A tradução da poesia homérica para o cordel aproveita a natureza oral e performática compartilhada por ambas as tradições, o que torna o processo, salvaguardadas as devidas proporções, surpreendentemente fluído. Enquanto os originais gregos foram compostos em hexâmetros datílicos para serem cantados ou recitados, o cordel utiliza métricas como a sextilha ou o martelo agalopado, que possuem uma cadência familiar ao ouvido brasileiro. Essa transposição não busca uma equivalência literal palavra por palavra, mas sim uma “equivalência de fôlego”, onde a agilidade das rimas e o ritmo marcado da poesia popular nordestina conseguem preservar o dinamismo das batalhas da Ilíada e as astúcias da Odisseia.
Essa fluidez é reforçada pelo fato de o cordelista e o aedo grego operarem por meio lógicas semelhantes de composição por fórmulas e epítetos. Ao ver “Aquiles de pés ligeiros” ou a “Aurora de dedos rosados” transformados em versos rimados, o leitor percebe que a estrutura do cordel acolhe naturalmente o tom épico e as repetições mnemônicas homéricas. Assim, a tradução para o verso popular não apenas simplifica o acesso ao clássico, mas reativa a alma da obra original, devolvendo a Homero sua essência de contador de histórias que fala diretamente ao povo em praça pública. E é com um personagem ficcional cego, em praça pública, que o cordel narrando os conflitos mitológicos bélicos chegam para a Turma da Mônica Jovem.

O desenvolvimento é simples, mas uma atrativa jornada de leitura e contemplação de imagens. Lançado em agosto de 2015, A Guerra de Troia em Versos de Cordel apresenta os personagens de Maurício de Sousa envoltos na última aula de literatura do semestre e a professora resolve debater o tema em sala. Cebolinha, desanimado, inicialmente demonstra desprezo, diferente dos demais colegas, entusiasmados com a temática. O ciclo de debates se encerra e posteriormente, Mônica trafega pela Praça da Sé, de São Paulo, quando de repente se esbarra em um homem de chapéu e óculos escuros. Antes de adentrar na métrica cordelista, todo apresentação é realizada em prosa. Ao pedir desculpas, a jovem inicia uma conversa com o homem em questão é descobre que seu nome é Homero Brasilino, um compositor de cordéis que vende a sua arte em público. A capa amarelada de um dos conteúdos pendurados é sobre o tema da última aula.
Curiosa, Mônica pede ao cordelista para contar a história de Troia ao vivo, para os demais membros da turma. Até então, estamos diante de uma narrativa textual em prosa simples, com os habituais desenhos de Sousa. Quando o conflito começa a ser contado, acompanhado do instrumento musical de Brasilino, adentramos no trabalho de Fábio Sombra, eficiente ao traduzir, tal como os padrões das histórias em quadrinhos que tratam da poesia homérica em formatos visuais, os principais pontos sobre a guerra que envolveu deuses, deusas, mortais, Aquiles, dentre outras figuras mitológicas clássicas. Com violência contida e traços que evitam sensualizar os personagens, a tradução em questão, veiculada pela Editora Melhoramentos, aborda o assunto inserindo os próprios componentes da turma como representações imagéticas daquilo que é contado. Em suas 64 páginas, o tom adotado é de aventura.

Com desenhos de Jairo Alves dos Santos, cores de Kaio Bruder e diagramação de Mariangela Saraiva Ferradás, o projeto se inicia com Aquiles em sua fúria e imponência, como destaque do canto de abertura, seguido do rapto de Helena, Menelau em busca de Agamênon, o convite para Ulisses adentrar na jogada, a profecia de Aquiles, o cero de Troia, a fúria de Apolo, a concepção do cavalo de madeira e o destrutivo incêndio da cidade em questão. Surpreendente como uma “marcha insensata” de morte e perdas trágicas é narrada de maneira a nos fazer ver apenas heroísmo e embalo aventureiro quando lemos nesses formatos traduzidos. Com curiosidades em formato de prosa breve depois que o cordelista termina sua cantoria e a turma agradece, seguindo cada um o seu caminho, o material é uma envolvente introdução ao assunto.
Em A Guerra de Troia em Versos de Cordel, os envolvidos apresentam os elementos mitológicos que fazem parte de uma longa tradição literária, delineados por meio da estética adotada pela equipe da Turma da Mônica Jovem, isto é, os personagens com traços mais finos, corpos alongados e anatomia mais realista em comparação às versões infantis “gordinhas e baixinhas”, os olhos são maiores e mais detalhados, típicos da estética oriental, permitindo uma gama maior de expressões emocionais, bem como uso frequente de grafismos japoneses para transmitir emoções, como gotas de suor para nervosismo, veias saltadas para raiva e linhas de movimento para ação e cores vibrantes que mantêm a identidade cromática das versões clássicas. Os personagens usam roupas contemporâneas e estilosas que refletem a moda jovem atual, na trama do lado de cá, fora da literatura narrada por Brasilino, assertivamente adaptados, no momento em que são inseridos na história de Troia, neste design estabelecido para celebrar os 50 anos da MSP e atrair o público adolescente que consumia quadrinhos japoneses, popularizados no Brasil ao longo do tempo.
A história continua em Ulisses e a Odisseia em Versos de Cordel, lançado no ano seguinte.
A Guerra de Troia em Versos de Cordel (Brasil/Agosto de 2015)
Roteiro: Fábio Sombra
Arte: Maurício de Sousa
Editora: Melhoramentos
64 páginas