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sexta-feira, maio 22, 2026

Crítica | Jorge Nº1 e Jorge Nº2 – Plano Crítico

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Todo bom personagem de humor nasce de uma observação quase cínica da realidade, naquele tipo de luz mental que aparece quando o artista consegue processar e dar forma ao “momento” com a devida “alma“. Com o Jorge, de Caetano Cury, não foi diferente. Nascido como derivação das tirinhas sublimes de Téo & O Mini Mundo, série que o jornalista, aquarelista e quadrinista de Caçu (GO) vinha construindo com delicadeza desde 2012, o personagem surgiu de uma imagem de verão que muitos de nós já vimos por aí: um senhor de camiseta amarela, bermuda vermelha e tênis verde-água puxando o short para o meio do peito. O que o próprio autor conta sobre o processo de quase cinco meses de produção, iniciado em dezembro de 2021, dá conta de um momento em que o Brasil começava a viver uma melhor fase da pandemia, com a vacina avançando e o número diário de mortes caindo, ou seja, havia nessa volta à luz um apetite coletivo por leveza e bobagens, algo que Jorge trazia de sobra. O segundo livro da série, com campanha encerrada em setembro de 2025, no Catarse, provou, com sucesso, que o senhorzinho hilário continuava agradando. Jorge, definitivamente, veio pra ficar.

A arte de Caetano Cury chama a atenção pela simplicidade fofa, meio desajeitada, em pequena dimensão; o que faz todo sentido, já que o personagem surgiu com a intenção de fazer parte de Téo & O Mini Mundo. Aquelas tirinhas maiores, contemplativas, pintadas em aquarela com rigor de ilustrador, criaram um cânone visual que Jorge herda e, a partir de determinado ponto, distorce. O traço do personagem é econômico ao ponto de parecer (propositalmente) descuidado, e sim, isso é um grande acerto de concepção. Há uma longa tradição nos quadrinhos de humor, de Peanuts a Garfield, passando por Calvin e Haroldo e Mafalda, isso só para citar alguns dentre os mais conhecidos, onde a aparente ingenuidade estética traz uma carga dramática ou cômica que o texto não diz explicitamente. Com Cury, o impacto visual do formato pensado, originalmente, para se encaixar num ecossistema de tirinhas existenciais, acaba servindo como uma luva ao humor de Jorge. O pequeno espaço da tirinha obriga a piada a ser rápida, a imagem a ser direta, e o riso a acontecer quase antes de a leitura terminar.

Jorge é o melhor exemplo do “tio do pavê“, dono dos trocadilhos manjados, narrados como se fossem a invenção mais recente da humanidade; mas é também o exemplo das “crianças do pavê“, aqueles serzinhos com alma de 99 anos e meio que a gente fica impressionado com falas e atitudes que parecem vir de priscas eras, algo que também é encarnado em Jorge e nos personagens simpaticíssimos que o circulam. Essa dupla natureza do personagem, anacronicamente velho e ingenuamente jovem, é o que o torna mais rico do que parece à primeira leitura. A esposa Cida, o neto Lipe e o amigo Demá são bases perfeitas para as piadinhas de Jorge, cada um reagindo à sua maneira a um humor que nunca envelhecerá. Dito isso, penso que nem todas as piadas dos dois volumes funcionam por completo (pelo menos para mim), e algumas pedem uma segunda leitura para o trocadilho funcionar. Mas a maioria esmagadora das tirinhas traz camadas e camadas de quentinho no coração, fazendo-nos rir e sentir saudade de pessoas que a gente ama e que são exatamente como o protagonista.

Por “ironia do destino” Jorge veio ao mundo quando o Brasil precisava de permissão para sorrir de novo. O humor cotidiano baseado em piadinhas adoravelmente infames tem uma história antropológica longa no Brasil: está na palhaçaria nordestina, nos causos pastelões do interior, nas piadas de comadre que circulam em festas de família, até nas tiradas irônicas e literais das chanchadas, sem contar na tradição das próprias tirinhas nacionais. Ao criar um personagem que encarna esse espírito com afeto em vez de alfinetadas corrosivas, Caetano Cury fez uma escolha que diferencia esses dois livros de Jorge de grande parte do humor gráfico contemporâneo, mais inclinado ao deboche cínico do que à cumplicidade fofa e sugestivamente inocente de um tiozinho de óculos. Diferente de Téo, reflexivo, filosófico e melancólico, Jorge é a alegria física e imediata, aquela alegria do homem que ainda se surpreende com a própria capacidade de rir, o “adolescente de 65 anos“. Os dois livros vão além de uma coleção de tirinhas bem-humoradas. Eles são um retrato afetuoso de um tipo humano que o Brasil conhece de cor e que, quando bem desenhado com traço fofo e piada certeira, tem muito mais a dizer do que qualquer um imaginava.

Jorge Nº1 e Jorge Nº2 (Brasil, 2022 e 2026)
Roteiro: Caetano Cury
Arte: Caetano Cury
Editora: Téo & O Mini Mundo
60 páginas (ambos os livros)



[Fonte Original]

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