A diretoria da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) decidiu, nesta sexta-feira (17), em reunião extraordinária, colocar a comercializadora Tradener em “regime de operação balanceada”. Na prática, isso significa que a instituição verificará os novos registros, ajustes e validações de contratos de compra e venda de eletricidade para evitar exposição financeira negativa das contrapartes da empresa.
A comercializadora, que praticamente abriu o mercado livre de energia do país, em 1998, entrou com pedido de mediação na Justiça do Paraná para suspensão da execução de suas dívidas por 60 dias. Havia conseguido também o que chamou de “ajuste de perfil” nos contratos de energia, que permitia a entrega da energia conforme o recebimento do gerador, e não segundo as definições pactuadas. A Danske Commodities conseguiu derrubar este trecho da liminar e uma terceira decisão estendeu o impacto a outros agentes.
De acordo com a CCEE, a decisão foi tomada após análise de indicadores de exposição, consistência e a evolução do perfil operacional da empresa. “Com base nessa avaliação técnica, o colegiado identificou elementos que recomendam o acompanhamento mais próximo de suas movimentações”, informou.
A CCEE disse também que a iniciativa integra seus esforços para “conservar a estabilidade econômica e promover maior segurança nas transações do mercado de energia elétrica brasileiro, evitando impactos financeiros para o setor”, e que “permanece atuando de forma diligente para garantir a manutenção de um mercado seguro e sustentável”.
A respeito das decisões judiciais, disse ter pedido à própria Tradener as informações para que possa fazer ajustes necessários ainda na contabilização e liquidação de março de 2026, observando os prazos do calendário operacional.
A mediação da Tradener atinge mais de 700 clientes. No setor, a iniciativa causou surpresa por seu ineditismo, já que a companhia buscou os compradores de energia, e não somente credores financeiros. “É como se uma empresa aérea acionasse na Justiça quem comprou uma passagem para viajar”, disse um dos agentes atingidos em condição de anonimato.
Em nota, a companhia reafirma que tomou a medida para “assegurar a continuidade de suas operações e proteger o atendimento aos seus clientes enquanto negocia, de forma ordenada, uma solução com suas contrapartes”, e que uma combinação de fatores estruturais no mercado alterou “profundamente a lógica econômica dos contratos de energia”, afetando de forma generalizada os agentes do mercado livre.
A empresa disse ainda buscar uma “solução negociada que preserve a entrega de energia e uma saída equilibrada para todos”.