Donald W. Winnicott (1896–1971); foto: Lotte Meitner-Graf | Cortesia de Winnicott Trust e Wellcome Collection, Londres
Donald W. Winnicott investiga a experiência subjetiva do espaço com a mesma ênfase que Sigmund Freud investigou a experiência subjetiva do tempo. O lugar e, especialmente, suas fronteiras foi um tema decisivo no pensamento de Winnicott, que se desdobrou em noções como mãe-ambiente, espaço potencial, zona de ilusão, transicionalidade e placement.
Esse deslocamento espontâneo é provocado pela natureza do seu objeto de estudo primordial: o recém-nascido como ser de experiência radicalizada no espaço e na fronteira entre ser e não ser. Winnicott, em seu bordão clássico, nos diz: o bebê não existe. Não existe fora do colo do outro. Reconhece com isso, ao mesmo tempo, a radicalidade da dependência na experiência humana e a importância da materialidade desse colo como uma forma encarnada do tempo histórico.
Bom escutador das transformações do seu tempo, sonhando antecipado o que viria a se tornar a vida hoje, Winnicott desloca uma concepção cronológica do desenvolvimento humano, destacando a experiência como vetor. O resultado disso é uma descrição caótica da organização da experiência de si, no sentido em que não guarda relações de progressão ou estrutura sequencial, ao mesmo tempo que mantém a ideia de continuidade. O ser humano inacabado, em processo permanente de constituição, podendo estar, ao mesmo tempo, em diferentes momentos do processo maturacional.
Winnicott desmonta os marcadores temporais – pré-genital, pré-edípico e pós-edípico – instalando as questões da vida em uma zona fronteiriça que ele chama de espaço potencial.
Melanie Klein já havia habilmente redescrito as experiências iniciais em termos de posições: “posição esquizoparanoide, posição depressiva”. A ideia de fases (oral, anal, genital) ou “estágios”, marcadores amplamente utilizados na teoria de Freud e alguns sucessores, guarda mais conexões com o tempo do que com o espaço. A “posição” em Klein, além de estar mais referida ao espaço do que ao tempo, ainda guarda a vantagem de poder ser lida como forma análoga da ideia de posição militar na estratégia da guerra, como sugere o psicanalista francês Daniel Marcelli.
A posição militar em uma guerra é o que define suas possibilidades de ataque e de defesa. Klein descreve duas posições subjetivas que têm qualidades de ataques e de defesas em relação ao conflito do sujeito com a realidade, que são dinâmicas, complementares e – o mais importante para meu argumento – diante das quais podemos ir e vir, oscilar entre uma posição e outra. Guerra permanente.
Winnicott inventou o que ele chamou de “espaço potencial” como uma fronteira que se alarga entre eu e o outro, criando uma zona de ilusão e confusão saudável do self com o outro, a partir de onde vão se alojar as formas também limiares do brincar, da simbolização e da localização da experiência cultural. Dentro da analogia das posições de Melanie Klein com a guerra, é possível imaginar o espaço potencial como o que seria na guerra um corredor humanitário: zona livre de conflitos, mas não livre de bastante sofrimento em busca do lar.
O espaço potencial de Winnicott encontra ressonância com as composições complexas do nosso tempo, definidas pelo crítico pós-colonial Homi Bhabha em seu livro O local da cultura: “composições complexas de diferença e identidade, passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão”. Winnicott propõe uma concepção de experiência capaz de sustentar essa complexidade na constituição da subjetividade contemporânea.
Winnicott foi consultor psiquiátrico para o governo britânico durante a evacuação de crianças no período da guerra. Existe um modelo de experiência migrante que comove o pensamento de Winnicott que não é o da criança expatriada, mas aquele da criança que foi evacuada da guerra para diferentes formas de lar. O trabalho de Winnicott na fronteira do que é um lar – na construção dos lares temporários, transitórios, instáveis, estáveis – é o modelo de migração que o inscreve, despretensiosamente, na pesquisa da condição migrante.
A condição migrante, aqui, é entendida como o processo da busca, dos entraves e da reconstrução do lar como a experiência humana que marca profundamente o nosso tempo.
Quando voltar para o lar não é uma opção – como uma experiência que aproxima o recém-nascido do migrante –, novas formas de enraizamento precisam ser encontradas para a constituição permanente do self. O espaço potencial, nesse sentido, pode ser compreendido como uma teoria em resposta ao problema do desenraizamento que é clínica, política e ética ao mesmo tempo.
Do sem lugar ao entre-lugar da busca do lar – é aí que a vida acontece.
Marília Velano é psicanalista, mestre em psicologia pela Université Paris VII, doutora em psicologia pela USP e professora do Departamento de Psicanálise com crianças do Instituto Sedes Sapientiae. É autora do livro Razão onírica, razão lúdica: perspectivas do brincar em Freud, Klein e Winnicott (Blucher, 2023).
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Confira a sequência “Winnicott 130 anos” – por Marília Velano