De acordo com um relatório recente da Binance Research, o mercado de criptomoedas está entrando em uma fase em que o crescimento não se limita mais à negociação à vista, por exemplo.
A expansão para múltiplos ativos, pagamentos, tokenização, mercados de eventos, inteligência artificial e integrações sociais está ampliando a presença dos criptoativos para áreas que, antes, não faziam parte do mesmo ambiente.
Existe uma preferência do usuário para ter uma interface única onde identidade, saldo e todo o leque de atividades financeiras coexistem. Essas são as características básicas de um superaplicativo financeiro que, atualmente, é compreendido como uma camada de agregação.
Durante a maior parte de sua história, o setor de criptomoedas competiu principalmente por participação na negociação. Esse não é mais o cenário. Pagamentos, ativos do mundo real (RWAs), inteligência artificial, entre outros, agora operam em escala significativa na infraestrutura de cripto, o que significa que o mercado endereçável está se expandindo. A tese do superaplicativo é a expressão dessa mudança em nível de produto.
O tamanho do mercado justifica a criação de um superaplicativo financeiro. Em linhas gerais, o mercado global de serviços financeiros gira em torno de US$ 36 trilhões, o de pagamentos em US$ 788 bilhões e o de plataformas sociais em US$ 208 bilhões. As exchanges de criptomoedas movimentam cerca de US$ 55 bilhões. Mesmo uma participação modesta nesses novos mercados representa um montante muito maior do que a base atual.
Superapps com cripto
A lógica dos superaplicativos existe no mundo das criptomoedas há anos. A diferença é que o espaço de produtos adjacentes agora é grande o suficiente para que a agregação seja lucrativa. Em ciclos anteriores, a negociação era madura, mas essa camada era frágil. As stablecoins – criptomoedas que têm o valor pareado ao de moedas fiduciárias como o dólar – eram pequenas. Os ativos tokenizados eram conceituais, as plataformas de pagamento não eram institucionais e o perímetro regulatório não suportava um amplo conjunto de produtos. Cada uma dessas restrições foi flexibilizada.
Em particular, as stablecoins são a ponte mais clara. Elas transformam o saldo em algo mais versátil do que uma garantia para negociação. O mesmo saldo em dólares pode financiar negociações, realizar transferências internacionais, liquidar pagamentos, gerar rendimento ou acessar ativos tokenizados. A oferta circulante de stablecoins ultrapassou US$ 320 bilhões, e o volume mensal on-chain atingiu US$ 7,2 trilhões, superando inclusive a rede ACH dos EUA no início deste ano.
Segundo dados da CryptoQuant, as reservas de stablecoins da Binance são de US$ 45,5 bilhões, elevando a participação da exchange para mais de 68% de todas as reservas de stablecoins mantidas em corretoras.
A regulamentação acompanhou essa evolução. O presidente da SEC, Paul Atkins, descreveu o modelo de superaplicativo, no qual um amplo conjunto de produtos pode estar sob uma única licença, como consistente. Isso é importante porque amplia a gama de produtos que podem, de forma confiável, estar dentro da mesma interface sem a necessidade de entidades legais separadas.

Liquidez
As plataformas mais bem posicionadas para funcionar como um superaplicativo são aquelas que já possuem relacionamento com o usuário e com o financiador. As exchanges de criptomoedas atuam no ponto de entrada, retenção e aplicação do capital. Elas combinam liquidez, execução, custódia de saldo e distribuição em uma única plataforma, e essa combinação é difícil de replicar.
A liquidez garante que novos serviços sejam lançados com mais facilidade. Os saldos são importantes para que os usuários não precisem movimentar fundos em lugares distintos. A distribuição permite que a rentabilidade das vendas cruzadas melhore quando a base instalada já é grande. O relacionamento de financiamento é relevante porque quem detém o saldo está em melhor posição para direcionar a próxima ação.
A estrutura dos SuperApps financeiros também possui muitas camadas diferentes. Um ponto a ser destacado é que as plataformas sociais detêm a atenção, mas carecem de profundidade em serviços financeiros, com exceção de algumas plataformas asiáticas. Cada coluna tem seus pontos fortes; poucas abrangem toda a estrutura em um único lugar, mas as corretoras de criptomoedas são uma das poucas que atuam em todas as camadas.

Integração
O estado final integrado, relativamente alto em ambos os aspectos, é ocupado por alguns dos superaplicativos tradicionais, como WeChat e Alipay. Em particular, a Binance detém a posição mais forte, com uma presença relativamente alta junto ao consumidor graças ao Square e aos lançamentos recentes em IA e chat, enquanto fintechs como a Revolut demonstram uma forte profundidade em suas estruturas financeiras.
A questão fundamental é comportamental. O superaplicativo precisa se tornar suficientemente útil, e frequente, para manter os usuários em um único ambiente. Para as criptomoedas, a dúvida é se alguma das plataformas atuais pode desempenhar esse papel de âncora em escala de consumo.
A via de pagamentos é o vetor inicial mais plausível. Os pagamentos com stablecoins, em 2025, atingiram aproximadamente US$ 390 bilhões, um aumento de mais de 100% em relação ao ano anterior, com pagamentos B2B em stablecoins crescendo 733% e gastos com stablecoins vinculados a cartões aumentando 673%. A ressalva é que os usuários finais ainda representam apenas cerca de 5% do volume total de stablecoins on-chain, com a maior parte do fluxo ainda concentrada em negociação, tesouraria e liquidação. O lado da oferta está se movendo mais rápido do que o lado da demanda, o que representa uma oportunidade, e não uma refutação.
Dois dos maiores obstáculos à adoção de criptomoedas são a complexidade e o isolamento. A interface do produto pode ser difícil para novos usuários e o uso individual não se reforça da mesma forma que produtos baseados em redes sociais ou feeds. A IA pode reduzir o primeiro obstáculo. Os recursos sociais podem reduzir o segundo. O sucesso dos superaplicativos de criptomoedas dependerá tanto dessas camadas de engajamento quanto do próprio conjunto de produtos financeiros.