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sexta-feira, maio 1, 2026

Crítica | Ulisses e a Odisseia em Versos de Cordel – Plano Crítico

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A jornada de Ulisses na Odisseia possui um potencial narrativo extraordinário para os quadrinhos, pois sua estrutura é fundamentada na ação visual e em encontros com criaturas fantásticas que ganham vida através das ilustrações. A linguagem das HQs permite que a astúcia do herói e a ira de Poseidon sejam retratadas de forma dinâmica e acessível, transformando o épico clássico em uma experiência imersiva para novos públicos. Traduções contemporâneas, como as ilustradas pela equipe de Maurício de Sousa, desde o antecessor A Guerra de Troia em Versos de Cordel, demonstram como o formato visual pode adicionar camadas de significado ao labirinto de desafios enfrentados pelo protagonista, abrindo espaço, um ano depois, para essa ótima nova jornada delineada em Ulisses e a Odisseia em Versos de Cordel, publicada em 2016.

No contexto do cordel, a obra encontra uma conexão profunda com a tradição oral e a rima, elementos que remetem às origens da própria epopeia de Homero. A métrica das sextilhas e o tom popular do cordel permitem recontar a saga de Ítaca com humor e encantamento, tornando o mito mais próximo da realidade brasileira. Composições como as de Fábio Sombra exemplificam esse potencial, utilizando o verso para narrar as provações de Ulisses e reafirmar a universalidade de sua jornada como uma metáfora da perseverança humana. É o que encontramos por aqui, ao longo de 64 páginas, voltadas aos elementos aventureiros do herói mitológico, com os principais momentos épicos da poesia homérica, aqueles com alta carga de emoção, expostos nessa edição em cores vibrantes e design envolvente dos personagens.

Na edição anterior, os conflitos em Troia são abordados em sala de aula e a Turma da Mônica Jovem, nas férias, encontram com um homem chamado Homero Brasilino, para compreender melhor, em versos de cordel, a saga de Aquiles, contada na Ilíada. Mantendo o padrão estético exatamente como o que foi desenvolvido em A Guerra de Troia em Versos de Cordel, nessa versão, o projeto editorial emula o retorno de Ulisses, os entraves pelo “meio do caminho sempre cheio de pedras” como obstáculos, sendo que de todos os episódios contados, os desafios diante do gigante Polifemo e a passagem pela ilha de Circe são os momentos de maior destaque em ilustrações, versos e, consequentemente, número de páginas na publicação. Assim, ao ler, voltei para reler e por meio de elucubrações, tentei compreender a motivação por detrás do maior destaque para tais episódios. Talvez seja predileção. Eu mesmo amo a passagem moderna das sereias, um dos momentos mais emocionantes das traduções.

Diante do exposto, podemos refletir que o encontro de Ulisses com o gigante Polifemo e a estadia na ilha de Circe são momentos centrais da Odisseia com alto potencial para adaptações em imagens, quadrinhos e cordéis devido ao seu apelo visual icônico e dinamismo narrativo. A figura colossal do Ciclope, com seu olho único e força bruta, oferece um contraste visual imediato com a astúcia e a menor estatura do herói, permitindo composições gráficas que exploram escalas monumentais e cenas de ação tensas, como o momento da cegueira do monstro. Já o episódio de Circe introduz elementos de fantasia e metamorfose, a transformação de homens em porcos, que são ideais para o lúdico das ilustrações e a rima vibrante do cordel, conferindo um ar místico e sedutor às obras.

Ademais, para além da estética, esses episódios funcionam como metáforas “universais” de superação e civilização contra a barbárie, temas recorrentes na cultura popular e nas artes sequenciais. Nas histórias contadas em imagens, a dualidade entre a magia transformadora de Circe e a inteligência estratégica de Ulisses permite explorar expressões faciais ricas e ambientações exóticas que capturam a imaginação de públicos diversos. No cordel, o duelo de inteligência contra Polifemo ecoa a tradição dos “contos de esperteza”, onde o herói franzino vence o oponente poderoso pelo uso da palavra e da trapaça, tornando tais passagens os maiores destaques dessa tradução, momentos que nas reflexões em geral, representam a jornada humana contra obstáculos aparentemente insuperáveis.

Uma década depois, o questionamento: por qual motivo não traduziram ainda a Turma da Mônica Jovem para o âmbito da Eneida e da Divina Comédia? Seriam fascinantes, creio.

Ulisses e a Odisseia em Versos de Cordel (Brasil/Agosto de 2016)
Roteiro: Fábio Sombra
Arte: Maurício de Sousa
Editora: Melhoramentos
64 páginas



[Fonte Original]

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