fundamental, 46% não souberam responder à pergunta, contra apenas 5% dos que têm ensino superior. Nas classes D e E, o desconhecimento chega a 40%, enquanto nas classes A e B é de 12%.
— O dado permite discutir a distância entre a existência formal de um direito, o conhecimento desse direito e a capacidade de exercê-lo. É fundamental que a sociedade reconheça o acesso às atividades artísticas como um direito fundamental para que, a partir disso, possa exigir políticas públicas de cultura — afirma Jader Rosa, superintendente do Itaú Cultural.